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Cabelo-de-índio, flor do Cerrado, floresce 24 horas depois de queimada

Publicado em 01 abril 2019

As plantas do Cerrado evoluíram na presença do fogo. Segundo uma nova pesquisa publicada na revista Ecology, bastam dois meses para que o Cerrado queimado se transforme em um jardim exuberante. O artigo deu enfoque em uma espécie vegetal que inicia sua floração apenas 24 horas após a queima. “Trata-se da Bulbostylis paradoxa, uma erva perene da família Cyperaceae, conhecida popularmente como cabelo-de-índio”, explica a autora do artigo, Alessandra Fidelis.

Alessandra é professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), no campus de Rio Claro, e investigou o assunto com apoio da FAPESP no âmbito do projeto “Como a época do fogo afeta a vegetação do Cerrado”.

A capacidade de rebrotar e florescer depois de queimada é um importante diferencial do Cerrado em relação às savanas africanas e australianas. Isso já vem sendo relatado, desde o século 19 e início do 20. Mais tarde, este diferencial foi tema da tese de livre-docência do professor Leopoldo Magno Coutinho (1934-2016), da Universidade de São Paulo (USP). Desde 2009, Fidelis vem estudando essa regeneração pós-fogo do Cerrado, mas o que chamou sua atenção, e constitui o ineditismo do artigo em pauta, é a rapidez com que o cabelo-de-índio floresce. “É o único evento desse tipo descrito até o momento no mundo”, comenta.

De maneira geral, a grande oferta de sementes após a queima do Cerrado constitui um importante recurso para animais predadores, como formigas ou aves. A rebrota também oferece folhas mais tenras e palatáveis para mamíferos de grande porte, como veados e bois. O grande problema em relação ao fogo são os incêndios criminosos ou mesmo incêndios espontâneos que acabam assumindo proporções desastrosas devido ao acúmulo de material combustível depois de anos sem queima adequada.

Cabelo-de-índio

O cabelo-de-índio é uma planta amplamente difundida na América do Sul, desde a Venezuela até o sul do continente. “Em nossos experimentos com queima criteriosa como prática de manejo, verificamos que as plantas dessa espécie, reduzidas pelo fogo à condição de tocos carbonizados, começam a apresentar pontinhos brancos 24 horas depois de queimadas. Esses pontinhos são as inflorescências despontando. Em pouco mais de uma semana, as flores se encontram completamente formadas e aptas à polinização. A rapidez da resposta constitui uma grande vantagem para a planta, porque possibilita que ela floresça, frutifique e disperse suas sementes por meio do vento em um espaço livre, com o solo descoberto, sem barreiras nem competidores. Apenas 40 dias depois do fogo já é muito difícil encontrar sementes, porque elas se disseminaram”, conta Fidelis.