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Canal – Jornal da Bioenergia

Brasil tem tudo para ser grande produtor de biocombustíveis para aviação

Publicado em 08 julho 2013

Por Carlos Orsi

O Brasil tem condições de se tornar um ator importante na produção global de biocombustíveis para aviação, mas o desenvolvimento desse potencial depende de mais investimentos em pesquisa, infraestrutura e na adoção de políticas públicas de estímulo, diz relatório elaborado pelas empresas Boeing e Embraer, em conjunto com a Fapesp e a Unicamp. No trabalho, intitulado Plano de Voo Para Biocombustíveis de Aviação no Brasil: Plano de Ação, os autores, em sua maioria pesquisadores ligados à Universidade Estadual de Campinas, notam que o Brasil já é um grande produtor de alguns dos principais insumos para esse tipo de combustível.

"O Brasil é o maior produtor mundial de cana-de-açúcar, o segundo maior produtor de soja e registra o mais baixo custo de produção de eucalipto", três culturas tidas como "candidatas naturais" - mas advertem que, para aproveitar essa vantagem, será preciso melhorar a infraestrutura de transporte.

"A maioria das culturas demanda melhorias de logística pois, em geral, a infraestrutura de transporte no Brasil é precária e as matérias-primas são produtos de baixa densidade e valor unitário", diz o texto, acrescentando, mais adiante, que as principais regiões consumidoras de combustível de aviação, no País, ficam distantes dos grandes centros de produção agrícola. Brasil tem tudo para ser grande produtor de biocombustíveis para aviação

O trabalho afirma, ainda, que o Brasil tem condições de desenvolver lavouras para va produção de biocombustível sem pôr em risco a segurança alimentar da população. Em várias partes do mundo, a competição entre o cultivo de matéria-prima para biocombustível e o plantio de alimentos já gera problemas graves, como apontou um trabalho publicado ano passado na Alemanha. "O Brasil é um dos melhores exemplos mundiais de que é possível conciliar uma produção sustentável de biocombustível com a segurança alimentar", afirma o relatório sobre biocombustível de aviação. "O Brasil utiliza somente 7% de sua terra para agricultura. O presente relatório indica que o País tem terra abundante disponível para bioenergia".

Metas e testes

A indústria da aviação comercial adotou metas de redução de emissões de CO2, com uma redução de sua produção de gases causadores do efeito estufa em 50%, até 2050, sobre os índices de 2005. Um dos pontos-chave para o cumprimento desse objetivo é a criação dos chamados biocombustíveis "drop-in", que podem ser misturados ao querosene de aviação comum e usados nos mesmos tipo de motor já existentes - uma estratégia diferente, por exemplo, da adotada para o uso de etanol em automóveis, prática que requer uma tecnologia diferente da do motor comum a gasolina. No ano passado, durante a conferência Rio+20, duas empresas brasileiras fizeram voos de demonstração usando biocombustíveis. A Azul Linhas Aéreas voou com um Embraer E-195, utilizando um "drop-in" produzido no Brasil pela Amyris, a partir de cana-de-açúcar, por meio de biotecnologia. Já a Gol Linhas Aéreas, com um Boeing 737-800, usou querosene de aviação comum com 50% de biocombustível produzido a partir de uma mistura de óleo de milho não comestível e óleo de cozinha usado. Em 2010, a TAM já havia testado um combustível de aviação contendo 50% de combustível fabricado com sementes de pinhão manso produzidas no Brasil.

Desafios

O relatório reconhece que há questões ambientais ligadas à produção e ao uso de biocombustível que precisam ser tratadas caso a caso: por exemplo, se a combinação entre o cultivo da lavoura escolhida e tecnologia de refino adotada realmente se mostra sustentável e gera um balanço favorável de emissão de CO2. "A certificação de sustentabilidade se tornará, cada vez mais, um requisito de acesso aos mercados", alerta o texto. O governo, por sua vez, terá de desempenhar um papel importante no patrocínio da pesquisa científica e na definição de uma especificação para o combustível. "Como em outras tecnologias inovadoras, o desenvolvimento de biocombustíveis para a aviação depende fortemente de mecanismos de apoio e de políticas públicas apropriadas", afirma o trabalho.

"Políticas públicas são fundamentais para desenvolver a tecnologia agroindustrial de biocombustíveis para a aviação, assim como será necessário implementar também medidas regulatórias e financeiras para respaldar a produção e o uso de biocombustíveis para a aviação", afirmam os autores, acrescentando que "políticas de biocombustíveis de longo prazo, que integrem os combustíveis para todas as modalidades de transporte (...) terão de ser estabelecidas para tornar o biocombustível para aviação economicamente viável em razão do custo extra adicional" de se produzir um substituto para o querosene de aviação que atenda às exigências internacionais.

Oportunidades

O relatório vê o Brasil "excepcionalmente bem posicionado" parta desenvolver um programa de biocombustíveis de aviação, por conta da variedade de lavouras ou produtos florestais que poderiam ser explorados, embora haja importantes desafios à frente. O combustível, aponta o trabalho, é o principal custo operacional de uma companhia aérea, representando 34% na média mundial, e 40% no Brasil. O consumo brasileiro de querosene de aviação deve crescer em 5% ao ano e, com a frota rodoviária usando cada vez mais fontes renováveis, há o risco de a aviação vir a assumir uma fatia cada vez maior das emissões de CO2 do setor de transporte no País. O estudo afirma que, mesmo requerendo forte apoio do setor público, a adoção do biocombustível de aviação poderá trazer vantagens como benefícios ambientais, mais empregos e estímulo à economia.

Redação TN / Inovação Unicamp