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Inovação Tecnológica

Brasil tem boa ciência, mas não gera tecnologia

Publicado em 19 agosto 2009

Por Fábio de Castro

Ciência sem tecnologia

Embora produza ciência de qualidade, o Brasil tem dificuldades em transferir esse conhecimento à sociedade, pois a pesquisa tecnológica é feita predominantemente pelas universidades, com pouca participação do setor privado.

Mas esse não é um problema exclusivo do Brasil, de acordo com o economista da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Jean Guinet.

O especialista em inovação, que apresentou na sede da FAPESP, em São Paulo, a conferência Boosting innovation in the business sector: some lessons from the experience of OECD countries, afirma que incentivar as empresas a investir em pesquisa e desenvolvimento é uma preocupação de grande parte dos países.

Em entrevista à Agência FAPESP, Guinet explicou que, entre os 30 países que participam da OCDE, aqueles que menos investem em inovação são os que têm uma porcentagem mais baixa de participação do setor privado nas pesquisas. E são também os que têm menores níveis de Produto Interno Bruto (PIB) per capita. O Brasil não é, portanto, uma exceção.

Segundo Guinet, com a crise econômica mundial, a inovação se tornará mais importante do que nunca. Com isso, o Brasil, assim como parte dos países da OCDE, terá uma necessidade ainda mais urgente de estimular as empresas a inovar - especialmente por meio de ações que reduzam o risco e o custo da pesquisa.

No Brasil, sabemos que a pesquisa científica e tecnológica é feita, em sua grande maioria, pelas universidades, com pouca participação do setor privado, o que dificulta a transferência de conhecimento para a sociedade. Esse problema também existe entre os países membros da OCDE?

Jean Guinet - Geralmente a regra que observamos - embora sempre haja exceções - é a seguinte: quanto menor é o nível geral de investimentos em pesquisa e desenvolvimento, maior é a porcentagem de gastos públicos. E há ainda uma correlação com o nível de desenvolvimento econômico: quanto maior é o nível de PIB per capita, maior é a proporção desse PIB investida em pesquisa e desenvolvimento e maior a participação das empresas no total das pesquisas. Essa é a regra e tem apenas algumas exceções parciais.

Há casos de países que conseguiram subverter essa regra, saindo de uma condição de pouco investimento em pesquisa e passando a inovar?

Guinet - A questão é como se sai disso que chamamos de "armadilha do equilíbrio". Isto é, como se supera uma situação em que o coeficiente da pesquisa realizada na empresa aumenta somente artificialmente, pelo crescimento dos gastos públicos.

É um problema muito mais universal do que geralmente se pensa. Porque há países nos quais há um nível razoavelmente grande de pesquisa e nos quais, ainda assim, há uma preocupação em aumentar a porcentagem da inovação nas empresas. Mesmo na Europa, o desafio é esse - trata-se de passar da fronteira dos 2% ou 3% do PIB em investimentos em pesquisas, aumentando a proporção que cabe às empresas.

Há consenso em relação à necessidade de haver pesquisas nas empresas?

Guinet - Sim, há essa convicção. Com base nas experiências internacionais e na análise de casos observamos que o sucesso das inovações depende bastante de uma participação considerável das empresas. São elas que fazem a ligação entre a produção de conhecimento novo e as necessidades do mercado - portanto, com a atividade econômica e a criação de valor engendrada.

A pesquisa pública se justifica, em sua maior parte, por outras missões, contribuindo para o bem-estar social de outras formas mais diretas do que a criação de valor econômico.

Quando falamos do processo de criação de valor econômico, nossa experiência é bem clara: ela depende de um desempenho suficiente em pesquisa e desenvolvimento e depende do compromisso das empresas com esse esforço. No Brasil, assim como em muitos outros países que estão em nível intermediário de renda, há um esforço de pesquisa frágil em relação aos países mais desenvolvidos. Nesses países, a participação das empresas é fraca.

O senhor vê no Brasil um esforço em busca da superação desse quadro?

Guinet - Entendo que estão entre os objetivos do país induzir, convencer e oferecer boas motivações para que as empresas entrem ainda mais no jogo da inovação. É importante dizer que o Brasil não é nenhuma exceção no contexto mundial. Esses números médios não significam que não haja núcleos e ilhas importantes de excelência nas quais não se aplica essa regra geral.

