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Brasileiro flagra suicídio de estrelas na Via Láctea

Publicado em 11 abril 2006

Pela primeira vez, um grupo de pesquisadores conseguiu demonstrar e identificar um caso concreto de suicídio estelar. "Estrelas binárias são bastante comuns na galáxia. Nesses casos, os dois corpos interagem entre si, por estarem bem próximos", explica o astrônomo João Steiner, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP).
Nesse processo, uma estrela captura massa da outra, que vai aos poucos desaparecendo até ser completamente absorvida. Como estão muito próximas, a outra também acabará sendo destruída.
"Existe um conjunto, chamado de variáveis cataclísmicas, onde uma estrela anã branca captura matéria (em forma de gás) da sua companheira (normalmente uma estrela anã vermelha), formando um disco brilhante", disse o astrônomo à Agência FAPESP. É neste estágio que está o confronto entre os corpos celestes, acompanhados desde o Brasil a partir dos anos 1980.
O ciclo detectado pela observação leva a um efeito cataclísmico. "Está ocorrendo uma espécie de realimentação. A fusão nuclear na superfície de uma estrela gera uma grande luminosidade, que acaba interferindo na outra. Ela passa a evaporar, literalmente, e a perder sua massa. Esse material disponível, então, é captado pela anã branca, e assim sucessivamente", explica Steiner.
O conflito deverá ser resolvido em mais de 1 milhão de anos com a morte de uma das estrelas, o que representa o colapso do sistema. "Ou uma das estrelas vai evaporar totalmente ou a anã branca vai explodir como uma supernova pelo excesso de massa. Cada uma delas está tentando freneticamente destruir a outra", explica Steiner.

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Os estudos sobre o fenômeno, localizado no complexo binário V 617 Sagitarii, foram apresentados em forma de artigo científico por Steiner e colaboradores, todos brasileiros, na revista Astronomy and Astrophysics Letters, com o título de Suicídio Estelar Assistido na V617 Sgr.
Steiner e seu colaborador Marcos Dias propuseram a existência de uma nova classe de estrelas, que eles chamaram de V Sagittae. "Trata-se de um pequeno grupo de quatro estrelas que se comportam de forma semelhante ao sistema detectado antes", afirma Steiner.
A tese dos astrônomos brasileiros é que, ao contrário das estrelas normais, onde a energia é produzida por fusão nuclear no centro, no sistema binário estudado as coisas ocorrem de forma diferente. "A fusão nuclear ocorre na superfície da anã branca. Isso é possível desde que a captura de gás da companheira seja muito grande", disse.