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Busca por equidade e inclusão no ecossistema de pesquisa tem avançado para além da questão de gênero (2 notícias)

Publicado em 01 de junho de 2023

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Jornal de Curitiba
Por Karina Toledo, de Haia, e Maria Fernanda Ziegler, da Agência FAPESP

A luta contra a desigualdade no ecossistema de pesquisa tem avançado em todo o mundo e há um interesse crescente em solucionar o problema. No entanto, as mulheres e as minorias sociais continuam sub-representadas e subfinanciadas na academia, o que implica piores perspectivas de carreira. Além disso, ainda enfrentam discriminação e preconceito em todas as regiões do planeta representadas no Global Research Council (GRC) – entidade que reúne agências de fomento de 130 países dos cinco continentes e que promove esta semana em Haia (Holanda) sua Encontro anual.

Esta avaliação da situação atual foi realizada por membros do Grupo de Trabalho sobre Gênero (Grupo de Trabalho de Gênero) estabelecido pelo GRC em 2017 para inicialmente promover a participação feminina na ciência. O escopo do trabalho foi ampliado ao longo dos anos, passando a considerar – além de sexo e gênero – aspectos relacionados a raça, etnia, idade e deficiências, entre outros.

Esse grupo de trabalho promoveu na terça-feira (30/05) um painel com líderes de agências de fomento à pesquisa de quatro países. Os participantes tiveram a oportunidade de trocar opiniões sobre o tema e relatar as iniciativas que suas instituições vêm desenvolvendo para promover a igualdade e a inclusão nos ecossistemas locais de pesquisa.

Um dos palestrantes foi Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP, que relatou os avanços promovidos no Brasil pela implantação progressiva do sistema de cotas nas instituições de ensino superior.

“As cotas foram implementadas em 2017 na Universidade de São Paulo (USP), a instituição de pesquisa de maior impacto do país. Eu era reitor naquela época. Com isso, o percentual de alunos formados em escolas públicas subiu de 30% para 52% em 2021. A proporção de universitários negros saltou de 17% para 44%”, relatou Zago, ponderando então que a desigualdade racial ainda é grande entre os pós-graduandos e professores da USP.

Em termos de gênero, o ecossistema da USP apresenta certo equilíbrio: as mulheres correspondem a 49% dos graduandos e 42% dos pós-graduandos. No entanto, ao avaliar as diferentes áreas do conhecimento, percebe-se que a população feminina é predominante em áreas como medicina e farmácia, enquanto nas disciplinas STEM (sigla formada pelas iniciais em inglês das palavras science, technology, engineering e math ) corresponde a algo entre 25% e 30% dos alunos de graduação. “E isso se reflete no perfil dos pesquisadores que atuam nessas áreas”, destacou Zago.

Entre as práticas adotadas pela FAPESP para promover o avanço da agenda de Equidade, Diversidade e Inclusão (EDI), Zago citou a concessão de licença-maternidade para bolsistas (o que na prática significa um acréscimo de quatro meses ao final do prazo previsto para o desenvolvimento do projeto) e a atualização do modelo da Síntese Curricular, que passou a contar com um campo (“outros dados biográficos”) no qual a pessoa pode mencionar eventuais interrupções na carreira decorrentes de licença médica – inclusive maternidade ou paternidade – ou o necessidade de cuidar de outras pessoas, como familiares doentes, deficientes ou idosos (Leia mais em: https://agencia.fapesp.br/36617/).

Zago disse ainda que a Fundação vem desenvolvendo um programa de apoio à iniciação científica de jovens que ingressaram em universidades por meio de ações afirmativas (Leia mais em: https://revistapesquisa.fapesp.br/fapesp-cria-plano-para-ampliar-equidade-diversidade-e-inclusao/), sob o qual deve ser lançado um edital em breve, e destacou a promoção de cerca de 200 projetos de pesquisa relacionados a diferentes aspectos da diversidade e inclusão realizados nas últimas duas décadas.

A perspectiva britânica sobre a agenda de EDI foi apresentada no evento por Dame Ottoline Leyser, Diretora Executiva de Pesquisa e Inovação do Reino Unido (UKRI). Para ela, para que haja pesquisa e inovação de qualidade é preciso criar um ambiente em que as pessoas discordem, apresentem opiniões diferentes sobre um tema e apontem caminhos alternativos. “Sabemos que essas diferenças são incrivelmente importantes para impulsionar a pesquisa. A questão chave é: como construir esses ambientes nos quais diferentes pessoas estão incluídas?”

Segundo Leyser, uma possibilidade é incluir critérios de diversidade no processo de avaliação de projetos e pesquisadores, deixando claro para a comunidade que a diversidade será valorizada.

Uma visão geral da situação no Catar e em países semelhantes na Ásia Ocidental foi apresentada por Hisham Sabir, Diretor Executivo do Qatar National Research Fund (QRDIC). “Nossa comunidade de pesquisa é ampla e variada, vinda de todas as partes do globo. E este é o resultado mais da necessidade do que de um esforço dirigido. Esse fato é válido para aspectos de nacionalidade, etnia, raça, mas não necessariamente para a inclusão das mulheres. Outra peculiaridade do Catar e de países semelhantes da Ásia Ocidental é que, no ensino superior, a população feminina supera a masculina na proporção de três para um – e novamente isso não é algo planejado, mas resultado de uma série de fatores econômicos e econômicos. social. No entanto, na comunidade de pesquisa, o inverso é verdadeiro”, relatou.

