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Brasileiros encontram evidências de que ancestral do homem saiu da África 500 mil anos antes

Publicado em 06 julho 2019

Por Elida Oliveira | G1

Em uma montanha da Jordânia, no Vale do Zarqa, um grupo de pesquisadores brasileiros e italianos encontraram evidências que podem trazer um novo entendimento sobre a dispersão dos primeiros hominídeos pelo mundo: lascas de pedras, provavelmente vindas da fabricação de instrumentos, indicam que o gênero homo saiu da África 500 mil anos antes do que era conhecido, há 2,4 milhões de anos. E não foi o homo erectus que levantou e saiu andando por aí – nesta época, ele nem havia surgido. A hipótese apresentada pelos pesquisadores (que ainda precisa de complementação já que não foram encontrados fósseis) é que o primeiro homo a explorar o planeta foi o habilis.

As evidências estão em um artigo científico publicado neste sábado (06/07/2019) no periódico Quaternary Science Reviews. Os pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), da Universidade de São Paulo (USP), com o Instituto Italiano de Paleontologia Humana, a Universidade Estadual do Oregon (EUA) e do Goethe-University, Frankfurt Isotope & Element Research Center (Fierce) assinam a publicação. O trabalho foi financiado majoritariamente pela Fapesp e pela Wenner-Gren Foundation for Anthropological Research, de Nova York.

A descoberta traz mais uma peça ao grande quebra-cabeça temporal e espacial que é a reconstituição dos primeiros passos dos hominídeos pelo mundo, ancestrais do homem moderno.

Os primeiros hominídeos

Os detalhes da descoberta foram apresentados pelos pesquisadores brasileiros em São Paulo nesta quinta-feira (04/07/2019), em uma sala de conferência da USP. Com uma vareta na mão e um mapa repleto setas, o professor sênior do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP Walter Neves explicou o avanço do gênero homo durante a evolução.

Sabe-se que os primeiros hominídeos surgiram há 7 milhões de anos e, 5 milhões de anos depois, surgiu o gênero homo. O homo habilis teria aparecido na África há 2,5 milhões de anos e fabricava ferramentas de pedra lascada, chamada Olduvaiense (foram vestígios deste tipo de ferramenta que foram encontrados na Jordânia).

Em um corte temporal, Neves coloca outras peças do quebra-cabeça, com evidências da presença de homos pelo mundo: cinco crânios de tamanhos variados achados na jazida paleoantropológica de Dmanisi, na República da Geórgia (alguns parecidos com o homo habilis, outros com o homo erectus, mas todos supostamente vivendo na mesma época devido às características em que foram achados e à datação dos materiais, que remete à 1,8 milhão de anos); e o fóssil de um homo muito pequeno, que ganhou o nome de floresiensis e o apelido de ‘Hobit’, encontrado na Ilha das Flores, na Indonésia, com datação de 90 mil a 20 mil anos atrás. A ciência entendia que o homo floresiensis havia sido uma adaptação do erectus devido à baixa oferta de comida na ilha -- mas esta adaptação era um pouco forçada, já que o tamanho do crânio deste fóssil era de 350 cm³, menor que o de um chimpanzé, que tem 450 cm³.

Crânios de tipos de homos mostram a diferença de tamanho entre eles. Da esquerda para a direita: dois crânios de homo habilis, seguido por dois crânios de homo erectus. Ao fim, um exemplar de homo florenziensis.

Avanço do gênero homo pelo mundo

Com a nova descoberta das lascas de pedra, a história pode ser recontada. A hipótese apresentada pelo grupo de pesquisadores brasileiros e italianos é de que o homo habilis saiu da África há 1,9 milhão de anos, chegou ao Cáucaso (região da Jordânia) há 1,8 milhão de anos e se espalhou. Isso explicaria os tamanhos variados de homos convivendo juntos na jazida paleoantropológica de Dmanisi e explicaria o tamanho do 'Hobit', que seria a evolução do habilis, menor que o erectus.

“Na pré-historia, quando não se tem osso, tem pedra. Artefatos profundamente angulares são provas de um lascamento intencional. A ocorrência de formas nestes objetos é evidência de intencionalidade”, diz Fabio Parenti, do departamento de Antropologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Escavação

Trabalho feito no Vale do Zarqa, na Jordânia, com a prospecção vertical em afloramento, em busca de fosseis e artefatos líticos — Foto: Fabio Parenti/Divulgação Trabalho feito no Vale do Zarqa, na Jordânia, com a prospecção vertical em afloramento, em busca de fosseis e artefatos líticos

As primeiras peças foram encontradas em 1996. Na época, o trabalho não prosseguiu. Em 2013, o trabalho foi retomado e durou até 2015.

O pesquisador Astolfo Araújo, do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, explica que a montanha foi ‘cortada’ por tratores para que agricultores pudessem trabalhar a terra, o que permitiu que uma camada mais antiga de solo ficasse mais fácil de ser escavada.

“Só temos acesso à estratigrafia por causa dos terraços construídos no começo dos anos 1970. Usamos um maquinário pesado para limpar o cascalho que continua caindo e ter acesso aos artefatos. Raspando centenas de metros, com martelinhos, colher de pedreiro, encontramos as peças. Cada peça foi encontrada individualmente, o que foi imprescindível para entender qual o posicionamento das peças e a interpretação que daríamos a elas”, explica Araújo.

Trincheira escavada em 1999, na Jordânia

Mas, como pedaços de pedra aparentemente sem importância paleontológica se transformam em peças capazes de recontar a história da humanidade?

Araújo diz que são as características da pedra: as lascas se unem, mostrando que saíram de uma mesma peça original. Elas são angulares, o que não apareceria em uma pedra que não foi alterada e geralmente se deteriora em formas mais arredondadas.

“As lascas se unem, mostrando um evento de ‘lascamento’: enquanto um hominídio fazia uma ferramenta, saiu uma lasca, depois outra. Elas estavam a 20 cm de distância. Isso não poderia acontecer se o material tivesse apenas caído da vertente [montanha]”, diz.

“Com as nossas descobertas na Jordânia e com essa precisão de datação, demonstramos que, na verdade, o homem não deixou a África por volta de 1,9 milhão de anos, mas sim há 2,4 milhões de anos. Retrocedemos em 500 mil anos a saída da África. E isso impõe uma pergunta muito simples: se saiu há 2,4 milhões de anos, e não há 1,9 milhão, quem foi esse primeiro hominídeo a deixar a África? No modelo tradicional seria o homo erectus. Agora, não. Fica claro que o primeiro hominídeo que deixou a África foi o homo habilis, porque há 2,4 milhões, 2,5 milhões de anos o único hominídeo que tinha na África era o homo habilis”, diz Neves.

Ou, ao menos, assim as evidências apontam – até que novas escavações tragam mais peças para a história da humanidade.