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Blog do Marcelo Gurgel

BRASIL X CANADÁ: contraponto nas ciências

Publicado em 23 janeiro 2020

Por Marcello M. Veiga

Como professor de Engenharia no Canadá, tomo a liberdade de fazer alguns comentários, talvez simplistas, sobre o que escutei recentemente quando estive no Brasil!: "o Canadá tem 14 prêmios Nobel porque tem muito menos gente que o Brasil... assim tem mais dinheiro para cada instituição". Certíssimo e comento... no Brasil os estudantes universitários aprendem ideologias em vez de ciências... por isso que o Brasil ficou em penúltimo lugar no PISA.

Estive em novembro no Brasil dando palestras sobre sustentabilidade da mineração no mundo e participei de vários eventos. Fiquei surpreso pelo baixo nível das pesquisas na minha área de mineração, ambiente e sustentabilidade. Realmente o país caiu numa desgraça ideológica que faz com que as pessoas não avancem mais na ciência das coisas mais simples e locais e acabam travados numa gaiola de discussões ideológicas sem sentido. Sem falar da completa falta de imaginação e inovação dos pesquisadores brasileiros. Querem matar mosquito com bazucas. Já dizia meu primo, passarinhos criados em gaiolas não conseguem voar depois de soltos. Assim quando os estudantes saem das Universidades vão reclamar ao governo por não terem empregos. O problema não é a falta de empregos, mas a baixa qualificação dos candidatos. É claramente um problema de qualidade e não de quantidade como creem vários colegas brasileiros. Um engenheiro de minas do Peru tem muito mais experiência hands-on que um do Brasil. Fiz uma palestra no Brasil onde mostrei os níveis de pobreza do país... Sem saneamento básico (somente 34% dos municípios têm coleta e tratamento de esgoto). Lixo por toda parte (cerca de 42% dos municípios não coletam lixo e os que coletam não dão fim adequado). Reciclagem? Quem sabe o que é isto!? Só 19% dos municípios têm sistemas de coleta e reciclagem. Isto sim é um problema para os engenheiros, médicos, ambientalistas, sociólogos, e cientistas de todas categorias se envolverem. Mas isto não dá Ibope. Talvez mandar um foguete para o Sol para resolver o problema climático do planeta deve estar nas prioridades dos "pesquisadores" brasileiros que clamam que o país não investe em pesquisa. Claro que mandariam o foguete a noite para não derreter.

O Brasil tem um custo por estudante em sistema público de US$4450 (https://www.fundacred.org.br/site/2019/04/16/quanto-e-como-e-o-gasto-do-brasil-com-educacao/).

Em 2020, o Brasil vai ter uma queda de fundos para educação de R$ 122 bi para R$101 bi (US$ 25 bilhões) Talvez, R$ 115 bi (US$28.75 bi) após revisões do MEC. Uma redução sensível mas acredito que isso irá acontecer no ensino superior e na pesquisa. Quando o cobertor é curto, temos que escolher entre cobrir a cabeça ou os pés. Daí a gritaria por mais recursos. De onde viriam? E para que? A culpa é dos nossos pesquisadores que não mostram resultados e se distanciam cada vez mais das empresas e do cenário mundial.

O Canadá tem um orçamento em educação, que não está nem entre os 15 países da OECD, de US$ 50 bi/a (sendo 50% para ensino básico e médio). Dá US 8000 por estudante/ano de jardim da infância a grade 12. Claro que muito mais que o Brasil, que tem no orçamento de educação US$ 28,5 (ou $28.75) bilhões e 26% vão para universidades federais, 17,5% transferidos para educação básica, 10.5% para ensino técnico e o resto para sustentar a máquina administrativa. Também haverá cortes no orçamento da pesquisa no Brasil, mas serão seletivos...espero eu. Quem não produz algo relevante, não leva... É o que deveria ser, pois existe muita falta de objetividade nas pesquisas em universidades brasileiras.

Realmente este ano de 2020, o problema orçamentário brasileiro se fará sentir na educação, mas não no Congresso Nacional, é claro. Mas no ensino básico e médio, o orçamento prevê aumentar em 1% o investimento federal... quero ver os municípios repassarem isto para as escolas.

No Canadá os Estados (províncias) são basicamente os principais encarregados da educação superior e gastam US$ 9.7 bi/a. Esses governos provinciais contribuem com 78% do orçamento das universidades e o federal com 22%. As mensalidades representam entre 25 e 30% do orçamento das universidades públicas (universidades são públicas, mas são pagas...quem não tem dinheiro o governo ajuda... se merecer ser ajudado). O dinheiro dos governos federal e provinciais representa cerca de 27% do orçamento das universidades. As universidades têm que ir atrás de $ de doações, trabalhos para companhias, estudantes internacionais que pagam mais, e geram recursos com restaurantes, estacionamentos, moradias para estudantes e professores, etc.

