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Canal Energia

Brasil precisa regulamentar o uso de SAE

Publicado em 24 agosto 2018

Quando escrevi pela primeira vez sobre sistemas de armazenamento de energia (SAE), em junho de 2015, lembro da dificuldade que foi para encontrar informações em português sobre essa tecnologia. Havia lido que ela poderia revolucionar o setor elétrico mundial nos próximos anos, tão disruptiva como foi o advento do computador. Aceitei o desafio de escrever sobre as baterias após reencontrar uma antiga fonte – como se diz no jargão jornalístico -, que há algum tempo não conversara. O executivo ao qual me refiro era Carlos Augusto Brandão, que conheci ainda nos tempos em que ele era presidente da Dobrevê Energia, empresa que depois foi incorporada pela CPFL Renováveis em 2014.

Lembro de ouvi de Brandão: “Chegou a hora de olhar para frente a ficar discutindo os problemas do passado”, disse me um mês antes de fazer o lançamento oficial da Associação Brasileira de Armazenamento e Qualidade de Energia (Abaque), entidade formada em parceria com associações internacionais para promover o desenvolvimento do mercado de armazenamento de energia no Brasil. Passados três anos, percebo que o tema está cada vez mais presente setor elétrico brasileiro. As aplicações dos Sistemas de Armazenamento de Energia, por exemplo, tomaram grande parte das discussões do evento internacional de energia eólica Brazil Wind Power, realizado no Rio de Janeiro entre os dias 7 e 9 de agosto deste ano.

A grande preocupação do setor elétrico está nos desafios impostos pela expansão da geração eólica e solar na matriz. Apesar do potencial enorme de produção de energia limpa e renovável, essas fontes são dependentes das forças da natureza, portanto, nem sempre estão disponíveis nos momentos de maior demanda do Sistema Interligado Nacional (SIN). Essas fontes têm como característica principal a variabilidade de geração, não são despacháveis pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e não podem ser armazenadas – pois não é possível armazenar diretamente o vento ou o Sol.

Não é possível admitir que nós brasileiros estejamos pagando uma conta de geração a diesel contrariando toda a tendência de energia limpa.

Outra preocupação que bate na porta das concessionárias de distribuição de energia atende pelo conceito geração distribuída. A popularização do uso de placas solares em residências, comércios e indústrias provoca um fluxo elétrico na rede que precisa ser acompanhado com cautela por essas empresas. “Existe uma grande preocupação por parte das concessionárias com essa combinação de energia solar com bateria”, reconhece Júlio Omori, superintendente de Projetos Especiais e Smart Grid da Copel.

Soma-se aos desafios das renováveis um problema antigo do setor. O Brasil possui 246 regiões conhecidas como Sistemas Isolados, que são principalmente atendidos por térmicas a óleo diesel. Além de altamente poluente, esse combustível é subsidiado, custa bilhões de reais por ano e é pago por todos os consumidores através da CCC – Conta de Consumo de Combustíveis.

Descobri que a solução para todos esses problemas pode estar no uso das tecnologias de armazenamento. “Não é possível admitir que nós brasileiros estejamos pagando uma conta de geração a diesel contrariando toda a tendência de energia limpa”, criticou Brandão durante conversa que tivemos novamente nesta semana. “É importante que o Governo enxergue a tecnologia de armazenamento como uma solução competitiva comercialmente e trate essa solução em todo o processo de planejamento sistema elétrico brasileiro”, defendeu.

ENERGY STORAGE NEWS

No meu primeiro texto sobre armazenamento de energia, minha abordagem foi no sentido de apresentar as diversas aplicações dessa tecnologia, bem como mostrar um pouco de como esse tema estava caminhando em algumas partes do mundo. Para evitar cair em repetição, resolvi retomar essa discussão tentando entender, a partir de notícias, como esse mercado está se desenvolvendo no Brasil.

Uma das grandes conquistas do setor foi a Chamada Estratégica n° 21, aprovada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) em junho de 2016 e batizada de “Arranjos Técnicos e Comerciais para a Inserção de Sistemas de Armazenamento de Energia no Setor Elétrico Brasileiro”. Foram selecionados 29 projetos, cujos investimentos somam R$ 550 milhões. Desse total, segundo levantamento feito pela Abaque, 23 estão em estágio de desenvolvimento, representando R$ 405 milhões. A partir do resultado desses projetos, espera-se que seja possível criar uma regulação que permita o desenvolvimento de modelos de negócios para a implantação de Sistemas de Armazenamento de Energia (SAE).

No momento em que escrevo esse texto, a AES Tietê promove um encontro com a imprensa no interior do estado de São Paulo para apresentar o primeiro projeto de bateria no Brasil conectado no grid. O SAE foi implementado na usina hidrelétrica de Bariri e utiliza a plataforma Advancion da Fluence, uma joint-venture global entre AES Corp e Siemens, criada neste ano para oferecer ao mercado tecnologia de armazenamento e serviços de energia. O projeto da AES Tietê faz parte do programa de P&D da Aneel e recebeu investimento de R$ 5,4 milhões. Com capacidade instalada de 161KW, expansível para 1 MW, o sistema permite que o excedente de energia gerado possa ser armazenado e usado em outro momento.

