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Jornal Cidade (Rio Claro, SP) online

Brasil vai exportar anticorpos

Publicado em 15 agosto 2007

A pauta de exportações brasileira está prestes a ganhar um novo item, pequeno o suficiente para caber no bolso de uma calça, mas de grande peso para a balança científica nacional. O primeiro carregamento - dois frasquinhos com 10 mililitros de anticorpos cada um - deverá deixar os laboratórios do Instituto Butantã, em São Paulo, nos próximos dias com destino à empresa Millipore, nos Estados Unidos, que comprou o direito de comercializar o produto no mercado internacional.

O acordo foi firmado recentemente entre a companhia e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que financiou os estudos no Centro de Toxicologia Aplicada (CAT), no Butantã. Os anticorpos foram desenvolvidos para se ligar a uma enzima chamada Eopa, que tem papel fundamental na formação do cérebro e de todo o sistema nervoso central. Estudos indicam que ela pode estar envolvida em uma série de distúrbios neurológicos, como esquizofrenia e lissencefalia (patologia conhecida como ¨cérebro liso¨).

A Eopa foi descoberta no Brasil, no fim da década de 60, em um desdobramento das pesquisas com o veneno da jararaca - que, eventualmente, levariam ao desenvolvimento (fora do Brasil) do captopril, uma das drogas de maior sucesso no mundo para tratamento da hipertensão. O pesquisador Antônio Carlos Martins de Camargo, hoje diretor do CAT, descobriu a molécula quando procurava por enzimas capazes de degradar a bradicinina, um neurotransmissor com efeito anti-hipertensivo que é superativado pelo veneno da cobra.

Quatro décadas de pesquisa mais tarde, a Eopa pode se transformar em um grande exemplo de sucesso da pesquisa básica brasileira. Em 2002, os pesquisadores entraram com pedido de patente sobre o uso da enzima e de suas atividades como alvo terapêutico. O que significa que qualquer laboratório que quiser usar a Eopa como alvo para o tratamento de doenças terá de pagar royalties aos cientistas brasileiros. ¨Teoricamente, todas as patologias que envolvem o desenvolvimento do sistema nervoso central poderiam ter essa proteína como alvo¨, disse Camargo.

É nesse ponto, também, que entram em cena os anticorpos. Eles funcionam como uma ferramenta de pesquisa, essencial para que os cientistas possam rastrear as atividades da Eopa em laboratório. ¨Eu não consigo enxergar a Eopa sozinha, só quando ela está associada ao anticorpo¨, explica a farmacêutica Mírian Hayashi, que coordenou a maior parte das pesquisas no CAT e hoje é professora do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Difusão

O Contrato com a Millipore, empresa especializada na venda de reagentes científicos, servirá para disseminar essa ferramenta para outros laboratórios. Tradicionalmente, numa situação como essa, o outro pesquisador simplesmente pediria uma amostra dos anticorpos a Mirian Hayashi - que, pelo "código de ética" da boa convivência científica, enviaria a encomenda sem cobrar nada (porém, enfrentando uma burocracia tremenda e até pagando frete do próprio bolso).

Agora, ela enviará os anticorpos para a Millipore, que fará a comercialização — sem que isso a impeça de continuar a colaborar com outros pesquisadores. Os anticorpos são produzidos em linhagens especiais de camundongos, desenvolvidos dentro do Butantã.

Uma forma é específica para a Eopa de ratos e outra, para a Eopa de seres humanos. O volume de produção (10 m parece quase nada, mas é muito. Depois de fracionados e embalados pela Millipore, os anticorpos serão vendidos em porções de aproximadamente 100 microlitros (um milionésimo de litro). "Dá para fazer muita pesquisa", afirma Mirian Hayashi. O projeto é um dos destaques deste mês da revista "Pesquisa", da Fapesp".