Notícia

UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas

"Café com Queijo", com a mesma casa de caboclo, 12 anos depois

Publicado em 10 junho 2011

Por Carlota Cafiero

"Café com Queijo" foi concebido e montado para que o público se sinta acolhido como em casa de caboclo. Os atores do Lume Teatro Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini - formados em artes cênicas pela Unicamp - dividem o espaço cênico com o público cercados por quatro "paredes" feitas com centenas de retalhos de pano pacientemente costurados por Nair Barbosa Pinto e Carmem Castanho, que dão a sensação de aconchego.

Apesar de ter um sabor local, o espetáculo, desde quando estreou, em 1999, emocionou públicos de 52 cidades do interior e de capitais do Brasil e até de Portugal, nas cidades de Évora, Santo André e Lisboa. A partir deste domingo (12), volta a São Paulo para quatro apresentações no Sesc Itaquera, dentro do evento em homenagem à escritora Cora Coralina: Festas Brasileiras - Doces Cores de Cora.

Fruto das experiências vividas pelos atores em duas viagens de campo - feitas com o apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) -, em 1993 e 1997, quando percorreram os estados de Goiás, Tocantins, Minas Gerais, Rio Grande do Norte, Amazonas e São Paulo para conviver com caboclos e comunidades indígenas e ribeirinhas, "Café com Queijo" fala de um Brasil profundo, lembrado por meio de lendas, causos, canções, vozes e corporeidades dos moradores locais.

O espetáculo também é resultado do desenvolvimento da técnica da Mímesis Corpórea - criada no Lume -, que consiste no processo de codificação de ações físicas e vocais do cotidiano obtidas pelo ator através da observação de pessoas, animais, pinturas e fotos. Dessa forma, além de histórias e canções, os atores trouxeram nos corpos as ações físicas e vocais dos moradores quase anciões que observaram nas viagens, de gente como Seu Justino, Dona Conceição, Dona Maria Chorona, Seu Mata-Onça.

Antes de "Café com Queijo", a Mímesis e as pesquisas de campo geraram três outros espetáculos, hoje fora de cartaz: "Taucoauaa Panhé Mondo Pé (1993), "Contadores de Estórias (1995) e "Afastem-se vacas que a vida é curta" (1997). Diferentemente das demais montagens, e por um desejo dos atores, "Café com Queijo" não teve direção externa, mas contou com a participação de importantes colaboradores, como o músico e violeiro Ivan Vilela, cuja obra faz parte da trilha sonora; de Fernando Grecco (in saudosa memoriam), que cuidou do figurino; e do ator e titeriteiro Abel Saavedra, responsável pela iluminação.

As apresentações em São Paulo serão neste domingo (12) e dias 17, 19 e 26 de junho, às 15h30, exceto 17, às 11 horas. O Sesc Itaquera fica na Avenida Fernando Espírito Santo A. Mattos, 1.000. Contato: 11-2523-9200. Os ingressos vão de R$ 1,50 a R$ 7,00. Saiba mais na entrevista com a atriz Ana Cristina Colla

Carlota Cafiero - Há 12 anos em cartaz, "Café com Queijo" circulou por todos os Estados do Brasil, viajou para Portugal, e sabemos de espectadores que o assistiram mais de cinco vezes. Qual é o segredo desse sucesso?

Ana Cristina Colla - Eu acho que é por causa do universo do qual o espetáculo trata, que faz parte da memória das pessoas e permite que cada uma faça sua viagem particular ao assisti-lo. Tem também a ver com o aconchego da proposta cênica, fazendo com que o ator esteja ao lado do espectador. Isso altera a recepção do espetáculo. É tudo muito próximo. E tem uma hora em que o público é chamado a participar ativamente da cena.

Carlota - Você nota impressões muito diferentes do público dependendo da cidade em que o espetáculo é apresentado?

