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Correio Popular

Cachaça paulista terá certificação

Publicado em 26 agosto 2010

Amentar a credibilidade da aguardente paulista é o objetivo da Associação Paulista dos Produtores de Cachaça de Alambique APPCA , que está em processo de criação de um selo que irá atestar a qualidade da caninha produzida no Estado. A iniciativa conta com o apoio do Instituto de Química da USP de São Carlos, que em dezembro realiza o 4º Concurso de Avaliação da Qualidade da Cachaça, entre os dias 2 e 5. O objetivo da seleção é premiar as melhores cachaças, tanto do ponto de vista químico quanto sensorial, além de fornecer ao produtor a posição e aceitação de seu produto dentro do conjunto de aguardentes avaliadas.

A produção nacional de cachaça atinge 1,2 bilhão de litros por ano, e São Paulo é o maior produtor do País por concentrar grandes destilarias da bebida, informa o presidente da APPCA, Reinaldo Annicchino. Segundo ele, promover a aguardente de alambique, produto diferenciado das caninhas destiladas em processos industrializados, é a estratégia para aumentar as exportações e o consumo da cachaça paulista no mercado interno.

Cerca de 10% da aguardente brasileira é obtida por meio da destilação em alambique, processo artesanal que transforma o caldo de cana fermentado em um destilado cristalino, que pode ser comercializado imediatamente após a fabricação ou ser envelhecido em tonel de carvalho, processo que encarece o preço da garrafa e valoriza a bebida apreciada pura.

Conforme Annicchino, o método do alambique é o trunfo para promover os destilados paulistas, que atinge nível de qualidade comparável com as boas aguardentes produzidas em outros cantos do País como Minas Gerais, por exemplo. A diferença, segundo ele, é que os produtores mineiros promovem a cachaça há mais tempo, com o uso de ferramentas de marketing e apoio de políticas de promoção da bebida.

Setor

Segundo o Instituto Brasileiro da Cachaça Ibrac , o setor é formado por 40 mil produtores, com cerca de 4 mil marcas formais e emprega mais de 600 mil pessoas. São Paulo, Pernambuco, Ceará, Minas Gerais e Paraíba são os estados brasileiros de maior destaque na produção. Em São Paulo, a APPCA reúne 15 produtores, responsáveis por fabricar 800 mil litros da bebida em processo de destilação em alambiques espalhados em diversas cidades do Estado, como Catanduva, Serra Negra, Americana, Amparo e Jarinu, entre outras.

Para conseguir o selo de qualidade, os produtores terão de submeter seus destilados a uma análise química que irá levar em conta todos os componentes presentes na bebida. O anúncio do programa e de outras iniciativas deve ocorrer ainda no segundo semestre, em evento no Mercado Municipal de São Paulo.

Garrafa pode custar até R$ 350,00, diz comerciante

Quem entende do assunto e tem paladar apurado - o que é diferente de matar a pinga na golada, se importando apenas com os efeitos farmacológicos do destilado - chega a pagar R$ 350,00 por uma garrafa da bebida na Companhia da Cachaça, casa especializada em caninhas de qualidade. Segundo o gerente Alberto José Rodrigues, o preço varia conforme a destilação, tradição e tempo de envelhecimento. São fatores muito bem avaliadas pelo público e estudiosos, conta o gerente da cachaçaria que existe há cinco anos e vende produtos com preço médio de R$ 40,00. Apesar de oferecer cachaça de diversas partes do País, as marcas paulistas também fazem sucesso. Alguns exemplos são: Ouro de Cana, Cachaça Zanoni, Cachaça do Rei e Cachaça Da Diretoria, totalizando 10% de participação das marcas paulistas. Os clientes se surpreendem com a qualidade da bebida dos alambiques de São Paulo. As boas cachaças paulistas, quando oferecidas para degustação, sempre surpreendem, causando bons comentários e uma boa impressão , diz o comerciante, que acredita que incentivos do governo e ações conjuntas promovidas por cooperativas e associações são o caminho para promover a cachaça paulista artesanal. SV/AAN

Alambique deve iniciar safra no final de julho

A safra 2010 da cana-de-açúcar na Fazenda Santa Cruz, deve começar entre esta semana e o início do mês de agosto. Na propriedade localizada em Capivari, cidade que fica a 56 quilômetros de Campinas, está instalada o alambique onde é produzida a Cachaça do Rei, aguardente obtida a partir de processos artesanais que, segundo o fabricante, resultam em uma cachaça três vezes mais pura que as aguardentes de processo industrializado.

