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Café: pesquisa monitora transporte de grãos para Itália

Publicado em 31 janeiro 2007

Recente edição do Journal of Food Protection, publicação científica de referência em segurança alimentar, destacou o trabalho sobre o transporte de café verde e as influências da temperatura e umidade na produção de Ocratoxina A, desenvolvido pelo pesquisador Héctor Abel Palácios Cabrera, do Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL), uma das instituições que integram o Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café (CBP&D/Café). O artigo traz os resultados do ensaio que monitorou o café transportado em três conteineres comerciais e três protótipos, do Porto de Santos a Trieste, na Itália.
Desde a saída do armazém em Leme (SP), o café foi analisado e monitorado diariamente pelo pesquisador Héctor Cabrera e pelo técnico na área de transporte do ITAL, Flávio Piza, na viagem que durou 39 dias, entre os trajetos rodoviário, marítimo e ferroviário (de Livorno a Trieste). O trabalho foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), com o apoio do CBP&D/Café e aporte logístico de empresas privadas.
O estudo revelou dois grandes desafios para a pesquisa. Desenvolver conteineres que evitem as variações drásticas de temperatura e minimizem os efeitos da condensação e aumento da umidade, que favorecem a proliferação do fungo Aspergillus ochraceus, agente causador da Ocratoxina A. O outro desafio seria tornar a logística de transporte mais eficiente para evitar que o café permaneça muito tempo no porto de destino. Na rota Brasil e Itália, depois que o café chegou ao porto de Livorno, demorou mais nove dias até o armazém do comprador final.
Seis conteineres (três comerciais e três protótipos) foram colocados em três diferentes posições (convés, abaixo do convés e porão) no navio. Cada protótipo foi colocado ao lado do conteiner convencional, para ser avaliado o uso de isolantes térmicos. Dados de temperatura, umidade relativa, condensação e mudanças de umidade no conteúdo dos grãos foram monitorados com sensores. O conteiner de café localizado no primeiro andar do navio foi o menos afetado pelas oscilações de temperatura que provocavam a condensação e aumento de umidade relativa no espaço livre e regiões laterais. Os cafés localizados no porão, local tradicionalmente utilizado para transporte do café, sofreram a maior variação no conteúdo de umidade (3%), com sinais visíveis de condensação nas paredes do conteiner. O café transportado no convés teve uma variação da umidade intermediária (2%).
Houve um aumento na produção de fungos nos cafés que apresentaram aumento no conteúdo de umidade. Porém, o monitoramento e as análises revelaram que este aumento não foi significativo durante o trajeto marítimo entre o Brasil e a Itália (em média 15 dias), tornando-se maior já no país de destino e até que o café chegue ao armazém da empresa importadora. Contudo, os níveis se mantiveram dentro dos limites aceitáveis pelo mercado europeu. Héctor Cabrera explica que a rota de exportação avaliada, embora de curta duração, sofre brusca variação de temperatura entre o verão brasileiro e o inverno europeu, com aumento significativo da umidade no país de destino.
Até hoje, a utilização de isolantes, substâncias desumidificadoras, ventilação ou embalagens especiais em conteineres visando manter a qualidade do produto representava custos adicionais que oneravam o transporte e não eram valorizados pelo comprador. A tendência de crescimento dos cafés diferenciados pela qualidade superior ou modelos de produção sustentáveis reacendem a questão de sua viabilidade. Isto porque, o aumento da umidade, além de favorecer a proliferação de fungos, também influencia a qualidade da bebida, desmerecendo seu valor e dificultando a conquista de novos mercados.
Como líder em produção e exportação de café, pesquisas com o monitoramento no período pós-colheita, armazenagem e transporte dotam o país de argumentos científicos perante a imposição de barreiras fitossanitárias cada vez mais freqüente neste mercado. De acordo com Héctor, o estudo apontou a necessidade de novas pesquisas, com outros protótipos e rotas de exportação. Ele acredita que o monitoramento das rotas para Alemanha, Japão e outros países importadores sejam estratégicos para o futuro do agronegócio café do Brasil.
Para o pesquisador, cujo estudo orientado pelas pesquisadoras Hilary Castle de Menezes e Marta Taniwaki tornou-se tese de doutorado defendida em 2005, na Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, a rastreabilidade dos produtos tornou-se exigência e o país deve se preparar para isto. "Diante de barreiras fitossanitárias, os conteineres especiais não serão um luxo, mas sim, necessidade". As informações partem da Embrapa.
(FR)