O Brasil tem, de qualquer maneira, se destacado em atividades que exigem pesquisa em nível tecnológico - a aviação é o campo mais evidente, mas há muitos outros. Isso prova que outros procedimentos no setor das empresas em relação à inovação são possíveis no Brasil. O importante é que essa atitude se generalize.

Mas como fazer para generalizá-la? Guinet - Mais uma vez, falamos de uma preocupação colocada em diferentes níveis de intensidade em muitos países. A maioria dos países está convencida da necessidade de se aproximar das melhores práticas. Isto é, a maior parte deles não está no nível das melhores práticas. E praticamente sempre encontramos esse problema.

Os países que estão no topo dos investimentos e do compromisso do setor privado nos esforços de pesquisa - e não estou me referindo aos Estados Unidos, mas a nações como a Finlândia e a Coréia do Sul - conseguiram superar essa lacuna. Nesses locais, três quartos da pesquisa são feitos pelas empresas.

Então, há uma permanente busca mundial por esse incentivo à inovação?

Guinet - Sim, porque não há uma fórmula mágica. Se as empresas não fazem pesquisa, elas têm suas razões. Isto é, elas podem sobreviver nas condições atuais. Elas têm condições de obter lucro suficiente sem investir em pesquisa. A questão é saber se essa situação pode durar, se as possíveis mudanças de condições de concorrência vão permitir manter essa estratégia.

O mecanismo que move as empresas na lógica econômica é a mudança de condição de concorrência. Para fazer esse esforço, as empresas precisam sentir a necessidade premente. Elas não o fazem apenas porque os jornalistas, formadores de opinião - ou mesmo o governo - dizem a elas que seria algo bom a fazer. Elas têm suas razões para não investir e o que poderia mudar isso são medidas de incentivo que tornassem a pesquisa menos custosa.

A motivação precisaria ser econômica?

Guinet - As empresas querem os benefícios trazidos pelo investimento em pesquisa e desenvolvimento, mas consideram que os riscos ou o custo de se ajustar essas estratégias são muito altos. Uma política clássica é incentivá-las com medidas que reduzem esse risco e custo da pesquisa, fazendo-as entrar em um círculo virtuoso. Com isso, elas começam a experimentar os benefícios dessas atividades e esse apoio inicial passa a não ser mais necessário.

Em geral, no entanto, a maior parte desses países tem auxílios permanentes à pesquisa. Essa abordagem é geralmente a mais seguida. Há também medidas especiais dirigidas à vasta maioria das empresas, que não faz inovação.

Como são essas medidas?

Guinet - No Brasil, como na maior parte dos países do mundo, a grande maioria das empresas consegue ter uma estratégia para sobreviver no mercado sem inovar. E mesmo se essa sobrevivência é precária, elas não conhecem os meios de adotar procedimentos mais ambiciosos. Então é preciso realizar ações voltadas para diagnosticar suas necessidades, de modo que tenham um acesso mais barato e mais simples à inovação e à consultoria tecnológica.

A partir daí, é preciso recompensar as empresas que abandonam a estratégia da simples sobrevivência e se aventuram a dar esse primeiro passo em direção ao risco de inovação.

Como o contexto de crise econômica global afetou as políticas de inovação? Agência FAPESP - Como o contexto de crise econômica global afetou as políticas de inovação?

Guinet - A crise traz um paradoxo: ela torna a inovação mais necessária do que nunca - porque para superá-la é preciso dar a nossas economias uma nova dinâmica - e, ao mesmo tempo, a crise tem um efeito desestimulante sobre os investimentos necessários à pesquisa e à inovação.

A crise aumenta o risco e as empresas são compelidas, por razões de viabilidade a curto prazo, a reduzir as ambições de seus programas, suprimindo projetos. E esses projetos são os mais incertos e também os que trazem mais benefícios a longo prazo. Nessa situação, os governos mantêm esforços para apoiar temporariamente as empresas, de modo que elas não reduzam demasiadamente seus investimentos em pesquisa.

No fim desse processo, será preciso que não nos limitemos a tentar recuperar o nível de atividade precedente, mas que busquemos uma nova expansão mundial. Para isso, o motor da inovação será importante como nunca, a fim de garantir uma trajetória de desenvolvimento dinâmica.