Notícia

Jornal de Brasília

Brasil venderá clones de genes pela Web

Publicado em 28 junho 2001

O que, durante muito tempo era considerado um sonho, ou uma obra de ficção científica, está, a cada dia, mais próximo de se tornar realidade. Até o final de julho, o Centro Brasileiro de Estocagem de Genes (Brazilian Clone Collection Center - BCCC) deve começar a venda de clones de genes pela Internet A instituição recebeu na última semana os servidores e está fazendo o site para a comercialização. Os clones vendidos foram seqüenciados pelo Programa Genoma da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Os clones são cópias dos genes produzidas em laboratório durante o seqüenciamento do genoma (conjunto de genes de um organismo). O BCCC também irá vender chips de DNA, o ácido desoxirribonucléico, encontrado nos cromossomos, estruturas responsáveis pela transmissão das características genéticas dos seres vivos de geração para geração. O DNA armazena toda a informação genética de um organismo e formam o gene. Segundo Jesus Aparecido Ferro, coordenador do BCCC, "o chip de DNA é uma coleção completa dos genes colocada em uma membrana de nztros ou em uma lâmina de vidro". O Brasil está apostando no projeto já que comprar um clone de gene ou um chip de DNA é mais econômico, tanto em relação ao dinheiro investido em pesquisa quanto em relação ao tempo. Isso porque o cientistas não tem de dedicar verba e tempo para isolar o gene novamente. Comprar apenas os dados seqüenciados e arquivados em banco de dados também não resolve. "Se você quiser saber como uma célula funciona, tem de estudar as proteínas, que são o produto dos genes", disse. Atualmente, o centro recebe as encomendas por e-mail, mas as demais operações de compra são feitas de maneira convencional. Com o novo site, empresas e centros de pesquisa poderão encomendar os genes que desejam, escolher a melhor , forma para entrega do material e fazer o pagamento pela Internet, semelhante a qualquer operação de compra e venda na rede. "O envio de material biológico para quem o encomendou segue as normas da Comissão Nacional de Biossegurança (CTNBio)", disse. Com o chip, os pesquisadores podem ver, por exemplo, quais são os genes da cana-de-açúcar que se expressam quando há um déficit de água e ou ataque de pragas. "O chip não é o clone, mas o próprio DNA", disse. No mercado externo, um chip de DNA da cana-de-açúcar custa entre US$ 5 mil e US$10 mil. UNIVERSIDADES COMPRAM BARATO Até agora, o BCCC já vendeu três mil clones para instituições acadêmicas brasileiras, ao preço de R$ 10, cobrados para a manutenção do laboratório. "Estamos negociando com uma empresa, mas o preço e os termos dessa negociação serão diferentes", disse. Por ser empresa, há interesse comercial, e uma série de cuidados são tomados. "A parceria com a empresa, às vezes, é mais indicada do que a simples venda e abrir mão dos direitos em relação à patentes", disse Jesus Ferro. Para obter um clone, o pesquisador isola uma seqüência do gene e a insere em um outro fragmento de DNA de tamanho pequeno, chamado plasmídeo ou vetor. Este tem a característica de replicar (duplicar a partir de um modelo existente) e é inserido em uma bactéria que só vive em laboratório. Por isso, ela não tem ação patológica em seres vivos. A cada 20 minutos, essa bactéria é duplicada e, quando faz isso, duplica também o DNA inserido no vetor. "Essa é uma estratégia para se fazer várias cópias dos genes. Podemos pegar essas bactérias e congelá-las em um meio adequado, onde ela fica em latência, mas não morre", explicou. Assim, o centro armazena os clones. "Podemos distribuir a bactéria, que é depositária final do gene, ou isolar e dar só o gene", afirmou. Sabendo como as proteínas trabalham, o cientista precisa identifica qual gene codifica a proteína, isolar esse gene e produzir a proteína in vitro em grande quantidade fora da célula. A partir daí, ele pode trabalhar na parte estrutural da proteína. Como a forma da proteína determina sua função, é necessário estudar a sua estrutura para que os dados da pesquisa possam ter uso comercial, no desenvolvimento de novos produtos, como remédios e pesticidas. O centro foi inaugurado em abril deste ano e é o maior laboratório de estocagem de genes da América Latina e o terceiro em todo o mundo. Fica no campus da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Jaboticabal, interior de São Paulo. O laboratório está orçado em US$ 600 mil.