Notícia

Folha da Região (Araçatuba, SP)

Butantan fará teste clínico de vacina oral

Publicado em 30 julho 2013

Por Elton Alisson, da Agência FAPESP

O Instituto Butantan deverá iniciar, em breve, testes clínicos de uma vacina oral contra hepatite B que promete ter a mesma eficácia da vacina injetável, mas mais fácil de ser aplicada e com custo mais baixo.

O anúncio foi feito por Osvaldo Augusto Brazil Esteves Sant’Anna, pesquisador do Instituto Butantan, durante conferência proferida na semana passada, na 65ª Reunião Anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), em Recife (PE).

“O protocolo para iniciar os testes clínicos da vacina está sendo preparado. A vacina é importante mundialmente por mudar um paradigma de vacinação”, disse Sant’Anna.

De acordo com o pesquisador, um dos desafios para se administrar vacinas por via oral é fazer com que os antígenos (responsáveis pela imunização) cheguem ao sistema imune, localizado fundamentalmente no intestino.

A dificuldade ocorre porque é difícil atravessar o suco gástrico – que possui acidez muito alta, além de proteases (enzimas que quebram proteínas) – e chegar incólume ao intestino, a partir de onde será realizada a ação de imunização. Por esse motivo, um dos únicos exemplos de vacina administrada por via oral atualmente no mundo é a Sabin, utilizada para imunizar crianças contra a poliomielite.

Sant’Anna, em colaboração com Marcia Fantini, professora do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), desenvolveu uma forma de encapsular e proteger os antígenos da ação do suco gástrico.

Com o uso de nanotubos de sílica – o segundo elemento mais presente na natureza –, os pesquisadores conseguiram que os antígenos da vacina de hepatite B atravessassem a barreira gástrica e chegassem intactos ao intestino.

“Os nanotubos de sílica têm estrutura parecida com favos de mel, com poros onde é possível inserir e encapsular antígenos”, explicou Sant’Anna, que coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Toxinas – um dos INCTs financiados pela FAPESP e pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) no Estado de São Paulo.

TESTES

Os primeiros testes da vacina com sílica em camundongos foram realizados em 2001 e 2002, com uma vacina recombinante (feita de vírus geneticamente manipulados) contra hepatite B produzida pelo Instituto Butantan.

Inicialmente, a vacina foi aplicada nos animais de forma injetável. Em 2007, foram iniciados testes de administração por via oral em animais com a vacina recombinante contra hepatite B com sílica, formulada e envasada pelo Instituto Butantan e fabricada pela indústria farmacêutica Cristália.

O desenvolvimento da vacina resultou no depósito de uma patente, compartilhada pelo Instituto Butantan e pela Cristália. “Constatamos que a vacina oral com sílica melhorou muito a resposta imunológica dos animais. Ela realmente os imunizou efetivamente contra a hepatite B”, afirmou Sant’Anna.

A previsão é de que os testes com humanos sejam concluídos entre 2018 a 2020, e que a nova vacina chegue ao mercado em um prazo de dez anos. O protocolo para a realização desses testes está sendo montado pelo Instituto Butantan em parceria com a Cristália.