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Caçadores de memórias perdidas

Publicado em 01 maio 2000

Fapesp destina R$ 30 mil para retomada das escavações na matriz velha de São Caetano A matriz velha de São Caetano estará de volta ao centro das atenções históricas do Grande ABC no segundo semestre deste 2000. Projeto desenvolvido pela Fundação Pró-Memória e MAE-USP (Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo), com financiamento da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), prevê a retomada das escavações arqueológicas ao redor da igreja, além da catalogação e publicação dos achados. Diferentemente do que já foi feito no local, o projeto costura novo conceito de trabalho arqueológico. Ou seja, o foco sai da escavação e se expande para o território. É a musealização in loco. "A experiência é inédita no Estado de São Paulo" - afirma a professora Maria Cristina Oliveira Bruno, coordenadora do MAE. Para entender o novo processo é preciso recordar que o conceito de museu nasceu com os colecionadores da Idade Média. Com o movimento renascentista, foram criados os grandes espaços destinados a acolher coleções. Na época pós-moderna, o conceito ganha amplitude. Abrange cidades inteiras e inclui a arquitetura entre as relíquias colecionáveis. "Por meio dessas coleções é possível remontar a história" destaca o arquiteto e pesquisador da fundação pró-Memória. Nivio Tessitore O interesse pela igreja matriz e arredores remonta ao período entre 1717 e 1720, quando o local sediava a Fazenda de São Caetano dos Monges Beneditinos. A localização do espaço no tempo começou em 1990: equipe de arqueólogos do Museu Paulista, comandada por Margarida Andreatta. encontrou vestígios de cerâmica dos séculos XVIII e XIX. "Os achados são prova suficiente da existência de material importante sob a edificação" - relata o presidente da Pró-Memória. Aleksandar Jovanovic. Todo o acervo descoberto durante a primeira escavação está exposto no Museu de São Caetano. A proposta de transformar espaços urbanos em arquivos vivos da memória vai além de emplacar patrimônios. Significa dar sentido ao patrimônio e o esforço da Fundação Pró-Memória é estruturar formato de trabalho que permita usar ferramentas contemporâneas para mostrar e fixar a temporalidade. As escavações em São Caetano devem durar dois anos. O aporte inicial de R$ 30 mil pode receber adendos. As perfurações ficarão limitadas à área de 50 mil metros quadrados no entorno da matriz e ruínas da Indústria Matarazzo. "Só conseguiremos i compilar os valores totais da investida no final dos trabalhos" - diz Jovanovic. A empolgação em torno da retomada dos trabalhos é tanta que alguns pesquisadores arriscam apostar na existência de outros sítios sob o concreto da região. Afinal, desde o descobrimento os caminhos da história do Brasil passam pelo Grande ABC. Todo o desenvolvimento do projeto tem apoio logístico da Prefeitura de São Caetano, sem o qual seria impossível promover as perfurações nas vias públicas. Além das escavações da matriz velha, a Fundação Pró-Memória desenvolve dois projetos com apoio financeiro da União Européia: conservação dos contextos históricos urbanos e revitalização urbana. (TM)