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Brasil pronto para inovar em fármacos

Publicado em 23 novembro 2006

Por Fábio de Castro, Agência FAPESP

Para Eliezer Barreiro, da UFRJ, o Brasil tem todos os elementos para desencadear uma onda de inovação no setor de fármacos, mas o governo precisa criar política de medicamentos que integre suas próprias iniciativas às possibilidades da academia e da indústria

O setor de fármacos no Brasil tem a chance de deflagrar uma grande onda de inovação. Mas, para isso, o governo federal precisa explicitar uma política de medicamentos para aproveitar a confluência de fatores favoráveis: economia globalizada, crise de criatividade na indústria farmacêutica internacional, alta qualificação e baixo preço da produção científica nacional, vasta biodiversidade, motivação do empresariado e a necessidade de promover a saúde da população.
A análise é de Eliezer Barreiro, do Laboratório de Avaliação e Síntese de Substâncias Bioativas da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do RJ (UFRJ). O professor também coordena o Instituto do Milênio — Inovação e Desenvolvimento de Fármacos e Medicamentos (Infoar), onde trabalha na articulação entre o setor público e privado.
"O momento no país é muito oportuno, tanto em relação ao setor público e acadêmico quanto ao setor privado. A comunidade científica está pronta, com recursos humanos de alta qualidade e competências instaladas. A empresa está buscando mecanismos de integração com a Universidade. O caldo de cultura está muito favorável", disse Barreiro à "Agência Fapesp".
O professor também coordena o Instituto Virtual de Fármacos do RJ (IVFRJ), vinculado à Faperj.
Segundo Barreiro, o governo federal estabeleceu que a questão dos fármacos é estratégica para o país e teve sucesso em inúmeras ações pontuais, mas ainda falta explicitar uma política de medicamentos que esteja à altura da universalização do Sistema Único de Saúde (SUS).
"Foi um avanço para o país reconhecer a questão constitucional da universalidade do acesso aos medicamentos. É preciso agora coordenar e articular as iniciativas do governo com as possibilidades da indústria e da academia. Falta uma força-tarefa para criar uma política de Estado que envolva os ministérios da Educação, da Indústria e Comércio, da Ciência e Tecnologia, da Saúde e do Planejamento", disse.
Segundo o professor, é preciso inovar para que a universalização dos fármacos possa ser feita com produtos nacionais. "O Ministério da Saúde divulga que 10% de seu orçamento é investido na importação de medicamentos. É um sangramento de divisas muito grande. O Brasil precisa ter medicamentos que falem português — e já está pronto para isso."

Crise internacional de criatividade
Barreiro aponta que há uma crise mundial de criatividade na indústria farmacêutica internacional. "As grandes indústrias farmacêuticas investem cada vez mais — foram US$ 33 bilhões em 2004 e o crescimento é de 10% ao ano — , mas o número de novas entidades químicas descobertas decresce a cada ano", disse. Nesse contexto, as grandes indústrias criaram parcerias com escritórios de alta tecnologia capazes de prospectar oportunidades. "Eles usam a literatura científica e os registros de patentes para buscar novas moléculas — inclusive no hemisfério Sul, o que era impensável há apenas cinco anos", afirmou Barreiro.
Esse ambiente globalizado é favorável à inovação brasileira, segundo o professor. "Há uma necessidade crescente de moléculas boas. No caso dos produtos naturais sempre houve essa busca — inclusive de forma ilegal —, mas agora temos a chance de patentear moléculas sintéticas e penetrar em mercados muito importantes", disse.
Segundo Eliezer Barreiro, o profissional brasileiro é competitivo, já que a produção científica é de alta qualidade e baixo preço. "Somos um cérebro barato. Somos pagos em real, o que nos dá competitividade em termos de idéias novas. É um ponto positivo que pode ser explorado, como foi na Índia, contanto que se preservem as conquistas trabalhistas e que o benefício seja eminentemente social", disse.
O pesquisador aponta que os fármacos são um instrumento de inclusão social efetiva. "Hoje não se pode pensar o medicamento como instrumento só de cura de doenças, ele é um fator de qualidade de vida e promoção da saúde. Não se constrói expectativa de vida se a saúde da população — maior patrimônio da nação — for mantida com medicamento que se traz de fora. Temos que reverter isso. Os indicadores mostram que a hora é esta", disse.