Ana - As impressões são diferentes, mas é sempre muito bem recebido. Em São Paulo, por ser uma cidade mais acostumada ao teatro, o público ocupa logo os lugares e entra no jogo em dois segundos. Em cidades do interior, a gente percebe que as pessoas entram devagar (no espaço da apresentação), uma atrás da outra, sem saber direito onde sentar. Em São Paulo, o espetáculo mexe com o saudosismo das pessoas que têm uma memória do campo ou de um avô, enquanto que nas cidades do interior, as pessoas ainda vivem inseridas naquela realidade ou têm uma pessoa daquela maneira na família. Em Portugal, por exemplo, a gente achava que as pessoas não iriam entender, mas muitas choraram no final. Já tivemos dinamarqueses no público que não entenderam uma palavra, mas se emocionaram como a musicalidade. Então, cada pessoa entende de uma maneira.

Carlota - Não ter direção externa para o espetáculo foi opção ou falta de opção?

Ana - Foi uma opção. Montamos o espetáculo depois que duas atrizes, a Luê (Luciene Domenicone) e a Ana Elvira (Wuo), se desligaram do Lume. Elas faziam parte do (espetáculo) "Contadores de Estórias" (de 1995), que era uma "perolazinha" nossa. Ficamos nós quatro - Ana Cristina Colla, Jesser de Souza, Raquel Scotti Hirson e Renato Ferracini - sem espetáculo, porque não queríamos remontar "Contadores de Estórias" com elenco menor. Até então, éramos orientados pelo Simi (Carlos Simioni) e pelo Ric (Ricardo Puccetti, dois dos membros fundadores do Lume) e também decidimos que queríamos independência na nova montagem. Como tínhamos muito material das viagens, fomos para a sala de trabalho com as canções e histórias coletadas. Os nossos orientadores viram o espetáculo somente na estreia. Os únicos olhares de fora antes de estrear vieram dos colaboradores Ivan Vilela, Fernando Grecco e Abel (Saavedra).

Carlota - Há o desejo de se lançar em novas viagens de campo?

Ana - Um sonho antigo nosso é o de levar "Café com Queijo" para os lugares de onde ele nasceu. Alguns moradores com os quais convivemos ainda estão vivos, como Dona Conceição, de Goiânia, que já assistiu ao espetáculo, mas alguns faleceram assim que voltamos da viagem de campo.

Por onde "Café com Queijo" passou (fora Campinas)

1999

São João Del Rey (MG)

Santa Maria (RS)

São Paulo (SP)

2000

10 cidades de Santa Catarina dentro do projeto Palco Giratório

Salvador (BA)

Ilhéus (BA)

2001

Araraquara (SP)

Jundiaí (SP)

São Paulo (SP)

Porto Alegre (RS)

João Pessoa (PB)

2002

Rio de Janeiro (RJ)

São Paulo (SP)

Uberlândia (MG)

Itajaí (SC)

Mariana (MG)

São José do Rio Preto (SP)

Santos (SP)

Natal (RN)

Belo Horizonte (MG)

2003

São Paulo (SP)

Piracicaba (SP)

Sertãozinho (SP)

São João da Boa Vista (SP)

Blumenau (SC)

São José do Rio Preto (SP)

Belo Horizonte (MG)

Porto Alegre (RS)

2004

Franca (SP)

Londrina (PR)

Santo André (SP)

São Paulo (SP)

Pelotas (RS)

2005

Rio de Janeiro (RJ)

Fortaleza (CE)

São Paulo (SP)

Taubaté (SP)

Belém (PA)

2006

Goiânia (GO)

2007

Rio de Janeiro (RJ)

2008

São Luís (MA)

Santos (SP)

Santo André (SP)

Umuarama (PR)

Presidente Prudente (SP)

São Paulo (SP)

Brasília (DF)

2009

São José dos Campos (SP)

São José do Rio Preto (SP)

Mirassol (SP)

Espírito Santo do Pinhal (SP)

Limeira (SP)

São Bernardo do Campo (SP)

São Caetano do Sul (SP)

São Paulo (SP)

Botucatu (SP)

2010

Araraquara (SP)

São Paulo (SP)

Santo André (SP)

Santo André (Portugal)

Lisboa (Portugal)

Évora (Portugal)

São Paulo (SP)