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GVces - Centro de Estudos em Sustentabilidade

Busca da sustentabilidade ambiental deve incluir cidades e alimentos

Publicado em 30 outubro 2007

Por Murilo Alves Pereira

Do tomate servido na salada no almoço ao tráfego intenso das grandes metrópoles, a questão da sustentabilidade está sempre presente. O tema foi debatido por especialistas na conferência "Cidades sustentáveis", realizada em Porto Alegre.

Cidades do futuro

Segundo o engenheiro civil Miguel Aloysio Sattler, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), os países deveriam começar a planejar as cidades do futuro. "Em 50 anos, a população será maior e os recursos mais escassos, por isso a cidade sustentável já deve ser pensada", disse à Agência FAPESP.

Para ele, a tendência é que os serviços urbanos sejam cada vez mais pontuais. Um edifício sustentável, por exemplo, deverá reciclar a água da chuva, utilizar painéis solares para aquecer a água ou fazer o próprio tratamento do esgoto. "As cidades deverão produzir seu próprio alimento para evitar gastos energéticos", disse.

Energia na alimentação humana

Sattler citou o trabalho do pesquisador David Orr, do Oberlin College, nos Estados Unidos, que mediu os gastos de energia na alimentação humana naquele país. Segundo o estudo, na era pré-industrial um camponês consumia 1 caloria para produzir 50 calorias em alimentos. Hoje, para cada caloria produzida pela agricultura são gastas 17. Hoje, o alimento viaja em média 2,5 mil quilômetros antes de ser consumido.

Salvas as proporções, é o que também ocorre no Brasil. "O tomate que consumimos em Porto Alegre é produzido em Santa Catarina, mas viaja antes para São Paulo. A produção, a colheita e o transporte geram enormes gastos de energia", disse Sattler. Em relação à pecuária, segundo o cientista, é exemplar o Brasil produzir soja para alimentar o rebanho bovino europeu, do outro lado do oceano.

Consumismo como problema ambiental

Para o jornalista André Trigueiro, apresentador do programa Cidade e Soluções, da Globo News, o consumismo do mundo capitalista é o principal problema ambiental da atualidade. A cultura do automóvel superlota as ruas das grandes cidades e prejudica a qualidade de vida das pessoas.

"A cultura do mundo é rodoviária. E não basta ter um carro qualquer, tem que ter um carro que abafe", disse Trigueiro, mencionando o uso de automóveis 4x4 em pleno solo urbano e da associação de consumo com auto-imagem. "É preciso perder a idéia de que somos o que temos", disse.

Segundo Trigueiro, a sustentabilidade depende da mudança mundial da matriz energética, o que não deverá mudar nos próximos anos. "As duas rodas que movem a bicicleta da economia mundial se baseiam em energia suja", disse, referindo-se aos Estados Unidos e à China.

Produção não-sustentável de alimentos

Para Miguel Sattler, a cidade sustentável está em cada componente que a compõe. "É preciso que os serviços e produtos garantam a qualidade de vida das pessoas", disse.

No cultivo do tomate, por exemplo, são aplicados agrotóxicos e, na sua conservação, mais agentes químicos garantem que o produto não se estrague pelo caminho. Segundo o pesquisador, a sociedade está sujeita a uma elevada carga de produtos tóxicos por motivo de uma produção de alimentos não sustentável.

"É questão de nossa própria sustentabilidade garantir uma vida saudável para nós e nossos descendentes", destacou. Redução da fertilidade dos espermatozóides, doenças degenerativas e qualidade do leite materno seriam exemplos dos efeitos da variedade de produtos químicos na saúde humana.

Nitrato

O professor da UFRGS usou a água mineral servida no congresso em outro exemplo. O rótulo da garrafinha informa que a água contém 34 miligramas de nitrato por litro de água, quando o máximo permitido por lei é 10.

"Quando questionaram a empresa sobre essa questão, a resposta foi que o rótulo do produto diz ?água mineral? E não ?água potável". Mas as pessoas não se preocupam com essa questão. Não se importam com a própria sustentabilidade que está em jogo", disse.

Agência FAPESP

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