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Boletim do Acadêmico

Brito Cruz: idéias são um insumo inesgotável

Publicado em 21 novembro 2005

Os desafios enfrentados pelos pesquisadores a fim de inserir definitivamente o Brasil na era do conhecimento e a necessidade de enxergar as inovações tecnológicas como um fator crucial para a geração de riqueza. Esses enfoques serviram de base para a sessão que ocorreu na tarde de quarta-feira (16/11), em Brasília, no primeiro dia da terceira edição da Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I).

"Uma economia deve também se basear em idéias, que são um insumo inesgotável", disse o Acadêmico Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, a um auditório lotado formado por representantes dos setores governamental, acadêmico e empresarial. Segundo ele, a soma de idéias inovadoras é um insumo importante para que uma nação passe a integrar a chamada economia do conhecimento.

Para atingir essa premissa, Brito Cruz acredita que a capacidade de "usar conhecimento" não deve estar diretamente atrelada à capacidade de "gerar conhecimento". "Boa parte do saber científico é de domínio público e está disponível no mundo inteiro. Às vezes, não é preciso gerar todo o conhecimento que se deseja utilizar em determinado processo", disse. Segundo ele, o importante é "entender o conhecimento", o que é "bem mais simples do que criar ou gerar um novo conceito".

Brito Cruz ressaltou que, especialmente no mundo acadêmico, o Brasil tem demonstrado uma forte capacidade de gerar conhecimento. O que pode ser comprovado, por exemplo, pelo aumento de artigos científicos brasileiros publicados em revistas especializadas e pelo número crescente de doutores.

"Estamos realmente conseguindo transformar o conhecimento gerado em riqueza, seja no agronegócio, na extração de petróleo ou na fabricação de aviões, por exemplo. O que falta é a repetitividade da geração de riqueza com base no conhecimento nacional", afirma. Isso faz com que a indústria brasileira ainda sinta dificuldades em criar tecnologias inovadoras que sejam relevantes o suficiente para se transformar em patentes. "Em 2004, o Brasil depositou 106 patentes nos Estados Unidos, enquanto a Coréia do Sul ultrapassou os 4 mil", comparou.

Por conta disso, Brito Cruz defendeu o aumento do número de patentes depositadas no Brasil e no exterior, chamando a atenção para o fato de que patente não é só aquela que gera um Prêmio Nobel ou que revoluciona toda uma cadeia produtiva. "O pesquisador brasileiro precisa entender que qualquer produto que tenha perspectiva de ser negociado precisa, antes de tudo, ser patenteado", enfatizou.

"A Unicamp está em segundo lugar entre os principais patenteadores brasileiros, mas, em países com tradição em investimento em inovação, as universidades aparecem apenas a partir do décimo lugar. São as grandes empresas que ocupam os primeiros postos", disse Brito Cruz. Para ele, "empresas é que geram riqueza". O diretor da Fapesp observa que o contribuinte não entende por que deve pagar por ciência. "A ciência avança mais, a competitividade avança menos", conclui.

Como exemplos de aplicação do conhecimento para gerar riqueza no Brasil, Brito citou as eleições eletrônicas com mais de 100 mil votantes, a Petrobras na extração de petróleo a 1.886 metros, os aviões a jato da Embraer, o agronegócio impulsionado pela Embrapa, UFV e Esalq com os exemplos da soja, laranja, e os veículos flex fuel . O Brasil é também o maior e mais eficiente produtor de etanol.

"Temos uma janela de oportunidade escancarada para nós, que é o etanol brasileiro. Mas não estamos pulando dentro", afirma Brito. Para ele, o país está indo devagar neste assunto, que ajudaria a criar oportunidade para empresas grandes e pequenas, institutos de pesquisa e universidades.

"Temos um desafio para ser vencido, que é a dificuldade da indústria gerar patente", observa Brito Cruz. A Petrobras é a principal patenteadora no Inpi nos anos 1999 a 2001, seguida pela Unicamp, Arno, CSN, CVRD, Usiminas, Multibras, Embraco e Corona.

Ex-reitor da Unicamp, ele disse que se sente muito feliz em ver a universidade como segunda na lista. "Mas não é bom para o Brasil. A universidade é boa para ciência e educação, mas não cria emprego e não gera exportação. Não deve assumir papel que não é dela. Não é para fabricar coisa e competir no mercado".

No Brasil, as empresas destinam apenas 0,42% do Produto Interno Bruto para pesquisa e desenvolvimento (P&D), muito pouco comparado com os países mais desenvolvidos, que investem 2% ou mais. Além disso, de acordo com outro dado apresentado na Conferência em Brasília, apenas 23% dos cientistas brasileiros trabalham em empresas, o que faz com que muitos dos projetos desenvolvidos estejam distantes da realidade do mercado.

O Acadêmico destacou quatro focos para colocar o Brasil na economia do conhecimento: apoio estatal à P&D industrial, atração de investimento direto estrangeiro para P&D, propriedade intelectual e a educação de "aprendedores" nos ciclos básico, médio e superior. Caso o Brasil invista mais 1,07% do PIB em P&D até 2013 e se o país fizer uma política eficaz para trazer este dinheiro da indústria, Brito observa que a meta de o país investir 2% do PIB na atividade será atingida.

(Fonte: Agência Fapesp , 17/11)