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“Cada pessoa é uma história que desvendamos tanto no relato das famílias quanto em seus corpos”

Publicado em 10 maio 2021

O médico patologista Paulo Saldiva conta em depoimento à revista Pesquisa Fapesp que se preparava para um período sabático, mas diante da pandemia decidiu ir para a linha de frente das autopsias de covid-19 na Faculdade de Medicina da USP

Quando a pandemia chegou, todos os meus planos mudaram. Depois de dirigir o Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo [IEA-USP] por quatro anos, eu planejava tirar um período sabático, ou mudar minha linha de pesquisa e começar algo novo. Mas uma das coisas que mantive foi a capacidade de fazer autopsias, e foi como se o destino me dissesse: “Você precisa fazer isso”. As autopsias tradicionais de Covid-19 ficaram proibidas em todo o Brasil, pelo alto risco de contágio e por não haver salas com proteção de nível 3 no país. Por isso, fizemos a proposta de testar as minimamente invasivas. Nessa técnica, não é preciso abrir os corpos, retiramos amostras de tecidos usando uma agulha muito fina. As autopsias são essenciais para ajudar a entender os mecanismos de funcionamento da doença.

No começo, meu grupo de pesquisa foi contra porque, além de mais velho, sou asmático. Mas eu queria muito contribuir e tive o apoio da minha família. Como nos primeiros meses não tínhamos certeza da segurança do procedimento em casos de Covid-19, me mantive isolado até dentro de casa. Meus dois filhos já não moram mais conosco, então dormia em quarto separado da minha mulher e usava outro banheiro. Montamos um sistema muito seguro para mim e para ela, eu entrava pela porta de serviço, tirava toda a roupa, já deixava na máquina de lavar e ia tomar banho. Por sorte aguentamos bem, ficamos assim por uns três meses até ver que era seguro. Embora na sala de autopsias o ambiente seja muito contaminado, inclusive o ar, ninguém ficou doente em todo esse período. Usamos boa proteção e nosso sistema se mostrou eficiente.

Pesquisa Fapesp

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