Notícia

Planeta Universitário

Butantan na Amazônia

Publicado em 19 abril 2010

Responsável por cerca de 90% das vacinas consumidas no Brasil, o Instituto Butantan (IB), de São Paulo, mantém há alguns anos atividades de pesquisa na Amazônia com a finalidade de prospectar novas substâncias farmacêuticas, auxiliar a população e cooperar com instituições de pesquisa locais. Trabalhos do instituto paulista na região foram apresentados no seminário As perspectivas do projeto Butantan-Amazônia para a indústria brasileira, realizado nesta segunda-feira (19/4) na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na capital paulista.

Pesquisadores do Butantan e empresários do setor farmacêutico trocaram informações a fim de estabelecer novas parcerias entre a pesquisa pública e a iniciativa privada.

Foram apresentados casos de produtos desenvolvidos pelo instituto e experiências da indústria em projetos de cooperação com instituições públicas de pesquisa e foram discutidos potenciais da região amazônica para o setor farmacêutico.

A Amazônia é fundamental para o Butantan em vários aspectos. Só para citar um exemplo, é o único lugar no país em que coexistem os quatro principais grupos de serpentes peçonhentas, disse Otávio Azevedo Mercadante, diretor-geral do instituto.

Mercadante contou que o Butantan está investindo em um centro de pesquisas em Belterra (PA). O instituto auxiliará na formação de doutores por meio de parcerias com universidades que trabalharão em projetos utilizando a biodiversidade local como material de pesquisa.

Faz parte do projeto Butantan-Amazônia a recuperação da arquitetura local herdada da Fordlândia, vila fundada pela Ford no início do século 20 com características norte-americanas.

O Butantan também distribui panfletos para mais de 100 povoados ribeirinhos, com informações sobre o risco de acidentes com animais peçonhentos. Trata-se da região no país com maior incidência de acidentes do tipo.

No seminário, o diretor executivo da Recepta Biopharma, José Fernando Perez, apresentou o histórico da empresa da qual é cofundador e desafios enfrentados em sua área de pesquisa. A Biopharma é especializada no desenvolvimento de anticorpos monoclonais para o tratamento do câncer.

O Brasil tem várias vantagens para esse tipo de pesquisa, custos operacionais vantajosos, pessoal qualificado, diversidade genética, entre outros, destacou Perez, diretor científico da FAPESP de 1993 a 2004.

A Biopharma mantém parceria com o Butantan para a produção de linhagens de células necessárias ao desenvolvimento dos anticorpos monoclonais.

No entanto, Perez lamenta ainda não existirem no país instalações voltadas para a produção dos anticorpos. Já produzimos em escala piloto, mas a escala industrial ainda não pode ser feita no Brasil, pelo menos, por enquanto, disse.

Spartaco Astolfi Filho, professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), falou da falta de pessoal especializado no Norte do país para se trabalhar com pesquisas de biotecnologia e convidou o Butantan a participar da Rede de Biodiversidade e Biotecnologia da Amazônia Legal (Rede Bionorte), que procura formar doutores dessas áreas nos nove Estados que participam da Amazônia Legal.

Formar doutores locais é uma tarefa das mais importantes. Os doutores criam e lideram grupos de pesquisa, abrem empresas e interagem com a iniciativa privada, disse. Astolfi, que também é consultor da farmacêutica Cristália, apresentou o departamento de pesquisa da empresas que também têm parceria com o Instituto Butantan.

Patentes de produtos naturais

Trabalhos conduzidos no Centro de Toxinologia Aplicada (CAT) - um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da FAPESP, localizado no Instituto Butantan - com o objetivo de desenvolver compostos que atuem no tratamento de problemas de homeostasia ou coagulação sanguínea foram apresentados por Ana Marisa Chudzinski Tavassi.

