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Jornal do Commercio (RJ)

Britânicos pedem apoio dos EUA a acordo do clima

Publicado em 02 fevereiro 2005

A Grã-Bretanha voltou a pedir, ontem, que os Estados Unidos participem de acordos para redução das emissões de gases causadores do efeito estufa. Na abertura de uma conferência científica sobre a ameaça do aquecimento global, a ministra do Meio Ambiente britânica, Margaret Beckett, disse que um maior envolvimento de Washington é essencial.
"Um impacto significativo já é inevitável. Precisamos agir agora para limitar a dimensão do aquecimento no futuro e evitar efeitos ainda piores. Gostaríamos que os Estados Unidos se comprometessem totalmente com esse debate sobre aonde podemos chegar", disse a ministra.
Os EUA são um dos maiores emissores de gases do efeito estufa, como o dióxido de carbono, mas rejeitam a maior parte dos pareceres científicos que colocam a responsabilidade pelo aquecimento no ser humano. O país também se recusou a ratificar o Protocolo de Kyoto, que prevê a redução das emissões de dióxido de carbono para 5,2% abaixo do registrado em 1990, até 2012. O protocolo entrará em vigor em 16 de fevereiro.
A meta dos EUA é reduzir a emissão por dólar de PIB em 18%, até 2012, em relação aos níveis de 2002. Como a economia americana deve crescer em um ritmo maior, a tendência é que as emissões aumentem. Segundo Margaret Beckett, para quem não há dúvida de que a atividade humana contribui para o aquecimento global, Bush não deve se convencer a assinar o protocolo.

Prioridade é conseguir adesão para pós-2012
A prioridade, para a ministra britânica, é persuadir o governo e o povo americano a avaliar o que fazer depois de 2012. O cientista ambiental Steve Schneider, da Universidade de Stanford (EUA), também disse que não espera o apoio de Bush ao Protocolo de Kyoto, mas previu que a pressão popular forçará seu sucessor a tomar uma atitude. O mandato de Bush termina em janeiro de 2009.
"Já há muitas pessoas assumindo uma posição nessa questão", observou Schneider, ressaltando que existem mudanças de atitude até na comunidade de negócios. O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, comprometeu-se a tratar as mudanças climáticas como uma das prioridades da sua gestão à frente do G-8 este ano.
Os cientistas que participam da conferência, na cidade de Exeter, disseram que, além de as florestas estarem perdendo sua capacidade de absorver gás carbônico, o potencial dos oceanos para realizar a mesma tarefa é limitado. Estudos apontam uma elevação de no mínimo dois graus centígrados na temperatura do planeta neste século.
A previsão dos pesquisadores é de que, acima desse nível, o aquecimento terá conseqüências imprevisíveis, em decorrência do derretimento das calotas polares, da elevação do nível do mar e de mudanças de padrões climáticos em ritmo acelerado.
O Fundo Mundial para a Natureza (WWF) emitiu um alerta no fim de semana prevendo que uma mudança climática desastrosa pode acontecer dentro de 20 anos, colocando em risco espécies inteiras do Ártico, como os ursos polares. Um relatório produzido por especialistas internacionais, divulgado na semana passada, descreveu a situação do clima como uma bomba-relógio.
Resultados preliminares de um projeto de modelagem climática apontaram uma elevação de 11 graus na temperatura média do globo neste século. Cientistas de 30 países que participam da conferência em Exeter tentarão definir o que representa um nível "perigoso" de aquecimento, mas não deverão sugerir políticas ambientais.

Ozônio em queda acentuada no Ártico
As temperaturas registradas na atmosfera ártica em dezembro de 2004 foram as mais baixas dos últimos 50 anos. Como o frio intenso continua, a expectativa dos pesquisadores europeus é que os níveis da camada de ozônio sobre o extremo norte do planeta despenque nas próximas semanas.
O fenômeno já começou, segundo um informe emitido segunda-feira pelo Departamento de Ciência e Pesquisa da Comissão Européia. As condições climáticas do Ártico neste inverno apenas reforçam a tese que os pesquisadores da Antártica já tinham detectado em anos anteriores. Quanto mais frio o ar, maior a queda na camada de ozônio.
A explicação científica para o fato é a formação das chamadas nuvens polares estratosféricas, que surgem quando o ar está em 80 graus negativos e não são produzidas por vapores de água como as nuvens tradicionais. Ainda existem divergências sobre a contituição exata dessas nuvens especiais, mas os cientistas já sabem que possuem um tipo de ácido nítrico. E é essa composição química ainda desconhecida que reagiria com o ozônio, retirando-o da atmosfera.
Com os dados obtidos nos últimos dias, os pesquisadores que participam de um projeto internacional de monitoramento das condições atmosféricas - que reúne dados de mais de 59 instituições de 19 países europeus - já não tentam mais estudar se haverá ou não a queda. A pergunta que se faz agora é de quanto será a diminuição da camada de ozônio.
O fenômeno, caso continue intenso, poderá afetar, além da região polar, a Escandinávia e até países da Europa Central, afirmam os pesquisadores. As condições estão tão adversas que existe a expectativa de que o Ártico possa virar uma Antártica.
No Sul do globo, desde 1980 a camada de ozônio sofre uma diminuição brutal durante os meses de inverno. Em alguns casos ela desaparece por completo, formando o que se convencionou chamar de buraco de ozônio. No Ártico, apesar de também haver uma variação importante ano a ano, em nenhum momento nos últimos 20 anos a camada de ozônio chegou a desaparecer por completo. Pelo menos, até agora. (Agência FAPESP)