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Planeta Sustentável

Brito: País ainda precisa vencer o "custo Brasil" da pesquisa

Publicado em 16 setembro 2011

Por Marco Túlio Pires

Desde 2005, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) adota a estratégia de "importar" cientistas para elevar a qualidade da pesquisa científica no Brasil. "Trazendo mais pessoas inteligentes, aumentamos a inteligência do lugar", diz Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, em entrevista ao site de VEJA. Mas fazer ciência por aqui não é tarefa fácil. De acordo com Cruz, além de não possuirmos uma tradição na área científica, existe um "custo Brasil" para a pesquisa científica. É o que muitas vezes emperra a compra de equipamentos ou a renovação da infraestrutura dos laboratórios brasileiros. Na tentativa de superar os obstáculos à pesquisa científica, a Fapesp está dirigindo parte de seu robusto investimento - em 2010 foram 780 milhões de reais - em acordos com organizações estrangeiras e na oferta de bolsas de pós-doutorado em pé de igualdade com grandes centros científicos internacionais. "Pretendemos atrair esses cientistas para trabalhar no Brasil durante quatro ou cinco anos." Para se transformar em uma verdadeira potência científica, contudo, Cruz admite que o Brasil ainda tem muito o que fazer.

O que o Brasil precisa fazer para se tornar uma potência científica?

O principal desafio do Brasil é encontrar uma maneira de valorizar mais o mérito e a excelência científica. O sistema brasileiro desenvolveu uma cultura e uma filosofia que valoriza pouco a excelência.

Isso prejudica a credibilidade científica do Brasil no exterior?

A credibilidade é algo que se conquista ao longo do tempo. Uma das formas boas é trabalhar junto com cientistas excelentes de qualquer lugar do mundo. O Brasil faz menos colaborações internacionais do que seria desejado. Cerca de 45% dos artigos científicos publicados na Inglaterra, por exemplo, são de colaboração internacional. No Brasil, apenas 25%.

A iniciativa privada investe pouco em pesquisa científica no Brasil?

Sim, investe menos do que as empresas de muitos outros países com os quais gostaríamos de competir. No Brasil, existem vários obstáculos ao investimento das empresas em pesquisa. Primeiro, durante muito tempo nossa economia foi fechada, com pouca exposição para a competição internacional. Segundo, por muito tempo nossa economia foi uma confusão, e ninguém apostava em investimentos de longo prazo. O investimento em pesquisa não dá retorno da noite para o dia, nem de um ano para o outro.

As empresas estão investindo mais agora?

Depois da estabilização da economia em 1994, as empresas começaram a prestar mais atenção à pesquisa feita aqui - mas não o suficiente. Durante algum tempo o Brasil ficou dominado pela ideia de que a responsabilidade pela pesquisa científica é exclusivamente das universidades, e o conhecimento gerado seria depois transferido para as empresas. Isso, contudo, é um mito. Nenhum país do mundo funciona dessa maneira.

Quais são os principais obstáculos que as empresas enfrentam?

As empresas no Brasil querem investir em pesquisa, mas enfrentam obstáculos econômicos importantes: os juros, o câmbio e o custo trabalhista, por exemplo. Recentemente uma empresa no Brasil me explicou que é mais barato contratar um engenheiro nos Estados Unidos e construir um centro de pesquisas lá do que em Curitiba. Quando se faz a conta, fica mais vantajoso tirar o dinheiro do país do que investir nele.

Isso quer dizer que falta dinheiro no Brasil para pesquisa científica?

Não é uma questão simples. A capacidade de pesquisa de um país depende do investimento que é feito ao longo de várias décadas. Essa tradição não existe no Brasil. Aqui, o investimento tem oscilado. Por causa disso, há o que chamamos de "custo Brasil da pesquisa científica". Ou seja, existe dinheiro para pagar um valor atraente aos pesquisadores, mas a infraestrutura das instituições é ruim, os equipamentos são desatualizados e assim por diante. Precisamos financiar pesquisas e ao mesmo tempo correr atrás do prejuízo no lado da infraestrutura que foi negligenciada no passado.

Quais são os investimentos mais importantes que a Fapesp tem feito recentemente?

Selecionamos 19 projetos de pesquisa que incluem a compra de um supercomputador para fazer modelos climáticos globais. Agora, estamos concluindo a compra de um navio oceanográfico. A embarcação está recebendo os últimos ajustes em um estaleiro nos Estados Unidos e virá para o Brasil em dezembro. A pesquisa oceanográfica é muito importante para o Brasil. Tínhamos uma tradição de pesquisa nessa área, mas ela foi interrompida por causa de dificuldades com o navio que a USP tinha. A nova aquisição vai permitir uma atividade de pesquisa mais intensa e sofisticada do que antes. Será o principal navio de pesquisas oceanográficas no Brasil. Vai custar 13 milhões de reais e ficará em uma doca da USP em Santos.

