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Gazeta do Povo

Butantan desvenda hemorragia da picada de cobra

Publicado em 30 julho 2010

São Paulo - Estudo inédito do Instituto Butantan, em São Paulo, demonstrou pela primeira vez a forma com que a toxina hemorrágica presente no veneno da jararaca se liga aos vasos sanguíneos. A descoberta pode auxiliar a desenvolver novos medicamentos que evitariam amputações de membros. O estudo é de ampla utilidade, já que as picadas de jararaca representam 90% do total de acidentes com serpentes no Brasil, segundo a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.

Segundo a pesquisa, a substância se fixa às proximidades dos vasos, comprometendo sua integridade e induzindo o sangramento local, que se constitui um dos principais sintomas do envenenamento por jararacas. "Há dois tipos de sintomas: os locais, que ocorrem no local da mordida, e os generalizados, que acometem o organismo como um todo", explica a pesquisadora Ana Maria Moura, uma das responsáveis pelo estudo.

Antiofídico

"O soro antiofídico produzido em cavalos é capaz de neutralizar os efeitos sistêmicos, impedindo a morte do paciente, mas não consegue reverter os efeitos locais tais como a hemorragia, que podem resultar em sequelas graves como a amputação do membro afetado", completa ela.

A descoberta pode auxiliar no tratamento oferecido em casos de acidentes envolvendo esse tipo de serpente. Isso porque, a partir do conhecimento de como a toxina age, será possível usar inibidores capazes de impedir sua atuação. Para isso, entretanto, são necessários estudos complementares.

A pesquisa contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e foi publicada na revista clínica americana de doenças negligenciadas PLoS Neglected Tropical Diseases. Também participaram do estudo pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade da Califórnia, em San Diego (EUA).

Brasil não treina médicos para esses casos

O treinamento dos profissionais de saúde é a principal medida a ser adotada para melhorar o socorro às vítimas de acidentes com animais peçonhentos no Brasil. O assunto foi debatido na 62ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em Natal (RN). Apesar do elevado número de acidentes, os cursos de Medicina não oferecem formação nessa área. O tratamento é à base de soro feito a partir do veneno dos animais.

"É com treinamento que vamos saber se a soroterapia está funcionando", afirmou Luiz Eduardo da Cunha, diretor científico do Instituto Vital Brasil, da Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro. O diretor reclama da falta de uma longa série de dados com registros dos acidentes e a efetividade da soroterapia.

O médico e professor da Universidade Federal do Pará Pedro Pardal diz que o ideal é que a vítima seja atendida em no máximo três horas após o acidente para evitar sequelas ou a morte. Mas esse prazo, segundo ele, é quase impossível de ser cumprido na Amazônia, onde as populações ribeirinhas vivem em locais distantes das unidades de saúde. "Se não estiver preparado, o profissional vai dar o soro que não é adequado", afirmou. Pardal defende a produção de soro em pó - que não necessita de refrigeração, ao contrário do líquido, e pode ser levado a qualquer lugar.