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Brasil usa mais energia para produzir US$ 1 no PIB

Publicado em 23 novembro 2017

Enquanto o mundo está usando menos energia para produzir bens e serviços, o Brasil está ampliando o consumo para produzir a mesma riqueza. Dados da Agência Internacional de Energia (AIE) mostram que a intensidade energética - medida pelo volume total de energia usado para produzir um dólar de PIB (Produto Interno Bruto) - global caiu 1,8% no ano passado. No Brasil, onde cresce ao menos desde 2013, esse indicador subiu cerca de 2% em 2016.

Não há consenso sobre as razões que explicam por que o País está na contramão do mundo. Especialistas apontam desde a recessão até falhas de planejamento energético e falta de uma política de eficiência energética consistente, que englobe de modernização de infraestrutura a programas para redução de desperdício.

Os números da AIE, que constam do relatório Energy Efficiency 2017, levam em conta a energia primária, ou seja, não apenas a geração de eletricidade, mas também a lenha ainda usada em lares brasileiros, e o combustível que movimenta os carros e os caminhões, por exemplo.

No momento em que o Brasil discute o aumento na conta de luz, devido ao maior uso de termelétricas, e que os holofotes globais estão voltados para a COP-23, conferência do clima que se encerrou em Bonn, Alemanha,no sábado dia 18, pesquisadores da área de energia afirmam ser fundamental levantar a discussão sobre o uso racional dos recursos energéticos, o que passa necessariamente pela relação entre o consumo de energia e o crescimento econômico.

Na China, a intensidade energética caiu 5,2% em 2016. Nos EUA, a queda foi de 2,9%; e na União Europeia (UE), de 1,3%. Segundo os dados da AIE, a capacidade de crescer consumindo proporcionalmente menos energia trouxe ganhos de produtividade para essas nações. Nos cálculos da agência, o bônus de produtividade decorrentes dos ganhos de intensidade energética em 2016 foi de US$ 1,1 trilhão na China, US$ 532 bilhões nos EUA e US$ 260 bilhões na UE. No mundo, foram US$ 2 trilhões. O Brasil não aparece na lista.

Para Gilberto Jannuzzi, pesquisador da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), que fez uma apresentação recentemente com base em dados da AIE, a maior parte dos países que estão conseguindo reduzir o montante de energia usado na produção de bens e serviços é daqueles que vêm adotando medidas mais rígidas para cumprir metas de emissões de carbono. Quanto à situação brasileira, ele a atribui diversos fatores.

"Entre as causas estruturais estão o uso de tecnologias obsoletas, a falta de uma política de eficiência energética que leve a uma frequente renovação de equipamentos ineficientes (como ar-condicionado), além dos escassos investimentos em modernização de rodovias e mobilidade urbana, que levam os carros a consumirem mais combustível em congestionamentos", diz Jannuzzi.

Entre as conjunturais podem ser relacionadas a recessão, que torna ineficiente a produção, especialmente na indústria. Um alto-forno não pode ser desligado mesmo que a produção de aço caia, pois, quando a economia melhorar, ele precisa estar a todo vapor. Além disso, a recessão empurra para informalidade negócios que deixam de ser contabilizados no PIB, mas mantêm a pressão sobre o consumo de energia.

Para José Goldemberg, um dos maiores especialistas em energia do País e atual presidente da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), o crescimento da intensidade energética no Brasil está relacionado à falta de planejamento energético, que levou ao aumento do uso de termelétricas em anos de secas. Segundo ele, o País vinha reduzindo o uso de energia direcionado à produção de bens e serviços desde a década de 1970, mas viu essa curva se inverter recentemente.

"Nos anos de 1980 e 1990, a água contida nos reservatórios das hidrelétricas durava dois anos. Hoje, dura seis meses. Isso é reflexo de um planejamento ruim. Quando não chove, temos que usar termelétricas, que, além de mais caras e poluentes, são menos eficientes. Há mais gasto de energia primária."

Roberto Schaeffer, professor do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia), avalia que os dados da AIE não guardam relação com a eficiência no uso da energia e considera inadequada a comparação entre países, pois as matrizes energéticas são diferentes, bem como os perfis de suas economias.

"Um país que produz laptop usa menos energia e gera mais PIB que um país que produz minério de ferro, cujo valor no mercado é menor do que o de um computador e que demanda mais energia para ser produzido. Isso não diz nada sobre a eficiência energética de um país. É uma questão de eficiência econômica." Jannuzzi reconhece que a comparação internacional não é perfeita. Afirma, porém, que a estrutura econômica de um país é uma das dimensões da eficiência energética, ao lado da eficiência técnica e do estilo de vida da população.

O presidente da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia (Abesco), Alexandre Moana, concorda. Ele ressalta ainda a necessidade de se criar uma certificação para a indústria, a exemplo do selo Procel que já existe para equipamentos e edificações. A associação trabalha numa metodologia no momento. "A ideia é criarmos mecanismos de incentivo para adesão a esse selo, como a exigência dessa certificação para a inclusão em cadastro de fornecedores."

O diretor do Departamento de Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia (MME), Carlos Alexandre Príncipe Pires, afirma que o governo "está atento à criação de instrumentos que facilitem a eficiência energética na indústria". Quanto aos dados da AIE, ele avalia que o fator principal que explica a situação brasileira é a recessão. E pondera que o parque energético de países ricos está num estágio diferente do brasileiro. "Europa, Japão e EUA atingiram uma certa estabilidade do seu parque energético. O Brasil está em expansão."

Por Jornal do Comércio - RS