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BRICS são principais emissores na atmosfera

Publicado em 18 agosto 2016

Os países da América Latina, incluindo Brasil, China, Rússia, Índia e África do Sul, são os principais emissores atualmente de nitrogênio reativo, como amônia e óxido de nitrogênio. As emissões de nitrogênio nessas e outras formas reativas pela queima de combustíveis fósseis, uso de fertilizantes nitrogenados e esgoto, não têm sido monitoradas.

Para debater o tema a Fapesp realizou, durante 31 de julho e 10 de agosto, a “School of Advanced Science on Nitrogen Cycling, Environmental Sustainability and Climate Change” em São Pedro, interior de São Paulo. Por meio do programa Escola São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA), realizado pelo Cena-USP e o Inter-American Institute for Global Change Research (IAI), o evento reuniu 100 estudantes de graduação e pós-graduação, sendo 50 do Brasil e 50 do exterior, para discutir a distribuição desigual de nitrogênio no mundo e seu impacto na sustentabilidade ambiental em um cenário de mudanças climáticas globais. “É preciso estabelecer uma rede de monitoramento contínuo, com séries temporais de 20 anos, por exemplo, para avaliar como o aumento da urbanização e o uso de fertilizantes nitrogenados em larga escala têm impactado os ecossistemas na América Latina e nos países do BRICS”, disse Tibisay Pérez, professora do Centro de Ciências Atmosféricas e Biogeoquímica do Instituto Venezuelano de Investigações Científicas (IVIC). De acordo com a pesquisadora, os países-membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), onde já existe esse monitoramento, atingiram o limite máximo de uso de fertilizantes nitrogenados em sua agricultura.

Na Europa, já se discutem estratégias para reduzir as emissões de nitrogênio reativo e os países têm trabalhado com conceitos como o de “pegada de nitrogênio” – a quantidade de nitrogênio reativo liberada para o meio ambiente como resultado do consumo de recursos como alimentos e combustíveis fósseis.

Já os países do BRICS e da América Latina, os maiores usuários atualmente de fertilizantes nitrogenados, passam por um processo de urbanização descontrolado, que tem impacto no aumento das emissões de nitrogênio reativo pela queima de combustíveis fósseis e por efluentes nessas regiões urbanas. E estas emissões podem afetar ecossistemas de regiões tropicais e subtropicais, pelos impactos da deposição de nitrogênio, suspeitam os pesquisadores participantes da Escola. “A América Latina tem passado por um rápido processo de urbanização e de substituição de sistemas tradicionais de produção agrícola para uma agricultura mecanizada e com alto uso de fertilizantes nitrogenados, sem levar em conta a questão das emissões de nitrogênio reativo”, disse Mercedes Bustamante, professora da Universidade de Brasília (UnB).

Segundo a pesquisadora, o aumento da deposição de nitrogênio reativo na atmosfera é reconhecido hoje como um dos principais fatores contribuintes para redução da diversidade de plantas em ecossistemas naturais e seminaturais, por acidificar e tornar o solo tóxico, entre outros impactos. “É muito importante obter dados de regiões onde esse problema começou a aumentar recentemente ou deverá crescer em um futuro próximo, como a América Latina e os países do BRICS”, apontou.

A China, por exemplo, utiliza em algumas áreas voltadas à horticultura 400 quilogramas de nitrogênio por hectare. Já o Brasil e a África do Sul costumam fertilizar culturas como o milho com 120 quilogramas por hectare.

No outro extremo, na África Subsaariana, costuma-se fertilizar culturas com 8 quilogramas por hectare, comparou Bustamante.

Com base na constatação de que as emissões de nitrogênio reativo representam hoje um problema global, mas apresentam disparidades regionais, a pesquisadora e um grupo de cientistas de diversos países começaram a articular, no início dos anos 2000, a criação de uma iniciativa internacional para evidenciar o problema.

Batizada de International Initiative Nitrogen (INI), a rede global de cientistas foi fundada formalmente no início de 2003, patrocinada pelo Comitê Científico para Problemas do Ambiente (Scope, da sigla em inglês) – agência intergovernamental associada à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) – e pelo International Geosphere-Biosphere Programme (IGBP). A INI interage com tomadores de decisão a fim de identificar alternativas para otimizar o uso de fertilizantes nitrogenados e minimizar os efeitos negativos das emissões de nitrogênio reativo.

O INI possui centros regionais na Europa, Américas do Norte e Latina, África do Sul e Leste da Ásia. “Os efeitos da deposição de nitrogênio reativo nos ecossistemas são cumulativos e ocorrem ao longo do tempo, podendo demorar décadas para se manifestar. Além disso, os níveis críticos de deposição para diferentes biomas variam”, ponderou Bustamante. “O nível crítico para a Mata Atlântica, por exemplo, não é o mesmo para a Amazônia, o Cerrado ou a Caatinga. Por isso é necessário monitorá-los”, justificou.