De acordo com Sabir, para enfrentar o problema, esforços têm sido feitos para criar mecanismos regulatórios que visem promover a igualdade de oportunidades no ambiente de pesquisa.

O quarto palestrante da tarde foi Laksana Tri Handoko, presidente da Agência Nacional de Pesquisa e Inovação da Indonésia (BRIN). Ele disse que o país abriga uma grande variedade de culturas, raças, idiomas, religiões, climas e ecossistemas. E que uma série de ações afirmativas foram implementadas para promover a igualdade entre as diferentes regiões do país.

“Gostaria de chamar a atenção para a questão da igualdade não apenas em termos de gênero, mas entre as diferentes gerações da comunidade científica. Acho que, de certa forma, isso é um grande problema. É uma questão importante quando se quer atrair as gerações mais jovens e fazê-las optar pela carreira científica”, argumentou Handoko.

Motivado por essa preocupação, o BRIN implementou – além da licença maternidade e das creches em todas as instituições – um sistema de trabalho remoto chamado “work fromwhere”. “Três anos depois, podemos ver que essas medidas melhoraram a qualidade de vida, principalmente para jovens pesquisadores que precisam cuidar de crianças pequenas.”

O debate foi moderado por Signe Ratso, Vice-Diretor de Pesquisa e Inovação da Comissão Européia. Em sua introdução, ela afirmou que a equidade de gênero é uma prioridade na comunidade europeia desde 2012, pois há um entendimento de que “para alcançar excelentes resultados de pesquisa, você precisa usar todas as mentes excelentes”. E informou que o actual programa de promoção da investigação da Comissão Europeia, Horizonte Europa, estabeleceu como critério de elegibilidade a existência de um Plano para a Igualdade de Género que cumpra um conjunto de requisitos obrigatórios.

histórico de trabalho

O evento intitulado “Promoting Equality, Diversity, and Inclusion in Research – Reviewing the Statement of Principles After 7 Years” foi organizado no âmbito do GRC Annual Meeting por Adrien Braem, Senior Director of Policy da Science Europe, e Ana Maria Fonseca de Almeida , membro da coordenação do Programa de Equidade, Diversidade e Inclusão da FAPESP. Ambos são coordenadores do Grupo de Trabalho de Gênero.

Fonseca relatou que o tema começou a ganhar bastante destaque no GRC a partir de 2014, quando as agências associadas divulgaram um “Declaração de Princípios e Ações para Moldar o Futuro: Apoiando a Próxima Geração de Pesquisadores”. Um dos princípios estabelecidos no documento foi “atrair e reter os melhores talentos em toda a sua diversidade”. E entre as ações propostas estava a de promover “a igualdade de oportunidades em pesquisa e desenvolver mecanismos que estimulem pessoas com diferentes fundos prosseguir uma carreira científica, contribuindo para a excelência da investigação”.

Em 2016, um segundo documento com princípios e ações para promover a equidade de gênero na pesquisa. “Esse documento enfatizou a necessidade de promover mudanças estruturais em instituições capazes de impactar crenças e práticas. E isso levou a GRC a criar o Grupo de Trabalho de Gênero”, afirma Fonseca.

Em 2022, o “Declaração de Princípios sobre o Desenvolvimento da Força de Trabalho em Ciência e Tecnologia”. O documento afirma que “uma força de trabalho STEM ampla, vibrante, diversificada e inclusiva, em todos os níveis de habilidade, é fundamental para os ecossistemas de pesquisa nacionais e globais, bem como para as economias nacionais e globais”. E que, por isso, os financiadores devem “priorizar a inclusão de investigadores em início de carreira, mulheres e membros de outros grupos sub-representados nestas áreas”.

Em 2019, o grupo de trabalho produziu uma cartilha intitulada “Apoiando Mulheres na Pesquisa”, em que apresenta políticas, programas e iniciativas adotadas por diversos órgãos públicos de fomento à pesquisa. Dois anos depois, um relatório sobre as práticas adotadas para a coleta de dados relacionados a gênero.

“A ideia de trazer os diretores para discutir formas de aumentar a equidade, a diversidade e a inclusão na pesquisa científica é uma forma de dar maior atenção ao tema e, principalmente, abordar a transversalidade dessas questões na pesquisa. , além de tratar de conteúdos referentes à própria pesquisa, precisa levar em consideração questões de equidade, diversidade e inclusão desde o momento em que é concebida”, disse Fonseca ao Agência FAPESP.

Ela considera, porém, que não basta apenas incorporar minorias à equipe, sem que essas pessoas tenham sido efetivamente incluídas, tendo condições de interferir no desenho da pesquisa.

Fonseca informou ainda que o grupo vem trabalhando com questões relacionadas à violência de gênero em ambientes de pesquisa, buscando criar ambientes mais seguros para a cooperação internacional.

Patrocinado pela Organização Holandesa de Pesquisa Científica (NWO) e pela FAPESP, o GRC Annual Meeting 2023 conta com a presença de representantes de 81 entidades de 63 países.

Para mais informações acesse: https://fapesp.br/grc23.