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Folha de Londrina online

Butantan desenvolve remédio para doença de gestantes

Publicado em 23 janeiro 2008

A base da nova medicação é o veneno da jararaca e pode combater a pré-eclâmpsia que afeta 10% do total de gestantes.

Pesquisadores do Instituto Butantan, em São Paulo, estão desenvolvendo um remédio à base do veneno da jararaca que pode combater o problema da pressão alta na gravidez.

Conhecida como pré-eclâmpsia, a doença atinge cerca de 320 mil mulheres por ano (10% do total de gestantes) e pode ser fatal.

A equipe do Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão em Toxinologia (CAT/CEPID), que está há seis meses trabalhando no remédio, extraiu um componente do veneno que ajuda a serpente a controlar a sua presa, fazendo com que a sua pressão arterial despenque.

"O veneno tem outros componentes, mas este impede que a presa (geralmente roedores) fuja", afirmou um dos pesquisadores envolvidos nos estudos, Juliano Guerreiro.

A equipe submeteu o pedido de patenteamento do remédio no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa e espera pela aprovação para publicar a descoberta em uma revista científica.

Atualmente, a condição é tratada com remédios para hipertensão, que nem sempre resolvem o problema.

"A pré-eclâmpsia é diferente da hipertensão porque tem outras complicações que caracterizam a doença", ressalta Guerreiro.

Mortes

Segundo o pesquisador, o mecanismo de ação do novo remédio seria diferente dos medicamentos mais comumente usados no combate à hipertensão.

"Os hipertensivos mais comuns são vasodilatadores", diz o cientista. "Nesse caso, a molécula também age nas artérias e promove dilatação, mas de uma forma diferente porque age especificamente em uma proteína."

A condição pode se desenvolver a partir da vigésima semana de gestação, mas as suas causas são motivos de controvérsia entre os cientistas.

Segundo Guerreiro, o fato de uma mulher ter pressão alta não significa que ela vá desenvolver pré-eclâmpsia quando ficar grávida.

Sabe-se, porém, que a doença está associada a 30% das mortes de gestantes no Brasil. De acordo com o pesquisador, a maior parte dos óbitos ocorre no parto.

A aprovação da patente também atrairia empresas privadas, e mais recursos, para o projeto. Até aqui, as pesquisas já custaram cerca de US$ 3 milhões e foram financiadas principalmente pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que mantém o CAT/CEPID.


Exames

O próximo passo será fazer os exames toxicológicos da nova droga para, segundo Guerreiro, "saber a toxicidade da droga, se ela interfere no sistema nervoso, no desenvolvimento do feto".

"Nos animais, não vimos nada que desanimasse as pesquisas", afirmou o pesquisador.

Concluída essa fase, deverão ser iniciados os exames clínicos em mulheres. Guerreiro estima que serão necessários pelo menos cinco anos até que a droga esteja disponível comercialmente.

Além de Guerreiro, participam do trabalho Claudiana Lameu, outra pesquisadora do CAT/CEPID, e Antonio Carlos Martins de Camargo, chefe do laboratório.

O veneno da jararaca já foi usado em outras drogas, como no captopril, o primeiro medicamento contra a hipertensão comercializado em larga escala.