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Butantan avança na vacina contra hepatite B

Publicado em 01 fevereiro 2012

Por Sonia Nabarrete

Uma vacina administrada por via oral, em vez de injetada, pode aumentar a eficácia de ações preventivas contra a hepatite B, doença viral que afeta o fígado e pode ser letal. Hoje a vacina é ministrada em três doses injetáveis. A pesquisa da nova forma de vacinação, em curso avançado no Instituto Butantan de São Paulo, entrará em testes em humanos ainda este ano e a expectativa é que esteja disponível no mercado dentro de três a quatro anos.

A hepatite B atinge mais da metade da população mundial, que muitas vezes desconhece estar infectada. Segundo os pesquisadores do Butantan, ligado à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo - e um dos maiores centros de pesquisa biomédica do mundo, responsável por mais de 93% do total de soros e vacinas produzidas no Brasil -, espera-se que a inovação resulte em ganho de tempo e dinheiro, com mais ampla cobertura da imunização. Além disso, a vacinação deverá ganhar mais qualidade, uma vez que a descoberta de um novo adjuvante, a sílica nanoestruturada, conduzido com a vacina, eleva a produção de anticorpos que neutralizam o vírus causador da doença.

Osvaldo Augusto Sant'Anna, coordenador da pesquisa e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Toxinas do Butantan, diz que a novidade poderá a ser estendida a outras vacinas. Ele lembra que as primeiras vacinas contra a hepatite B, doença altamente contagiosa e transmissível pelo sangue ou por via sexual, foram licenciadas em 1982, quando eram derivadas de plasma de pacientes com a infecção em sua forma crônica. Logo depois, em 1986, passaram a ser produzidas a partir de tecnologia de DNA recombinante.

"Diversos estudos mostram que as vacinas contra hepatite B têm boa imunogenicidade e são eficazes, com proteção de mais de 90% em adultos jovens sadios e de 95% em lactentes, crianças e adolescentes. No entanto, sua eficácia diminui em pacientes com mais de 40 anos de idade e, também, em casos de pessoas com quadro de obesidade, estresse, tabagismo e alcoolismo", afirma o pesquisador.

O estudo da versão oral da vacina começou em 2001, quando Sant"Anna ouviu a professora Márcia Fantini, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, relatar um experimento de difração de raios X de uma sílica nanoestruturada - "muito bonita, parecida com um favo de mel com seus hexágonos perfeitos", diz ele. "Lembrei-me de um estudo feito no laboratório de imunogenética nos anos 80, com outro tipo de sílica, a coloidal. Essa substância, injetada em altas concentrações em camundongos transformava maus produtores de anticorpos em bons respondedores. Portanto, havia a possibilidade de que a sílica nanoestruturada pudesse carregar em seus favos um antígeno, uma vacina", relata Sant"Anna, em artigo publicado nos Cadernos da História da Ciência do Instituto Butantan.

Com isso em mente, ele procurou Jivaldo Matos e Lucildes Mercuri, pesquisadores do Instituto de Química da USP, que produziam o material, chamado SBA-15. Com a pesquisadora Flávia Lima, o grupo começou um experimento para demonstrar o poder da sílica nanoestruturada na indução dos mecanismos de defesa do organismo, maior do que a proteína absorvida em hidróxido de alumínio, o único adjuvante licenciado para uso em humanos. Esse tema gerou várias teses de mestrado e doutorado e a pesquisa prosseguiu, envolvendo 25 profissionais.

O achado deu origem a uma patente nacional, em 2005, e a outra internacional, em 2008, além de uma parceria com o Laboratório Cristália, pela qual profissionais foram contratados e que financiou boa parte da pesquisa. Em especial, os testes de toxidade, que comprovaram: a sílica nanoestruturada não é tóxica nem provoca qualquer efeito adverso. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo também apoiou o projeto, por meio do subprograma Imunologia do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Toxinas-CNPq/Fapesp.

REBANHOS PROTEGIDOS

Outra importante pesquisa do Instituto Butantan está terminando a fase de testes clínicos, iniciados há pouco mais de um ano, e passará para a fase de testes de durabilidade da proteção. Trata-se da vacina contra uma doença que atinge 70% do rebanho brasileiro, o Papilomavirus Bovino (BPV).

Rita de Cássia Stocco, diretora do Laboratório de Genética do Butantan, explica que o BPV provoca três tipos de doenças no gado, que afetam a produção de couro, carne e leite, mesmo se não chegam a ser fatais. Mas, como não existe tratamento, esse tipo de papilomavirus específico de bovinos é considerado um verdadeiro pesadelo para os pecuaristas.

As doenças geradas pelo BPV são a papilomatose (verrugas ou lesões benignas nos epitélios, que prejudicam o couro do animal e abrem feridas que podem se transformar em vias de entrada de infecções), a hematúria enzoótica (provoca tumores na bexiga e perda de sangue na urina), e o "caraguatá" (carcinoma de trato digestório).

"O vírus compromete a produção de leite e de couro e o animal afetado apresenta sensível perda de peso. Não há cura para a doença e os tratamentos disponíveis são apenas paliativos", afirma a pesquisadora.

As pesquisas para a descoberta de uma vacina contra o BPV são antigas, e começaram a ser feitas em 1978, sob a coordenação de Willy Baçak, ex-diretor do Instituto Butantã. Foram realizados vários estudos sobre o ciclo viral, as formas de transmissão e as características da infecção até a decisão de desenvolver estratégias vacinais, explica Rita de Cássia Stocco. Ela lembra que esses estudos foram pioneiros na identificação das sequências virais em outros sítios, como o sangue, e na descrição da interação viral com os cromossomos do hospedeiro. Segundo a pesquisadora, a expectativa, agora, é a vacina começar a ser comercializada dentro de três a cinco anos.

INSTITUTO BUTANTAN, CENTENÁRIO E ATUANTE

A epidemia de peste bubônica que se alastrava no porto de Santos, em 1899, levou o governo de São Paulo a adquirir a Fazenda Butantan e, no local, instalar um laboratório para produção de soro contra a doença. Em 1901, batizado de Instituto Serumtherápico, e dirigido pelo médico Vital Brazil, já produzia soros e vacinas, dando início a uma história de destaque no incentivo à pesquisa e desenvolvimento científico no Brasil. A dedicação de Vital Brazil à saúde pública, desde esse começo, e as atividades pioneiras do instituto fizeram dele um centro de excelência internacionalmente reconhecido. O instituto colabora com órgãos governamentais de saúde e entidades internacionais no combate a surtos epidêmicos.

Ainda hoje, o Butantan funciona dentro de um parque de 80 hectares, dos quais 62% de área verde aberta à visitação pública. Produz vacinas e soros para uso profilático e curativo, realiza pesquisas científicas e tecnológicas de primeira linha. As vacinas contra difteria, tétano, BCG, coqueluche, hepatite B, gripe (influenza) e H1N1 têm produção 100% nacional. Também vacinas contra coqueluche para bebês com menos de seis meses e contra dengue fazem parte das pesquisas atuais do instituto.