Notícia

Diário da Manhã (GO)

Brasil vai mapear gene do boi

Publicado em 08 maio 2003

SÃO PAULO (AE) - A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a Central Bela Vista Genética Bovina anunciaram o início do projeto de mapeamento genético do boi. O Brasil sai na frente dos Estados Unidos - que planeja para setembro o início do seqüenciamento genético bovino - com o objetivo específico de identificar genes associados ao processo reprodutivo, de modo a desenvolver tecnologias e produtos que possam resultar em aumento de produtividade, eficiência reprodutiva, resistência do rebanho e melhor qualidade de carne. O coordenador do projeto, Luiz Lehmann Cominho, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), explicou que, ao contrário dos americanos, que farão o mapeamento completo do boi com o objetivo exclusivo do conhecimento, os pesquisadores brasileiros vão se concentrar numa parte pequena do genoma - 3% do total - basicamente tecidos reprodutivos e os relacionados à resistência a doenças. Não por acaso o foco do estudo é a raça nelore, predominante no rebanho brasileiro com cerca de 80% das 170 milhões de cabeças. Segundo Coutinho, o gado nelore adaptou-se perfeitamente aos trópicos, desenvolvendo mecanismos de resistência contra carrapatos e outros parasitas. O conhecimento que resultará do mapeamento genético não trará um impacto apenas sobre a raça nelore, mas também sobre as raças européias trazidas ao Brasil e que não têm a mesma resistência contra doenças, explica. É em busca de novas tecnologias que poderão surgir do projeto que a Central Bela Vista Genética Bovina, empresa produtora de sêmen e embriões, participa da iniciativa, dividindo com a Fapesp o investimento de US$ 1 milhão. Há mais de uma década trabalhamos com a universidade e, nesse período de convivência, identificamos oportunidades valiosas para pesquisa e negócio. Este projeto especificamente permitirá produzir carne bovina com mais segurança, disse o presidente da central, Jovelino Mineiro. Genoma O mapeamento dos seis mil genes escolhidos para o projeto genoma brasileiro do boi deve ser concluído em seis meses. Em projetos de genoma anteriores -como o da Xylella fastidiosa, causadora do amarelinho em cítros -, só a partir do seqüenciamento os pesquisadores começavam a Identificar a função de cada um dos genes. No projeto do boi, pela primeira vez a função desses genes será identificada á medida que eles sejam seqüenciados, o que diz a Fapesp, deve trazer resultados mais rápidos e relação ao desenvolvimento de tecnologias e criação de patentes. Questionado sobre o fato de que até o momento nenhum dos genomas ligados à agricultura desenvolvidos pela Fapesp resultou em um produto para uso na lavoura, o diretor científico da entidade, José Fernando Perez, relativizou a questão, dizendo que o objetivo do seqüenciamento de pragas e doenças, em princípio, não visou à obtenção de produtos, mas estratégias de negócio. Como exemplo, citou a empresa Alellyx (xyllela ao contrário), criada por um grupo de cientistas que se destacaram nas pesquisas de seqüenciamento de genes no Brasil e que explora os resultados dessas pesquisas. O empresário Jovelino Mineiro, no entanto, é claro no motivo pelo qual firmou a parceria com a universidade: Estou nisso pelo negócio, disse. Segundo ele, o seqüenciamento genético pode não resultar em um produto final, como vacinas e medicamentos, a curto prazo, mas ele acredita que tecnologias, entre elas, marcadores genéticos, poderão ser comercializadas tão logo o estudo seja concluído. ALCKMIN - O anúncio do Projeto Genoma do Boi reuniu dezenas de políticos e pesquisadores na sede da Fapesp, em São Paulo. O governador Geraldo Alckmin disse que, com o mapeamento genético bovino, o Brasil dá um salto de qualidade. Respondendo por dois terços das exportações brasileiras de carne, São Paulo adotou a certificação sabendo que a qualidade é fundamental para a exportação, disse. Para o secretário de Ciência e Tecnologia do Estado, João Carlos Meirelles, que é pecuarista, o projeto genoma permitirá antecipar novas metodologias de certificação, garantindo a qualidade do produto exportado. Meirelles previu que até o final deste ano o Brasil deve se tornar o maior exportador de carne do mundo, ultrapassando a Austrália e os Estados Unidos. O Brasil deve exportar neste ano 1,2 milhão de toneladas: os Estados Unidos, 1,1 milhão; e a Austrália, que enfrenta uma profunda seca, 930 mil toneladas, disse.