Notícia

Gazeta Mercantil

Brasil produz bezerro de proveta

Publicado em 19 abril 1996

Por Lúcia Kassai - de São Paulo
Em novembro deste ano, deverão nascer os primeiros bezerros de proveta em escala comercial do Brasil. Antes deles, houve apenas dois outros casos experimentais, conduzidos pela Embrapa e pela Unesp em 1989, com animais para abate. Mais do que um feito científico, o domínio da tecnologia abre as portas para a manutenção de bancos de óvulos, enriquecendo os recursos genéticos da pecuária de corte brasileira. A fecundação "in vitro" em escala comercial é resultado de um acidente ocorrido com Tari e Agulha, duas vacas da raça Nelore de alta linhagem - ambas puras por origem (PO). No final de fevereiro, Tari e Agulha quebraram as patas dianteiras durante uma operação de coleta de embriões, e foram sacrificadas. O criador, José Olavo Borges Mendes, tomou, então, a decisão de aproveitar a ocasião para antecipar o trabalho que estava planejando há algum tempo: o de produzir bezerros de proveta, em parceria com técnicos do departamento de genética da USP de Ribeirão Preto. Borges Mendes não perdeu tempo: com a ajuda do filho, o veterinário Frederico Mendes, extraiu os ovários das vacas e transportou-os de Uberaba a Ribeirão Preto, onde fica o laboratório da USP, percorrendo 180 quilômetros. "Os ovários - que medem de 3 a 5 centímetros - foram mergulhadas em soro fisiológico, e transportados em uma caixa térmica a uma temperatura de 37 graus Celsius", explica Frederico Mendes. Agulha, que tinha sete anos de idade, forneceu 131 óvulos imaturos, dos quais 63,3% se mostraram viáveis. Já Tari, com quatorze anos, forneceu 35 óvulos imaturos, dos quais 48,6% se mostraram viáveis. "Os óvulos considerados viáveis foram fecundados numa incubadora", informa Yeda Watanabe, bióloga que participou dos trabalhos na USP. Após oito dias, soubemos que 13 óvulos haviam sido fecundados, ou seja, 32,5%. "As estatísticas mostram que o sucesso é de, em média, 20%", diz. Os óvulos fecundados passaram por um processo de transferência de embriões. Uma das fêmeas receptoras está em fase de gestação, carregando quatro embriões, enquanto a outra está com dois. "Ou seja, o sucesso foi de 46%, dentro da taxa média de prenhez - via transferência de embriões - que oscila entre 40% e 50%", diz a bióloga. Para o presidente da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), embora a técnica tenha obtido sucesso, ela não é aplicável em escala comercial. "Em outros países onde foi desenvolvida, os custos mostraram a inviabilidade dessa nova tecnologia", diz. Embora a equipe da USP ainda não tenha feito um cálculo dos custos da fecundação "in vitro", Frederico Mendes, informa que eles não devem ser inferiores a R$ 500. "Um veterinário cobra entre R$ 300 e R$ 500 para fazer a transferência de embriões, que é apenas uma das etapas da fecundação "in vitro", informa.