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Brasileira à frente da Latin American Studies Association (Lasa)

Publicado em 29 abril 2009

Por Thiago Romero

Agência FAPESP

Maria Hermínia Tavares de Almeida, professora titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), foi eleita para a direção da Latin American Studies Association (Lasa).  Trata-se da primeira brasileira, e também a primeira latino-americana não-residente nos Estados Unidos, a assumir o cargo.

Seguindo o protocolo da entidade, entre 1º de maio de 2009 e 31 de outubro de 2010, Maria Hermínia servirá a associação como vice-presidente.  Em 1º de novembro de 2010 ela assumirá a presidência com mandato de 18 meses.

A Lasa, associação científica multidisciplinar com sede na cidade de Pittsburgh (Estados Unidos), reúne mais de 5 mil especialistas no mundo, provenientes das disciplinas e profissões no âmbito das ciências sociais e humanas, que se dedicam ao estudo da América Latina.

"A Lasa é a mais importante associação científica formada por especialistas de diversas áreas que estudam o continente, criada quando essas pesquisas começaram a se expandir nos Estados Unidos, no início da década de 1960", disse a professora do Departamento de Ciência Política da FFLCH, à Agência FAPESP.

Para ela, essa indicação representa, mais do que o reconhecimento a uma pessoa, o peso das ciências humanas brasileiras na América Latina.  "A comunidade acadêmica do país é a maior da região e também lidera em muitas subáreas dentro das ciências humanas", afirmou.

"Trata-se de um reconhecimento ao sistema de pesquisa do Brasil como um todo, que felizmente é bem institucionalizado.  Especialmente nos últimos 25 anos, o país tem acompanhado o crescimento de toda a comunidade acadêmica nacional na área das humanidades", disse.

Maria Hermínia cita os programas de pós-graduação das universidades de todo o país, as associações científicas ligadas às humanidades e as agências de fomento estaduais como os grandes responsáveis por essa institucionalização da produção acadêmica na área, que, segundo ela, "é muito significativa e incomparavelmente maior do que da maioria dos países latino-americanos".

"O México tem uma produção científica comparável à brasileira, apesar de ter uma comunidade de pesquisadores menor.  De modo geral, nos outros países do continente a produção é menos institucionalizada, o que faz com que o conhecimento gerado acabe ficando mais separado das aplicações práticas da vida pública.  A produção sobre a América Latina nos Estados Unidos, por outro lado, é muito grande", afirma.

Associação plural

A escolha de Maria Hermínia foi feita pelos associados em votação eletrônica secreta.  Não há candidatura, explicou ela, uma vez que a comissão eleitoral, cujos nomes são indicados pela diretoria da entidade, seleciona apenas dois candidatos a serem submetidos à apreciação dos associados pela internet.

A Lasa tem como missão promover o debate intelectual, a pesquisa e o ensino sobre a América Latina e Caribe e seus povos que residem em todas as Américas, além de promover os interesses de seu quadro de sócios e incentivar a participação desses por meio de uma rede de relacionamentos e debate público.

Segundo Maria Hermínia, trata-se de uma "associação plural e de enorme diversidade de conhecimentos", tendo duas faces principais: uma mais acadêmica e outra voltada para o debate público.  "Pretendo fortalecer ainda mais as dimensões acadêmicas da Lasa, criando novos espaços para a discussão, na universidade, de temas e questões multidisciplinares", afirmou.

"Isso inclui os desafios metodológicos e de pesquisa para o tratamento dos processos e fenômenos da América Latina com base em uma ótica multidisciplinar, assuntos que, no meu ponto de vista, ainda são pouco tematizados no âmbito acadêmico", disse.

"É preciso discutir, com os especialistas dos diversos países que integram a associação, as fronteiras interdisciplinares que aproximam as ciências políticas do direito e da economia, por exemplo.  Pretendo continuar cultivando também o diálogo, que tem sido muito nobre, entre os especialistas que estão na América Latina e em outros continentes como o europeu", apontou.

Maria Hermínia é diretora em exercício do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, onde leciona no curso de graduação de relações internacionais, e também professora do Programa de Pós-Graduação do Departamento de Ciência Política da FFLCH.

Graduada em ciências sociais (1969), concluiu doutorado em ciência política (1979) pela USP e pós-doutoramento na Universidade da Califórnia em Berkeley (1984).

Suas pesquisas enfocam principalmente as políticas públicas e as instituições políticas brasileiras, especialmente estruturas federais e relações intergovernamentais.  É autora do livro Crise e Organização dos Interesses Econômicos pela Editora da USP (Edusp) e possui cerca de cem artigos publicados em livros e revistas acadêmicas nacionais e internacionais.  De 2003 a 2007 coordenou o Projeto Temático "Democracia, política e governo local", apoiado pela FAPESP.

Foi pesquisadora visitante no Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Londres (1992), na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos (1996), no Instituto Universitario de Investigación Ortega y Gasset, na Espanha (1999, 2000 e 2002), e na Universidade de Montreal, no Canadá (2006).  Integrou ainda o Comitê Executivo da Lasa de 2001 a 2004 e foi presidente da Associação Brasileira de Ciência Política entre 2006 e 2008.

Atualmente, é membro do conselho consultivo do Woodrow Wilson International Center for Scholars, instituto voltado ao debate de políticas públicas para a inovação sediado em Washington, nos Estados Unidos, e membro da Comissão Executiva da Associação Internacional de Ciência Política (IPSA, na sigla em inglês), além de ter recebido, no Brasil, o título da Ordem Nacional do Mérito Científico em 2006.

Mais informações sobre a Lasa: http://lasa.international.pitt.edu/eng/index.asp