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G1

Brasileiro acha nova função para vitamina C

Publicado em 07 março 2007

Por Reinaldo José Lopes, do G1, em São Paulo

Substância desempenha papel duplo na redução dos radicais livres na célula, diz estudo.
Descoberta reforça papel da molécula como 'faxineira' do organismo.

Ninguém duvida do papel essencial da vitamina C no organismo, mas ao que parece a substância é ainda mais importante do que se imaginava para as células vivas. Pesquisadores da USP e do Instituto Butantan acabam de elucidar uma nova função da vitamina, que confirma sua relevância como "faxineira" do metabolismo.
Segundo o estudo, publicado nesta semana na prestigiosa revista científica americana "PNAS", a vitamina C ajuda um grupo de enzimas (proteínas que aceleram reações químicas) a impedir a formação dos chamados radicais livres, que estão diretamente envolvidos no envelhecimento celular e em danos ao material genético das células, entre outros problemas. Já se sabia que a vitamina combatia os radicais livres, mas só se conhecia a interação direta dela com eles. Os novos dados parecem mostrar que a vitamina C atua contra essa ameaça tanto de forma direta quanto indireta - nesse último caso, ajudando as enzimas.
"Ainda faltam dados para sabermos o quão importante é essa via, mas pelo visto ela não é secundária. E ela parece estar conservada [ou seja, existe nas células de vários tipos de organismo]", declarou ao G1 o bioquímico Luis Eduardo Soares Netto, do Instituto de Biociências da USP, que coordenou o estudo. Para se ter uma idéia, o sistema de "faxina" celular envolvendo as enzimas e a vitamina C parece estar presente em insetos, mamíferos e plantas, o que sugere que ele é muito antigo na história evolutiva e, provavelmente, muito importante para a sobrevivência.

Oxigênio bandido
Não é muito difícil entender o porquê da relevância desse sistema. Os radicais livres são um subproduto indesejado do oxigênio que respiramos e têm a desagradável mania de ser altamente reativos, ou seja, combinam-se com outras moléculas com muita facilidade. Isso é um desastre para as moléculas orgânicas, como o DNA e as proteínas, que precisam manter suas características químicas e estruturais intactas para que o organismo funcione.
Não é de se admirar, portanto, que tenham surgido mecanismos para varrer os radicais livres das células. A vitamina C participa no mais simples deles, no qual simplesmente reage com o peróxido de hidrogênio (a popular água oxigenada), que é uma das principais fontes de radicais livres.
No entanto, esse serviço também é realizado indiretamente por algumas enzimas de nome indigesto, as peroxiredoxinas (a primeira parte do nome, claro, vem de peróxido). As enzimas não participam "pessoalmente" da reação; apenas criam condições para que ela aconteça. No caso, sabia-se que as peroxiredoxinas "capturavam" um elétron de outra substância e o "doavam" para o peróxido, que então podia se transformar numa inofensiva molécula de água.
"Achava-se que, para essas enzimas, a substância que permitia isso tinha necessariamente de pertencer ao grupo dos chamados tióis", conta Soares Netto. Contudo, ao analisar algumas das enzimas do grupo, cujo funcionamento anti-radicais livres ainda não tinha sido bem estudado, a equipe da USP e do Butantan descobriu que o papel de doador de elétrons estava sendo desempenhado pela vitamina C.
"É uma mudança de paradigma na maneira como a gente entende o funcionamento dessas enzimas antioxidantes", resume Soares Netto. A idéia agora é caracterizar de forma mais clara o que acontece em cada grupo de organismos que parecem usar a vitamina C para esse propósito.
O trabalho tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).