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O Popular (Goiânia, GO)

Brasileiros criam droga contra câncer

Publicado em 07 novembro 2002

São Paulo - Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) anunciou ontem o desenvolvimento de uma nova molécula, que pode vir a se transformar numa potente droga contra o câncer. Feito à base do metal paládio, o novo composto químico já foi testados em ratos com resultados em promissores. Nos animais, ele inibiu o crescimento do rumor e impediu a metástase (disseminação do câncer para vários órgãos). O próximo passo será o teste em humanos. Segundo o coordenador da equipe, o químico Antônio Carlos Fávero Caires, 9 entre 15 grandes laboratórios farmacêuticos internacionais consultados se mostraram interessados em conhecer a nova molécula. "Desses, 3 estão dispostos a fazer testes em pessoas." Antes do acerto, é preciso resolver a questão da patente. A princípio, sua detentora será a Fundação de Amparo à Pesquisa, do Estado de São Paulo (Fapesp) que investiu US$ 2 milhões no estudo - que se estendeu por mais de dez anos -, entre compra de equipamentos e montagem de laboratórios. A UMC pagou o salário dos pesquisadores. "A Fapesp depositou o pedido de patente no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) em 30 de agosto", explica Caires. "A partir desse dia, temos um ano para conseguir uma patente internacional; caso contrário nosso trabalho cai em domínio público." Para chegar ao novo composto químico, um organometálico - o metal paládio ligado a elementos orgânicos - os pesquisadores partiram da enzima catepsina-B, presente em mais de 90% de todos os tipos de câncer. De acordo com Caires, ela tem papel importante na modulação do sistema imunológico, na metástase e na angiogênese (criação anormal de vasos sangüíneos em volta do tumor para alimentá-lo). O que Caires e sua equipe fizeram foi sintetizar em laboratório a nova molécula, capaz de se ligar a essa enzima. Depois, eles induziram a formação de tumores em ratos e ministraram a eles o novo composto químico. Uma vez no interior das células cancerosas, a molécula criada ligou-se à catepsina-B, alterando a forma tridimensional. Como a função de toda proteína está ligada à sua forma, uma vez modificada, também será alterado seu funcionamento. A inibição da catepsina-B fez o tumor sofrer vários tipos de ataques. "Um deles foi impedir a metástase", explica Caires. "Como a catepsina-B é responsável pelo rompimento das células cancerosas (e a conseqüente expansão do material tumoral na corrente sangüínea, levando à disseminação do câncer pelo organismo), sua inibição impediu esse processo." A mesma inibição da enzima levou o sistema imunológico a aumentar a produção dos agentes de combate. "O câncer passou a ser visto como um inimigo, o que não ocorre normalmente, pois ele se origina das próprias células do indivíduo", explica Caires. "Outro resultado observado foi a redução da angiogênese. Com menos vasos sangüíneos para alimentá-lo, o tumor regrediu." Apesar dos resultados promissores, a equipe é cautelosa sobre a possibilidade de seu trabalho se transformar num novo remédio contra o câncer. "Vai depender das empresas dispostas a investir", diz Caires.