Notícia

Biólogo

Cadê os golfinhos?

Publicado em 02 dezembro 2020

Cadê os golfinhos?: No litoral do Rio de Janeiro, as populações de algumas espécies caíram a menos da metade, enquanto as de baleia aumentaram.

Por Gilberto Stam/Revista Fapesp

Na baía de Sepetiba, no sul do estado do Rio de Janeiro, hoje dominada por um polo industrial e três grandes portos, são cada vez mais raros os botos-cinza (Sotalia guianensis), mamíferos aquáticos com 2 metros (m) de comprimento, por si só tímidos e fugidios.

Magros e com as costelas aparentes por causa da falta de peixes, agora se comunicam entre si bem menos do que antes em meio ao som dos motores dos navios que encobrem seu assobio. Pode ter restado apenas dois terços dos cerca de mil animais que viviam ali.

Mamíferos marinhos

“Essa espécie é tão arisca que indivíduos capturados por pesquisadores podem se estressar e morrer de ataque cardíaco”, explica o biólogo Rodrigo Tardin, das universidades do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em dezembro de 2019, ele, com sua equipe, publicou um artigo na revista Aquatic Conservation mostrando que, inversamente, na baía de Ilha Grande – vizinha da de Sepetiba e mais preservada – a população de golfinhos parece estar mais estável, vivendo em grandes grupos.

Steno bredanensis

O silêncio dos golfinhos

Ao norte, em frente à cidade do Rio de Janeiro, no fundo da poluída baía da Guanabara, vivem cerca de 40 botos-cinza, um décimo da população dessa espécie que frequentava a região há três décadas, de acordo com estudo da Uerj publicado em 2017 na revista Ecological Indicators. Na entrada da baía, sem se misturar com os botos, vivem os golfinhos-de-dentes-rugosos (Steno bredanensis), com até 2,8 metros de comprimento, que geralmente vivem em águas mais profundas, mas, no Brasil, também ocorrem em águas costeiras.

“Isso facilita bastante a pesquisa sobre seus hábitos, ainda pouco conhecidos em âmbito global”, conta a bióloga marinha Liliane Lodi, do Instituto Mar Adentro, que monitora os cetáceos das águas costeiras da cidade do Rio de Janeiro desde 2011 e publicou um artigo sobre a espécie na revista Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdom em maio de 2020.

“Não há levantamentos nacionais sobre a variação de populações de golfinhos na costa brasileira, mas a contaminação e degradação ambiental devem estar causando declínios populacionais em áreas afetadas por atividades humanas”, estima o biólogo Marcos César de Oliveira Santos, da Universidade de São Paulo, que estuda a movimentação e os hábitos de golfinhos e baleias no litoral paulista.

Criticamente em perigo

Stenella longirostris © Liisa Havukainen

O Livro vermelho da fauna brasileira ameaçada de extinção, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO), classifica o boto-cinza como espécie vulnerável e a toninha (Pontoporia blainvillei) como criticamente em perigo. Essa situação se deve à perda e à poluição dos seus hábitats costeiros e da captura acidental em redes de pescadores.

As baleias, outros mamíferos marinhos do grupo dos cetáceos, estão em melhor situação. Baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae) singram com frequência o mar aberto em frente à baía da Guanabara. “A proibição da caça na década de 1980 permitiu que a população dessa espécie se recuperasse e atingisse os cerca de 20 mil indivíduos atuais”, afirma Tardin.

A população da baleia-franca-austral (Eubalaena australis) também cresceu para 10 mil indivíduos, depois de chegar perto da extinção com uma redução de 90%. “Por serem predadores, os cetáceos ajudam a controlar populações de peixes e demais animais aquáticos que poderiam se tornar dominantes e eliminariam outras espécies”, explica Santos. Apesar dos problemas, a costa do Brasil é um dos maiores centros de biodiversidade de cetáceos do planeta, com 46 das 89 espécies já identificadas.

Guerra e paz

Embora tenham uma vida social elaborada, os golfinhos nem sempre são pacíficos quando se encontram. Pesquisadores observaram que o boto-cinza costuma evitar o nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus), bem maior, com 4 m de comprimento, que também se alimenta em águas rasas.

“O boto-cinza geralmente foge, mas se não o fizer rapidamente, o nariz-de-garrafa pode atacar com violência”, diz Santos. Ele estudou essas e mais três espécies de golfinhos que circulam pelo litoral paulista, como relatado em artigo publicado em agosto na revista PeerJ.

O litoral brasileiro . Cadê os golfinhos?

Nessas horas, o nariz-de-garrafa pode investir com a lateral do corpo ou com a nadadeira para atingir o oponente. Os dentes são usados sempre que possível para arranhar, criando marcas únicas na nadadeira dorsal. Esses sinais são usados depois pelos pesquisadores para identificar cada indivíduo e mapear seu deslocamento. O comportamento belicoso não condiz com a amabilidade fictícia da espécie retratada pela estrela do filme norte-americano Flipper, gravado em 1963 e regravado em 1996.

Outra espécie, a toninha, vive geralmente em águas turvas entre a Argentina e o Espírito Santo, segundo Santos. De cor amarronzada e tímidos, os animais dessa espécie podem ser vistos mais facilmente no litoral norte paulista, uma região de águas mais claras que abriga a maior variedade de cetáceos no estado, possivelmente por causa da grande oferta de alimentos e da concentração de ilhas. De acordo com o pesquisador, o conhecimento mais aprofundado dos hábitos dessa espécies implicaria o uso de gravadores de som funcionando em tempo integral.

Projeto

Ocorrência, distribuição e movimentos de cetáceos na costa do estado de São Paulo ( nº 11/51543-9 ); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular Programa Biota; Pesquisador responsável Marcos César de Oliveira Santos – IO/USP; Investimento R$ 397.921,83.

Artigos científicos