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Brasileiros criam drágea que libera dois medicamentos diferentes

Publicado em 24 setembro 2019

Pesquisadores brasileiros desenvolveram uma espécie de plástico macio e flexível – um hidrogel polimérico – que promete ajudar a responder a um dos grandes desafios da indústria farmacêutica: criar um mecanismo que permita a liberação controlada no organismo de diferentes medicamentos, sem que o paciente precise ficar tomando um monte de drágeas e comprimidos.

“Conseguimos desenvolver um sistema para liberação simultânea de dois fármacos incorporados a uma mesma matriz polimérica [plástica],” contou o professor Eduardo Ferreira Molina, que está trabalhando com uma equipe das universidades de Franca (UNIFRAN) e do Estado de Minas Gerais (UEMG).

O material, conhecido como siloxano-poliéter, ou “ureasil”, foi usado para liberar no organismo de forma simultânea um anticancerígeno e um anti-inflamatório. Além de ações terapêuticas distintas, os fármacos usados nos testes também apresentam diferentes graus de afinidade por água, sendo este o grande desafio para sua administração simultânea.

Resultado inédito

Flexível e transparente, a matriz polimérica é composta de segmentos em escala nanométrica (bilionésima parte do metro) de siloxano e de um poliéter (PEO). Com características de hidrogel (gel formado por uma rede rígida tridimensional de polímeros), o material é capaz de absorver volumes elevados de água em seus interstícios sem se dissolver e, por isso, é considerado ideal para liberação controlada de fármacos.

Por meio de um processo denominado sol-gel – no qual ocorre a transformação de um líquido com partículas em suspensão (sólido) em um gel -, os pesquisadores conseguiram incorporar à matriz o anti-inflamatório naproxeno e o anticancerígeno 5-fluorouracil simultaneamente.

“Esses resultados são inéditos. Até então, não havia nenhum relato na literatura científica da aplicação dessa classe de materiais para liberar de forma controlada dois agentes terapêuticos simultaneamente, na mesma quantidade, e manter isso ao longo do tempo”, disse Molina.

Quimioterapia

A ideia dos pesquisadores é que o material seja usado como drágea para encapsular e liberar controladamente uma série de agentes terapêuticos, entre eles quimioterápicos usados no combate ao câncer.

Uma das limitações dos quimioterápicos usados hoje é a quimiorresistência – a resistência de determinadas células cancerosas à ação do composto ativo. Sistemas de entrega de fármacos como este desenvolvido agora podem retardar o desenvolvimento da quimiorresistência, além de melhorar a eficácia terapêutica e diminuir os efeitos colaterais. Isso porque a combinação de diferentes agentes terapêuticos em um mesmo fármaco tende a promover um efeito sinérgico ou combinado, apontou Molina.

“Além de combater o câncer, um medicamento com esse sistema de liberação contendo um quimioterápico e outro agente terapêutico poderia diminuir os efeitos colaterais do tratamento,” finalizou Molina.