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Diário da Saúde

Butantan e indústria farmacêutica vão colaborar em vacina contra dengue

Publicado em 13 dezembro 2018

O Instituto Butantan assinou um acordo de colaboração tecnológica e pesquisa clínica com a Merck Sharp & Dohme (MSD) para o desenvolvimento de vacinas contra a dengue.

A instituição de pesquisa e a empresa farmacêutica - que desenvolvem vacina com base em uma mesma formulação elaborada pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH) - trocarão informações sobre processos produtivos e ensaios clínicos de suas vacinas experimentais, que estão em diferentes estágios de desenvolvimento.

A vacina desenvolvida pelo Butantan está na última fase de testes em humanos, com a participação de 17 mil voluntários. Já a vacina da MSD está na primeira fase de ensaios clínicos, em que é avaliada em um pequeno grupo de pessoas.

Por isso, na primeira etapa do acordo o Instituto Butantan receberá um pagamento antecipado de US$ 26 milhões da MSD e poderá receber mais US$ 75 milhões à medida que a farmacêutica norte-americana atingir marcos no desenvolvimento e comercialização de sua vacina experimental.

"Esse é um fato inédito na vida das instituições de pesquisa brasileiras e representa a vitória de uma maneira de pensar a interação entre os setores públicos e privados que certamente trará muitos benefícios no futuro," disse Marco Antonio Zago, secretário de saúde do Estado de São Paulo e presidente da FAPESP. "É uma satisfação ver que um projeto que foi iniciado a partir de estudos financiados pela FAPESP ao longo de quase 20 anos esteja agora se transformando em um produto que dentro de alguns anos poderá entrar no mercado mundial."

Cessão de tecnologia brasileira

Por meio do acordo, o Instituto Butantan disponibilizará para a MSD o acesso às informações sobre os ensaios clínicos em curso até que ambos os parceiros cheguem a um nivelamento. Desse ponto em diante, a colaboração se dará livremente, ainda que cada um dos parceiros venha produzir sua própria vacina.

O acordo também prevê o licenciamento exclusivo de patentes relacionadas à vacina contra a dengue desenvolvida pelo Butantan para a MSD, ainda que a empresa não venha a utilizá-las parcial ou integralmente. Se, durante o desenvolvimento de sua própria vacina, a MSD obtiver patentes sobre sua tecnologia, o Butantan terá acesso gratuito a elas. A MSD não poderá comercializar no Brasil a vacina que vier a desenvolver e pagará ao Butantan royalties sobre as vendas dela no exterior.

"O acordo mostra que o Butantan atingiu um nível de excelência internacional no desenvolvimento de vacinas de interesse global. Com novos aportes financeiros, poderemos investir ainda mais em produção de vacinas e em pesquisa", disse Dimas Tadeu Covas, diretor do Instituto Butantan.

Vacinas contra a dengue

As vacinas em desenvolvimento pelo Butantan e pela MSD são baseadas em cepas dos quatro sorotipos do vírus da dengue modificadas por pesquisadores de centros de pesquisa do NIH. Essas cepas virais atenuadas diferem dos vírus o suficiente para não provocar a doença e são capazes de desencadear não somente a proteção por meio de anticorpos como também estimular células específicas do sistema imunológico que guardam a memória da infecção pela dengue.

Uma formulação inicial líquida e congelada dessas cepas - ainda não uma vacina apta a chegar ao mercado - foi testada experimentalmente pelo NIH em animais e humanos e apresentou bons resultados.

Em 2009, o Butantan licenciou o uso dessas cepas virais atenuadas para desenvolver uma vacina para ser distribuída apenas no Brasil. E em 2014, a MSD licenciou o uso dessas cepas para desenvolver uma vacina para ser comercializada nos Estados Unidos, Canadá, China, Japão e União Europeia, entre outros países, à exceção do Brasil.

"O acordo permitirá ao Butantan também acelerar os estudos clínicos de sua vacina contra dengue e introduzir parte de seu know how na vacina que a MSD comercializará no exterior, recebendo royalties sobre as vendas", disse Fábio de Carvalho Groff, gestor do Núcleo de Inovação Tecnológica do Instituto Butantan.

"É uma relação de ganha-ganha em que, com base no know how e nos dados dos ensaios clínicos da vacina contra dengue do Butantan, a MSD poderá acelerar seu programa de desenvolvimento e o instituto será compensado financeiramente por isso", disse Groff.