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Butantan: da bancada à prateleira

Publicado em 21 julho 2008

Isaias Raw, diretor-presidente da Fundação Butantan, defende, na 60ª Reunião Anual da SBPC, auto-suficiência na produção de vacinas no Brasil

"As pessoas querem ver tudo na prateleira à disposição delas". Apesar de achar injusta a cobrança da sociedade à comunidade científica, é exatamente isto que o pesquisador da USP Isaias Raw, há anos na presidência do Butantan, vem fazendo: desenvolvendo vacinas e colocando-as à disposição da sociedade.

Em simpósio nesta sexta-feira, na Reunião Anual, Raw falou sobre o modelo ideal de se produzir vacinas, da disparidade nos preços dos imunizantes importados e das pesquisas em andamento no Instituto Butantan.

O pesquisador criticou a separação dos setores público e privado no desenvolvimento de vacinas. "O [setor] público desenvolve a pesquisa e o [setor] privado produz a tecnologia, registra e ganha o dinheiro. O ônus é a sociedade que paga."

Raw também censurou o modelo prevalecente no Brasil, que costuma chamar de "modelo Coca-Cola: compra-se o xarope, mistura água, coloca no vidro, rotula e vende. Você não sabe nada, não manda em nada, não entende o que está comprando e não entende o que está vendendo".

No Butantan, que também já viveu épocas de isolamento mesmo estando colado à USP, Isaias Raw ajudou a implantar um modelo diferente. Hoje a entidade é dividida em Instituto Butantan, onde se faz pesquisa básica, e Fundação Butantan, responsável pelas etapas tecnológicas do processo de produção de vacinas.

"Nossa meta é a saúde pública e não o lucro", ressaltou.

Raw destacou, no entanto, que não é fácil desenvolver todo o processo de produção de uma vacina. Para levar da bancada para as prateleiras são milhões de reais. "Nem a Fapesp tem dinheiro para financiar uma vacina. Vamos juntando o dinheiro da Fapesp, com dinheiro do CNPq, com dinheiro do Ministério. Estamos sempre na corda bamba, mas funciona."

Na contramão da auto-suficiência na produção de vacinas, a tendência mundial é, segundo o pesquisador, adotar a estratégia do "pull and push", desenvolvida pela Fundação do Bill Gates. A idéia é comprar vacina dos países desenvolvidos e distribuir para o resto do mundo em desenvolvimento.

"É o que eu chamo de empurre os produtos e puxe o dinheiro. É o que está acontecendo no mundo. Não tem competição, não tem desenvolvimento e não tem garantia que depois de cinco anos, quando a fundação parar de fornecer a vacina, o governo do país vai comprar."

A falta de competição e de países que produzam vacinas tendo em vista a saúde pública leva a uma grande disparidade no preço das mesmas, mostrou Raw.

A vacina conjugada de pneumonia e meningite, anti-Haemophilus B, por exemplo, atinge apenas 20% das crianças no mundo, disse o pesquisador, porque a empresa que detém o seu monopólio a vende por US$ 2,50, o que inviabiliza a imunização em massa. A meningite A, que teria o mesmo princípio, custa US$ 0,40. Por que uma custa 2,50 e outra 0,40 centavos?, questionou Raw.

Outro exemplo de disparidade de preços ocorre com a vacina de hepatite, que custa hoje US$ 0,25 no mercado internacional. Em clínica particular nos Estados Unidos, disse Raw, custa US$ 50. "Como 25 centavos de dólares se transformam em 50 dólares, está faltando uma investigação no imposto de renda dessa empresa."

Em breve nas prateleiras

Persistindo, mesmo que isoladamente, no caminho da auto-suficiência, o Butantan pretende levar, em breve, algumas novidades para as prateleiras.

Uma das recentes conquistas do instituto foi o desenvolvimento, usando engenharia genética, de uma vacina de coqueluche sem um componente tóxico, o lipolissacarídeo, que vinha causando convulsões e outros efeitos colaterais severos em pessoas imunizadas, por conta de um determinado tipo de mutação nos genes dessas pessoas.

Testes com camundongos mostraram que ela possui a mesma eficácia do que a produzida com a toxina e deve entrar no mercado custando o mesmo preço da outra.

Mas a nova vacina não resolveu o problema por inteiro, pois muitas crianças ainda são afetadas pela doença antes de quatro meses de idade. O desafio seguinte foi então encontrar uma forma de imunizar crianças ainda na maternidade. O que o Butantan fez foi implantar na vacina de BCG (contra tuberculose), aplicada no momento em que a criança nasce, a proteína usada na vacina anticoqueluche.

O resultado ainda está sendo testado em camundongos. "É uma vacina totalmente nova que demorou muito tempo para ser resolvida", disse Isaias Raw.

Ele aproveitou para adiantar que outras vacinas devem chegar, em breve, às prateleiras. Entre elas estão as vacinas contra gripe aviária, dengue e leishmaniose.