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Exame

Cadê a biotecnologia?

Publicado em 10 dezembro 2003

Por Hélio Gurovitz
COMO É DO FEITO DA GESTÃO LULA, AINDA DEVE HAVER muito debate, muita discussão com a sociedade, muito comitê, muita reunião e tudo o que foi dito ontem ao cair da tarde pode perfeitamente mudar amanhã pela manhã. Por enquanto, porém, as diretrizes traçadas pelo governo federal para a tão esperada política industrial passam ao largo do setor que, como dizem todos os futurólogos, definirá a economia neste século 21: a biotecnologia. No documento divulgado no final de dezembro, o Ministério da Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior elenca quatro setores estratégicos para o país, portanto merecedores de atenção (e dinheiro) do Estado: microeletrônica software, fármacos e bens de capital. Software e fármacos até passam raspando, mas não há menção explícita à biotecnologia. Os futurólogos podem muito bem estar enganados - e o governo, certo - nas suas respectivas escolhas. Mas é sempre bom lembrar alguns fatos: - O agronegócio é hoje a locomotiva da economia brasileira e nosso principal setor exportador. É inegável o aumento de produtividade que os transgênicos, ainda que polêmicos, trazem para culturas como a soja. - Pesquisa mais promissora ainda é a de genes valiosos, como o da maciez da carne bovina perseguido pela Central Genética Bela Vista no projeto do genoma funcional do boi. - Os grupos Votorantim, Suzano, Ripasa e Duraflora se uniram para, ao lado de pesquisadores patrocinados pela Fapesp, decifrar os genes do eucalipto e melhorar a produtividade da indústria de papel e celulose. - O maior sucesso científico brasileiro dos últimos anos foi o seqüenciamento do genoma da bactéria Xyllela fastidiosa, que ataca laranjais. Ele deu origem a pelo menos três empresas hoje envolvidas com várias aplicações tecnológicas, que se estendem da cana-de-açúcar a outras pragas dos laranjais. Ao lado da aviação regional ou da exploração de petróleo em águas profundas, a genômica é hoje um dos únicos setores em que o Brasil é reconhecido como líder tecnológico global. - A biodiversidade da fauna e da flora brasileiras carrega um patrimônio genético incomparável ao de qualquer outro país. Deixemos de lado o truísmo de que a melhor política industrial possível seria uma reforma tributária decente, que desonerasse toda a produção, e aceitemos, por um momento, que é necessário que o Estado tenha um papel ativo na economia e no desenvolvimento. Mais do que repetir histórias que deram certo em outros lugares ou em outras eras, qualquer política industrial que se preze deveria descobrir nossas vocações e tentar colocar o país em posição vantajosa naqueles setores que darão certo amanhã. É no mínimo duvidoso, por exemplo, que um setor como semicondutores ou microeletrônica devesse receber qualquer tipo de incentivo do governo, pois o mundo já está cheio de montadoras de computadores ou fábricas de chips. Como disse certa vez Craig Barrett, presidente mundial da maior fabricante de chips do planeta, a Intel: "Esse bonde vocês já perderam". Os setores de software ou a indústria farmacêutica também contemplados na proposta do governo, parecem mais promissores, pois sempre pode haver espaço para iniciativas criativas ou nichos em que o Brasil tenha competitividade internacional. Mas a biotecnologia é um setor econômico em construção hoje no mundo todo, além de alimentar ambos - software e indústria farmacêutica. Seria bom que, em vez de escolher de antemão os vencedores dos setores estratégicos, o governo apenas criasse condições para a competição. E não se surpreendesse se o futuro for ditado pelos genes.