O Instituto Butantan segue ampliando as pesquisas para levar a vacinação contra a dengue a uma das faixas etárias mais vulneráveis à doença. Desde janeiro deste ano, a instituição conduz um ensaio clínico voltado à avaliação da Butantan-DV em pessoas de 60 a 79 anos, com o objetivo de confirmar a segurança e a resposta imunológica do imunizante nesse público.
Os números mostram o avanço da pesquisa. Até 12 de junho, o estudo havia alcançado 74% da meta prevista, com 736 participantes recrutados e 733 já vacinados. Do total, 545 voluntários têm mais de 60 anos, enquanto outros 188 integram o grupo de controle, formado por adultos entre 40 e 59 anos.
A pesquisa está sendo realizada em cinco centros especializados da Região Sul do país, localizados em Curitiba, Porto Alegre e Pelotas. O maior número de participantes foi registrado no Serviço de Infectologia e Controle de Infecção Hospitalar de Curitiba, com 194 voluntários vacinados. Em seguida aparecem o Hospital São Lucas da PUCRS, em Porto Alegre, com 155 participantes, e o Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas, com 151.
Mesmo após a suspensão temporária da estratégia de vacinação com a Butantan-DV pelo Ministério da Saúde para investigação de eventos de segurança, o estudo clínico não foi interrompido. Segundo os pesquisadores, o ambiente controlado dos centros de pesquisa oferece monitoramento permanente dos participantes e permite acompanhar de perto qualquer reação após a imunização.
A diretora médica do Butantan, Fernanda Boulos, afirma que os voluntários estão submetidos ao mais alto nível de acompanhamento clínico.
“Os participantes estão cercados por equipes altamente capacitadas, que monitoram continuamente qualquer sintoma ou alteração após a vacinação. É o ambiente mais seguro possível para utilização de um produto em avaliação”, destacou.
O gestor médico de desenvolvimento clínico do Butantan, Érique Miranda, reforça que a inclusão de novos voluntários continua normalmente e que a pesquisa segue cumprindo todos os protocolos científicos e regulatórios.
A expectativa é chegar a 997 participantes, número considerado necessário para identificar possíveis eventos adversos raros. Segundo os pesquisadores, o tamanho da amostra permitirá detectar reações com incidência próxima de 0,5%, parâmetro importante para a avaliação de segurança em uma faixa etária ainda não contemplada na aprovação original da vacina.
A escolha da Região Sul para a realização dos testes também foi estratégica. Como cidades como Curitiba e Porto Alegre apresentam baixa circulação histórica do vírus da dengue, os pesquisadores conseguem medir com maior precisão a resposta imunológica produzida exclusivamente pela vacina.
A ampliação do uso da Butantan-DV para idosos é considerada uma etapa fundamental no enfrentamento da doença. Embora a vacina já tenha aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para pessoas de 12 a 59 anos, os pesquisadores buscam agora comprovar sua segurança também entre aqueles que apresentam maior risco de hospitalização e morte.
Os resultados anteriores do imunizante já demonstraram potencial significativo. Estudo publicado na revista científica Nature Medicine apontou eficácia global de 65% contra a dengue e de 80,5% contra casos graves e quadros com sinais de alarme.
A importância da pesquisa ganha ainda mais relevância diante do cenário epidemiológico recente. Em 2024, o Brasil registrou mais de 6 milhões de casos da doença, o maior número já contabilizado no país. Nesse contexto, ampliar a proteção para a população acima de 60 anos é visto pelos especialistas como um passo decisivo para reduzir internações, complicações e óbitos causados pelo vírus.
“O objetivo central deste estudo é garantir que pessoas entre 60 e 79 anos também possam contar com uma vacina segura e eficaz para se proteger da dengue”, ressaltou Fernanda Boulos.