A pesquisadora destacou se tratar de um tema de interesse mundial. Pesquisas em diversos países estão procurando por novos anticoagulantes, disse. Para isso, a equipe do CAT procura substâncias naturais em animais que se alimentam de sangue.

Entre as fontes dessas substâncias estão sanguessugas e carrapatos. Para poder se alimentar de sangue, esses animais possuem anticoagulantes presentes na saliva, disse Ana Marisa.

Também foram isoladas substâncias da toxina da Lonomia obliqua, uma taturana encontrada em várias regiões do Brasil. Esse animal foi selecionado porque suas toxinas apresentam efeitos hemorrágicos nas vítimas.

A partir das substâncias encontradas em carrapatos, sanguessugas e taturanas, a equipe do Butantan sintetizou moléculas por meio do método de recombinação. Entre os resultados da pesquisa estão cinco patentes, uma advinda do trabalho com o carrapato e as outras quatro da taturana.

A procura por moléculas naturais com efeito analgésico foi o tema da apresentação da pesquisadora Gisele Picolo, do Laboratório Especial de Dor e Sinalização do Butantan.

Gisele ressaltou a importância de se descobrir novos tipos de analgésicos de origem natural, os quais se dividem hoje em dois grandes grupos, os oriundos da papoula, como a morfina, e o ácido acetilsalicílico, extraído do salgueiro.

Entre as inúmeras fontes potenciais naturais de analgésicos, Gisele citou animais peçonhentos como aranhas, escorpiões e serpentes, além de anfíbios e, mais recentemente, animais marinhos, considerados de grande potencial.

Ao levantar a história desse tipo de trabalho no Brasil, a pesquisadora lembrou da pesquisa de Vital Brazil, fundador do Instituto Butantan e desenvolvedor do soro antiofídico. Inspirado em um estudo francês, que utilizou veneno da serpente naja para fins analgésicos, Brazil atenuou o veneno da cascavel e o enviou para testes clínicos em pacientes que apresentaram resultados tão bons como os franceses.

Um trabalho de grande destaque do Butantan e do CAT nessa área foi o desenvolvimento do peptídeo crotalfina, extraído do veneno da serpente Crotalus durissus terrificus.

Mais vacinas com custo menor

Paulo Lee Ho, diretor do Centro de Biotecnologia do Butantan, apresentou o desenvolvimento de adjuvantes de vacinas. Substâncias que potencializam a resposta imune do organismo, os adjuvantes permitem a utilização de doses bem menores do antígeno, o princípio ativo da vacina, reduzindo o preço do medicamento e aumentando a produtividade.

Lee Ho destacou o trabalho realizado pelo Butantan em conjunto com o Laboratório de Cristalografia da Universidade de São Paulo (USP) que desenvolveu um complexo imunológico de antígenos encapsulados em sílica. Esse material permite que a vacina seja utilizada por meio de via oral, dispensando o uso de agulha.

Outro exemplo de sucesso apresentado pelo pesquisador foi o adjuvante monofosforil lipídio (MPLA) obtido da vacina pertussis contra a coqueluche. Graças a ele, a dose da vacina contra a gripe influenza H1N1 pôde ser reduzida de 15 microgramas para 3,75 microgramas sem prejudicar sua ação imunizadora. Isso multiplicou por quatro a produção da vacina e reduziu os custos, disse Lee Ho, que destacou o baixo preço do adjuvante produzido no Butantan.

Osvaldo Brazil Esteves SantAnna, diretor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Toxinas - apoiado pela FAPESP e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) -, acentuou a importância da aproximação da pesquisa pública com o setor privado e elogiou o trabalho conjunto das instituições públicas de apoio à pesquisa.

Bisneto de Vital Brazil, SantAnna apontou que o desenvolvimento deveria seguir o modelo do francês Louis Pasteur. Ele não foi 100% acadêmico nem 100% empreendedor, mas soube usar um pouco de cada mundo para expandir o conhecimento e aplicá-lo em benefício público, disse.

Agência FAPESP