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Brasil reivindica ilha submersa maior que a Islândia e rica em minerais (2 notícias)

Publicado em 10 de julho de 2025

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Tribuna de Minas online

O Brasil pediu à ONU que reconheça uma ilha submersa no Atlântico Sul como parte de da plataforma continental brasileira.

A área reivindicada é maior que a Islândia e rica em minerais usados em baterias, turbinas e painéis solares.

O que aconteceu

Chamada de Elevação do Rio Grande, a ilha é uma estrutura única no Atlântico Sul. Localizada a cerca de 1.200 quilômetros da costa do Rio Grande do Sul, ela se ergue desde a base oceânica, a cerca de 5.000 metros de profundidade, com o topo localizado entre 700 e 2.000 metros abaixo do nível do mar, reunindo montes submarinos, platôs, cânions, canais e um gigantesco rift (grande fenda tectônica).

Região abriga elementos essenciais para a transição energética. Há cobalto, manganês, níquel, telúrio.

Ilha contém as chamadas terras raras. É um grupo de 17 elementos químicos, que inclui ítrio, escândio e os lantanídeos. Apesar do nome, as terras raras não são tão raras na natureza, mas costumam estar em pequenas concentrações, dificultando a extração. O processo de beneficiamento também é complexo e dominado por poucos países, principalmente a China. Esses materiais têm usos estratégicos em turbinas eólicas, painéis solares, baterias, ímãs, ligas metálicas e eletrônicos, com demanda crescente no mundo.

Brasil reivindica soberania sobre a área desde 2018. O pedido foi apresentado à Comissão de Limites da ONU, a CLPC, naquele ano e reforçado em 2025 com novos estudos geológicos e geofísicos.

Pedido do Brasil é baseado em regras da ONU que permitem ampliar a plataforma continental quando há ligação geológica com o território. Essas evidências vêm sendo aprofundadas por pesquisadores brasileiros. Estudos evidenciam que a Elevação do Rio Grande tem características parecidas com as rochas do continente, reforçando o pedido brasileiro.

Grupo multidisciplinar estuda local

Pesquisas sobre a Elevação do Rio Grande reúnem um grupo multidisciplinar da USP. Ele envolve o Instituto Oceanográfico, a Escola Politécnica e o Instituto de Geociências, em parceria com universidades britânicas, alemãs e japonesas. Os objetivos vão de entender sua origem geológica a avaliar o potencial mineral estratégico e os riscos ambientais de uma eventual exploração.

Estudos geofísicos corroboram o pedido do Brasil para ampliar sua plataforma continental. O professor Luigi Jovane coordena pesquisas sobre a Elevação do Rio Grande. Especialista em geofísica marinha e paleomagnetismo, ele lidera expedições científicas à região desde 2015. Os dados coletados por sua equipe foram usados como subsídios técnicos no pedido brasileiro à ONU, segundo o próprio professor. Esses estudos ajudam a fundamentar a extensão da plataforma continental, comprovando a continuidade geológica com o território nacional.

Análises de zircões, por exemplo, evidenciaram que a Elevação do Rio Grande é um fragmento da crosta continental, validando o pedido brasileiro. Estudos indicam que suas rochas têm idades entre 540 milhões e 2 bilhões de anos, muito anteriores à separação entre América do Sul e África.

Estudos indicam que a área já foi emersa. Segundo Jovane, ela começou a se formar no período de abertura do oceano Atlântico e guarda registros de mudanças no oceano ao longo de milhões de anos. "Ela é muito maior que a Islândia, sem equivalente direto", afirma.

Estrutura era uma ilha tropical no meio do Atlântico. "Encontramos rochas vulcânicas datadas de 45 a 47 milhões de anos e sedimentos que mostram alteração em ambiente emerso. Isso confirma que ela era uma ilha tropical no meio do oceano", explica o professor.

Mesmo com essas descobertas, a região ainda guarda mistérios. "Ainda sabemos muito pouco sobre sua origem completa, porque é uma região imensa e muito complexa, com várias fissuras e feições que mostram uma história longa", diz Jovane.

Tecnologia inédita

USP desenvolve tecnologias inéditas para estudar a Elevação do Rio Grande. Para avançar nesse conhecimento, a universidade cria equipamentos capazes de analisar grandes áreas do fundo oceânico, incluindo tecnologias que não existem atualmente no mercado internacional. Segundo Jovane, o objetivo é mapear e caracterizar melhor a elevação. "Já estamos tentando organizar um cruzeiro com a Marinha e outros órgãos governamentais para o fim deste ano ou início do próximo, para entender melhor essa região", diz o professor.

Explorar essas riquezas também traz riscos. "Os maiores riscos são mudanças na química, oxigenação e pH da água em ampla escala, contaminação por poluentes e pela pluma de mineração. Mas ainda não sabemos exatamente como isso aconteceria", afirma Jovane.

Efeitos sobre a fauna ainda são pouco conhecidos. "Tem que ser estudado com muito detalhe. Há peixes já amplamente explorados na região por pesqueiros do mundo inteiro, mas pouco se sabe sobre os organismos que vivem fixos nessas crostas", diz o professor.

Apesar dos riscos e incertezas, a reivindicação tem peso estratégico e científico. "É muito importante para o desenvolvimento do Brasil e para ampliar estudos nessa região, que é estratégica, mas ainda muito desconhecida", afirma Jovane.

Reivindicação ampliará a área de influência e a responsabilidade ambiental do Brasil. O professor explica que, se reconhecido, o pedido ampliará não só o território, mas também a responsabilidade brasileira sobre a conservação e o monitoramento ambiental do Atlântico Sul. "O Brasil terá uma responsabilidade ambiental global por tudo que acontece nessa região", resume.