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Diário da Saúde

Brasil precisa restringir álcool assim como fez com o cigarro, diz especialista

Publicado em 17 junho 2019

Por José Tadeu Arantes | Agência FAPESP

O Brasil é referência mundial na redução do tabagismo. Em compensação, o alcoolismo, especialmente entre adolescentes, continua um problema sem solução.

"Estamos a anos-luz de distância do que poderia ser feito aqui e também do que tem sido feito nos países desenvolvidos com base em evidências científicas," disse Zila Sanchez, professora da Escola Paulista de Medicina (EPM) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

"Existem centenas de programas para reduzir a demanda. Porém, muito mais eficazes do que esses programas são as políticas públicas de restrição ao acesso. Não estou falando em proibição. Estou falando em limites. Limites para a propaganda e para a venda etc. E também estou falando da aplicação da legislação existente," acrescentou.

Zila mencionou uma orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS) que aponta cinco eixos comprovadamente eficazes na diminuição dos danos causados pelo álcool na população:

Limitar a disponibilidade do álcool;

ampliar as restrições a beber e dirigir;

ampliar as restrições à publicidade, ao patrocínio e à promoção do consumo de bebidas alcoólicas;

taxar as bebidas alcoólicas para forçar o aumento do preço;

e aumentar o acesso da população ao diagnóstico e a intervenções breves de tratamento do alcoolismo.

Restrições às bebidas alcoólicas

Exceto as restrições a beber e dirigir, nenhuma das outras recomendações tem sido implementada no Brasil de forma realmente consistente e eficaz.

"Há inúmeras evidências de que a publicidade induz o consumo precoce de bebidas alcoólicas. E sabemos que, quanto mais cedo uma pessoa começa a beber, maior a propensão de ela se tornar dependente de álcool na idade adulta," afirmou Zila.

Sobre a limitação da disponibilidade, seria preciso um controle muito mais rigoroso dos pontos de venda, das distâncias entre os pontos de venda e as escolas, dos horários de venda e dos horários de funcionamento dos bares.

Em relação a restringir o patrocínio e a promoção, a pesquisadora falou da proliferação de baladas do tipo bar aberto, que induzem os participantes ao consumo abusivo, promovendo gincanas nas quais a pessoa que beber mais não precisa pagar a conta.

"Quanto à taxação, ela é hoje, no mundo, a política número um para reduzir os danos causados pelo alcoolismo. É preciso que haja uma política implementada em caráter nacional", disse a pesquisadora.