Segundo o engenheiro agrônomo Reinaldo Annicchino, responsável pelo alambique, a fabricação de cachaça utiliza as canas plantadas em um talhão que abrange 1% da propriedade atualmente arrendada para uma usina de açúcar. Diferentemente da pinga, que é talagada de uma só vez, a cachaça permite o reconhecimento de sabores frutados e notas de madeira provenientes do tonel no qual foi envelhecida.

O alambique da Fazenda Santa Cruz tem capacidade para 300 litros de carga por processo, e ao longo de um dia de destilação ocorrem quatro ciclos que totalizam 160 litros de bebida. A produção anual é de 15 mil litros da bebida, mas pode triplicar o volume.

O produto recebe beneficiamento de substituição tributária e chega aos distribuidores e atacadistas a R$ 24,50 a garrafa da envelhecida e R$ 15,48 na versão branca. Annicchino calcula que o preço pago pelo consumidor chega a R$ 40,00 a versão envelhecida e R$ 25,00 a versão branca. O produto foi medalha de ouro em 2004 no Concurso de Avaliação da Qualidade da Cachaça e, no momento, amostras da Cachaça do Rei foram enviadas para os EUA, Alemanha, Portugal e Itália, mercados que estudam a importação do produto paulista. SV/AAN

Unesp também vai realizar concurso

Enquanto a USP de São Carlos promove o 4º Concurso de Avaliação da Qualidade da Cachaça, a Universidade Estadual Paulista Unesp de Araraquara promove, nos dias 10 e 11 de setembro, o 6º Concurso Paulista de Cachaça de Alambique, que analisa duas categorias da bebida: envelhecida e não envelhecida.

Conforme o coordenador do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Qualidade da Cachaça da Unesp, João Bosco Faria, são aguardados mais de 80 produtores, que irão submeter cerca de 100 amostras de 5ml de suas cachaças à degustação da banca avaliadora e populares.

Além da análise sensorial, haverá a avaliação da qualidade do destilado sob o ponto de vista físico-químico, aferindo os parâmetros legais exigidos pelo Ministério da Agricultura. Conforme Faria, a cachaça é uma bebida fácil de ser preparada, por essa razão é grande o número de produtores que herdaram equipamentos dos pais e avós e mantêm processos de fabricação sem controle técnico.

Mas há também aqueles que servem de modelo, com instalações azulejadas e controle da levedura para que se evite a contaminação por bactérias. Encontramos destilados de qualidade bastante variada e composição bem ampla , disse Franco.

Nos dois dias de concurso também vai acontecer o 4º Encontro da Cadeia Produtiva de Cachaça e o Curso sobre Produção, Controle de Qualidade e Aspectos Mercadológicos da Cachaçaria, com inscrição gratuita e entrega de certificado aos participantes.

Centro Tecnológico

A Unesp quer contribuir para a profissionalização do setor com a criação do Centro Tecnológico de Cachaça, iniciativa que une a Reitoria da universidade, Ministério da Ciência e Tecnologia e Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O local, de 400 metros quadrados e investimento de R$ 800 mil, deve estar concluído em setembro para a semana de eventos ligados à bebida.

Segundo Faria, um alambique com capacidade para mil litros permitirá estabelecer parâmetros de análise e pesquisa da cachaça, além de unir profissionais, estudiosos e técnicos, servindo como local de apoio ao setor agroindustrial de micro e pequenos produtores de cachaça.

Franco não tem dúvida sobre o potencial da cachaça, que segundo pesquisas é a terceira bebida mais pedida por estrangeiros em todo o mundo. O próprio coordenador, no ano passado durante um congresso em Cognac, cidade francesa próxima a Paris, desembolsou 90 euros por um copo de caipirinha em um restaurante. SV/AAN