Desde 2005, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) adota a estratégia de "importar" cientistas para elevar a qualidade da pesquisa científica no Brasil. "Trazendo mais pessoas inteligentes, aumentamos a inteligência do lugar", diz Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, em entrevista ao site de VEJA. Mas fazer ciência por aqui não é tarefa fácil. De acordo com Cruz, além de não possuirmos uma tradição na área científica, existe um "custo Brasil" para a pesquisa científica. É o que muitas vezes emperra a compra de equipamentos ou a renovação da infraestrutura dos laboratórios brasileiros. Na tentativa de superar os obstáculos à pesquisa científica, a Fapesp está dirigindo parte de seu robusto investimento - em 2010 foram 780 milhões de reais - em acordos com organizações estrangeiras e na oferta de bolsas de pós-doutorado em pé de igualdade com grandes centros científicos internacionais. "Pretendemos atrair esses cientistas para trabalhar no Brasil durante quatro ou cinco anos." Para se transformar em uma verdadeira potência científica, contudo, Cruz admite que o Brasil ainda tem muito o que fazer.

O que o Brasil precisa fazer para se tornar uma potência científica?

O principal desafio do Brasil é encontrar uma maneira de valorizar mais o mérito e a excelência científica. O sistema brasileiro desenvolveu uma cultura e uma filosofia que valoriza pouco a excelência.

Isso prejudica a credibilidade científica do Brasil no exterior?

A credibilidade é algo que se conquista ao longo do tempo. Uma das formas boas é trabalhar junto com cientistas excelentes de qualquer lugar do mundo. O Brasil faz menos colaborações internacionais do que seria desejado. Cerca de 45% dos artigos científicos publicados na Inglaterra, por exemplo, são de colaboração internacional. No Brasil, apenas 25%.

A iniciativa privada investe pouco em pesquisa científica no Brasil?

Sim, investe menos do que as empresas de muitos outros países com os quais gostaríamos de competir. No Brasil, existem vários obstáculos ao investimento das empresas em pesquisa. Primeiro, durante muito tempo nossa economia foi fechada, com pouca exposição para a competição internacional. Segundo, por muito tempo nossa economia foi uma confusão, e ninguém apostava em investimentos de longo prazo. O investimento em pesquisa não dá retorno da noite para o dia, nem de um ano para o outro.

As empresas estão investindo mais agora?

Depois da estabilização da economia em 1994, as empresas começaram a prestar mais atenção à pesquisa feita aqui - mas não o suficiente. Durante algum tempo o Brasil ficou dominado pela ideia de que a responsabilidade pela pesquisa científica é exclusivamente das universidades, e o conhecimento gerado seria depois transferido para as empresas. Isso, contudo, é um mito. Nenhum país do mundo funciona dessa maneira.

Quais são os principais obstáculos que as empresas enfrentam?

As empresas no Brasil querem investir em pesquisa, mas enfrentam obstáculos econômicos importantes: os juros, o câmbio e o custo trabalhista, por exemplo. Recentemente uma empresa no Brasil me explicou que é mais barato contratar um engenheiro nos Estados Unidos e construir um centro de pesquisas lá do que em Curitiba. Quando se faz a conta, fica mais vantajoso tirar o dinheiro do país do que investir nele.

Isso quer dizer que falta dinheiro no Brasil para pesquisa científica?

Não é uma questão simples. A capacidade de pesquisa de um país depende do investimento que é feito ao longo de várias décadas. Essa tradição não existe no Brasil. Aqui, o investimento tem oscilado. Por causa disso, há o que chamamos de "custo Brasil da pesquisa científica". Ou seja, existe dinheiro para pagar um valor atraente aos pesquisadores, mas a infraestrutura das instituições é ruim, os equipamentos são desatualizados e assim por diante. Precisamos financiar pesquisas e ao mesmo tempo correr atrás do prejuízo no lado da infraestrutura que foi negligenciada no passado.

Quais são os investimentos mais importantes que a Fapesp tem feito recentemente?

Selecionamos 19 projetos de pesquisa que incluem a compra de um supercomputador para fazer modelos climáticos globais. Agora, estamos concluindo a compra de um navio oceanográfico. A embarcação está recebendo os últimos ajustes em um estaleiro nos Estados Unidos e virá para o Brasil em dezembro. A pesquisa oceanográfica é muito importante para o Brasil. Tínhamos uma tradição de pesquisa nessa área, mas ela foi interrompida por causa de dificuldades com o navio que a USP tinha. A nova aquisição vai permitir uma atividade de pesquisa mais intensa e sofisticada do que antes. Será o principal navio de pesquisas oceanográficas no Brasil. Vai custar 13 milhões de reais e ficará em uma doca da USP em Santos.