No Brasil R$30 bi ou US$ 7.5 bi/a do orçamento de educação vão para as universidades públicas federais. (http://www.portaltransparencia.gov.br/funcoes/12-educacao?ano=2019). Mas contando com outros itens para funcionamento das universidades, este valor deve chegar aos US$ 15 bi. Muito do dinheiro é para pagar salários de professores e funcionários (65%). Ninguém gera nada de dinheiro.

O Brasil tem 2.448 universidades sendo 190 federais, 124 estaduais, 63 municipais e 2.071 privadas. O Canadá tem 96 universidades provinciais (estaduais) e 52 privadas.

O Brasil tem 8 milhões de estudantes universitários. O Canadá tem 1,8 milhões.

Quando saí do Brasil em 1991, haviam 6 universidades que tinham faculdades de Engenharia de Minas. Agora são 31.

O orçamento de 2019 de pesquisa para universidades (tecnologia, medicina e social) no Canadá foi da ordem de US$ 950 milhões/a, incluindo bolsas para estudantes e salários para assistentes, equipamentos, reagentes, computador, etc. Não inclui infraestrutura ou salário de professores. No Brasil, em 2020, o orçamento para pesquisa universitária será de US$ 550 mi/a para CAPES e US$ 300 milhões/a para CNPq também para bolsas e gastos operacionais que não incluem salários de professores. Se incluirmos as agências de fomento à pesquisa dos Estados, como FAPESP e outras, chegamos a cerca de US$ 1 bi em incentivos públicos a pesquisa. Bem parecido com os valores do Canada. Contudo a contribuição das empresas no Canadá à pesquisa universitária deve chegar a10 - 20% do orçamento. No Brasil isto é insignificante.

Bem, voltando a crítica de que o Canadá tem muito menos pessoas que o Brasil por isso tem mais fundos por instituição que geram mais qualidade a pesquisa... por isso tem mais prêmios Nobel (14 e o Brasil nenhum). Claro que é verdade este argumento. Mas o conserto não é aumentar o dinheiro para a pesquisa, mas diminuir os gastos em pesquisas inúteis.

Eu acho que o dinheiro existe no Brasil, mas é mal gerido. As pesquisas são mal orientadas para setores sem prioridades. Pouca pesquisa se dedica a diminuir a pobreza do Brasil ou mesmo, no meu campo de conhecimento, contribuir para utilizar lixo e esgotos como matéria prima (mineração urbana). Também minhas pesquisas na Internet revelam que os artigos de brasileiros publicados internacionalmente são os mais baixos em referencias, isto é, com algumas exceções, não atraem atenção internacional, além de ter baixíssima contribuição das empresas. Culpa das empresas ou das universidades?

Assim, verifica-se que o Brasil deveria ter um desempenho muito melhor na ciência que o Canadá, se o investimento fosse mais seletivo e favorecesse os pesquisadores de melhores desempenhos. Proporcionalmente ao custo de vida, os salários de professores universitários brasileiros são equivalentes aos do Canadá. Na área científica, as universidades brasileiras estão tão bem equipadas como as canadenses. Mas será que a dedicação a pesquisa é a mesma?

Universidades de engenharia e ciências no interior do interior do Nordeste ou em cidadezinhas da Amazônia? Desculpem os meus irmãos do agreste, mas para que serve um título de engenheiro com muita teoria se o primeiro passo de saber fazer algo concreto pela região ainda não foi dado? Talvez uma escola técnica seja melhor. O que traz desenvolvimento para o interior são empresas com empregos e não universidades grátis e de má qualidade. Aqui no Canadá as crianças no curso elementar aprendem primeiro a fazer sua comida e costurar que são fundamentais para sobreviverem, antes de saber as leis da relatividade. Sejamos práticos, está na hora de aplicar um pouco de pragmatismo na educação brasileira pois o barco universitário está indo à deriva.

Universidade e pesquisa são para uma elite intelectual até nos países comunistas como China e Coreia do Norte. Não adianta ter quantidade de universidades se não há qualidade. Já dizia o prof Alberto Coimbra, um dos fundadores da pós-graduação da COPPE em uma palestra que assisti em 1976: "a pesquisa no Brasil virou um grande poço, que é preenchido com qualquer coisa... até lixo.". Se era assim em 1976... Deus acuda o Brasil de hoje.

Marcello M. Veiga, P.Eng., PhD Professor

Norman B. Keevil Institute of Mining Engineering but University of British Columbia, Vancouver, Canada, V6T1Z4.