Depois do pior surto da história em 2024, País reduz casos e mortes, inicia vacinação inédita e reforça combate ao mosquito — mas especialistas avisam: descuido agora pode custar caro amanhã
O Brasil fechou 2025 com um cenário bem diferente do ano anterior no enfrentamento das arboviroses. Os números oficiais do Ministério da Saúde apontam cerca de 1,65 milhão de casos de dengue e 1.793 mortes no ano passado. É muita gente doente, é verdade. Mas, comparado a 2024 — quando o país viveu o maior surto já registrado, com mais de 6,5 milhões de infecções e 6.321 óbitos — a redução passa de 70%.
Foi uma queda grande, daquelas que dá um fôlego no peito. Em 2024, o sistema de saúde quase foi no limite: hospitais lotados, UPAs abarrotadas, profissionais exaustos. Teve estado decretando emergência, prefeitura correndo contra o tempo, e o povo sofrendo com febre alta, dor nos olhos, dor nas juntas e, nos casos mais graves, hemorragias e risco de morte.
O peso da chuva e do mosquito
Quem mora no Nordeste sabe: começou a chover de novembro pra cá, o mato cresce, a água empoça e o mosquito faz a festa. O Aedes aegypti encontra terreno fértil no calor e na água parada. Historicamente, o pico da dengue acontece entre novembro e maio, quando o período chuvoso favorece a reprodução do vetor.
Em 2025, mesmo com a queda nacional, alguns estados continuaram registrando números elevados, especialmente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. São Paulo, Minas Gerais e Goiás seguiram entre os que mais notificaram casos. Isso mostra que o problema não acabou — só deu uma trégua.
Especialistas em saúde pública lembram que a dengue hoje circula com múltiplos sorotipos no país, o que aumenta o risco de reinfecção e de formas graves. Quando a pessoa pega dengue pela segunda vez, o risco de complicação pode ser maior. Não é conversa fiada, é dado científico consolidado.
Chikungunya: a montanha-russa dos números
A chikungunya também apresentou recuo em 2025. Foram aproximadamente 129 mil casos, contra 263 mil no ano anterior, uma queda de 51%. As mortes também diminuíram, passando de 246 para 121.
Mas nem tudo são flores. Desde 2022, o Brasil vinha mantendo patamares elevados da doença, acima de 150 mil casos por ano. A oscilação tem sido constante, uma verdadeira montanha-russa epidemiológica. E quem já teve chikungunya sabe o sofrimento: as dores articulares podem durar meses, às vezes anos, comprometendo a qualidade de vida de muita gente.
Vacinação entra em cena
Uma das novidades mais importantes foi o início da vacinação contra a dengue com um imunizante de dose única produzido integralmente no Brasil pelo Instituto Butantan. A aplicação começou em janeiro de 2026, priorizando pessoas entre 15 e 59 anos e profissionais da atenção primária.
A vacina foi aprovada pela Anvisa após cinco anos de acompanhamento clínico com milhares de voluntários. Os estudos apontaram eficácia geral superior a 70% e proteção ainda maior contra formas graves da doença. Pesquisas científicas internacionais também indicaram redução significativa na circulação viral entre vacinados.
No caso da chikungunya, o país iniciou projeto-piloto de vacinação em fevereiro de 2026, utilizando imunizante desenvolvido em parceria com laboratório estrangeiro. Ensaios clínicos demonstraram forte resposta imune e potencial para reduzir hospitalizações.
É avanço? É sim. Mas vacina sozinha não resolve tudo. Sem combate ao mosquito, o problema volta.
O sertão sabe: prevenção começa no quintal
Aqui no sertão da Paraíba, o ensinamento é antigo: “água parada é convite pro mosquito”. Não tem tecnologia que substitua o cuidado diário. Caixa d'água tampada, pneu guardado em lugar coberto, lixo descartado direito e atenção redobrada com calhas e reservatórios fazem diferença.
Dados nacionais mostram que boa parte dos criadouros ainda está dentro das residências. Ou seja, o inimigo mora no quintal da gente. Se cada morador fizer sua parte, a corrente quebra.
O que pode vir em 2026?
Pesquisadores em climatologia alertam que fenômenos como El Niño e La Niña influenciam diretamente a dinâmica das arboviroses. Mudanças no padrão de chuva e temperatura podem favorecer novos surtos regionais.
Além disso, o Brasil ainda convive com desafios estruturais como saneamento básico precário em diversas cidades e crescimento urbano desordenado — fatores que ampliam o risco de novas explosões de casos.
Não é hora de baixar a guarda
A queda registrada em 2025 é real e precisa ser reconhecida. Representa esforço de estados, municípios, profissionais de saúde e da própria população. Mas cantar vitória agora é cedo demais.
Dengue e chikungunya continuam circulando. O mosquito não tirou férias. Como diz o matuto esperto: “quando a poeira baixa, é bom olhar pro horizonte, porque o vento pode virar”.
O Brasil melhorou os números. Mas a luta segue. E, no sertão ou na capital, prevenção ainda é o remédio mais barato e mais eficaz.