De acordo com o diretor de relacionamento com o cliente da AES Tietê, Rogério Jorge, no passado havia um ceticismo em relação ao armazenamento. Porém, a cada dia há um interesse maior do mercado tanto por parte das utilities quanto por parte de consumidores industriais. Ele afirmou que não há dúvidas quanto a viabilidade técnica e econômica do uso de SAE. Para ele, o desafio do Brasil está mais em definir qual será o melhor modelo de contratação e de remuneração desse novo serviço. “O que a gente tem feito é interagir com os agentes setoriais dando a nossa contribuição do ponto de vista tecnológico”, disse.

Um dos desafios da Neoenergia é reduzir o consumo de óleo diesel do arquipélago de Fernando de Noronha, em Pernambuco. Até o final deste ano, a concessionária de distribuição de energia do estado (Celpe) espera inaugurar um sistema de baterias na ilha. Esse é mais um dos projetos de P&D da Aneel que recebeu investimento da ordem de R$ 22 milhões.

O gerente corporativo de P&D da Neoenergia, José Antônio de Souza Brito, contou que um dos objetivos do projeto é usar a eletricidade das baterias para o atendimento nos horários de maior consumo de Noronha. O SAE de 560 kW será carregado com energia solar, proveniente de uma planta de 1 MWp que hoje está instalada na Ilha. “A nossa previsão é que com a entrada do sistema de armazenamento possamos desligar um dos geradores a diesel”, disse Brito, explicando que o combustível fóssil é utilizado para alimentar cinco geradores, sendo dois de reserva, dois que operam de forma constante e um que é usado para o atendimento da ponta de carga.

Em 21 de junho deste ano, durante evento na Federação da Indústria do Estado de São Paulo (FIESP), o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Reive Barros, informou que os sistemas de armazenamento de energia serão contemplados no Plano Nacional de Energia 2050. O PNE aponta para cenários de longo prazo com indicações de como deverá se estruturar o sistema elétrico brasileiro no futuro. A expectativa é que documento seja apresentado em 2019. “A nossa expectativa é que no futuro tenhamos sistemas híbridos, com geração eólica, solar e armazenamento de energia ao mesmo tempo. No sistema isolado vamos começar o primeiro projeto”, disse Barros, que foi também relator do processo de P&D quando era diretor da Aneel.

O Ministério de Minas e Energia (MME) estuda realizar neste ano os primeiros leilões envolvendo armazenamento de energia. São dois certames que vão atender aos sistemas isolados do estado de Roraima. De acordo com o presidente da Abaque, os projetos não terão nenhum aspecto de teste. Um leilão demandará um sistema de 70 MW de baterias para serviços ancilares, que será utilizado em eventual problema na linha de transmissão Guri 230 kV, que vem da Venezuela e abastece o estado. A intenção é que a bateria atue por meia hora até a partida dos motores a diesel.

Já o outro leilão seria para um sistema híbrido de 250 MW com baterias em microgrids ao longo de subestações de Roraima, além de pequenas partes isoladas do estado que não possuem acesso ao SIN. Essa solução híbrida pode envolver várias fontes, como eólica, solar, biomassa e até mesmo diesel. O leilão foi oficializado a partir da publicação da Portaria n° 67, de 1º de março de 2018, do MME. A expectativa é que o certame seja realizado entre outubro e novembro.

“Existe um potencial gigante para geração híbrida no país, em especial usinas solares com hídricas”, afirmou Rodrigo Salim, líder de Baterias e Soluções de Armazenamento de Energia da GE Power “Assim como a maioria dos mercados da América Latina, o Brasil é um mercado que está começando”, completou. Em junho, a GE anunciou uma nova plataforma de armazenamento de energia, a GE Reservoir. Com a possibilidade de se integrar a toda rede elétrica, a solução permite a complementariedade da energia renovável com a tradicional, podendo melhorar o desempenho da rede, além de potencialmente reduzir custos.

Neste mês de agosto, a fabricante brasileira de equipamentos para indústria elétrica WEG fechou seu primeiro contrato para o fornecimento de um sistema de armazenamento de energia elétrica nos Estados Unidos. O contrato, de US$ 2,4 milhões, é resultado de uma parceria tecnológica com a norte-americana Northern Power para entregar um conjunto de baterias de lítio que será operado pela Viridity Energy Solutions. O sistema foi contratado pela distribuidora norte-americana Vermont Electric Cooperative para resolver problemas relacionados à qualidade do fornecimento de energia.

“Já temos tecnologia de bateria para fornecer energia para uma cidade”, afirmou João Paulo Gualberto, diretor de novas energias WEG. “Não se aplica essa tecnologia massivamente ainda porque o custo ainda é alto, mas esse custo vem caindo. Hoje estamos falando em um custo de implementação de US$ 200/kWh. Em 12 anos, segundo a Bloomberg New Energy Finance (BNEF), esse custo vai cair para US$ 73/kWh.” James Ellis, chefe de pesquisa na América Latina da BNEF, disse durante o Brazil Wind Power que o custo da bateria de lítio caiu 80% desde 2010.

Também neste mês, a transmissora Cteep anunciou que está avaliando o uso de armazenamento de energia. Em teleconferência com analistas de mercado, o diretor Técnico da companhia, Carlos Ribeiro, reconheceu que SAE é um negócio promissor, viável do ponto de vista técnico e de modelo de negócio, e que pode resolver problemas específicos do setor de transmissão, como o atendimento ao aumento de cargas sazonais, ou até mesmo oferecendo novos serviços ancilares, como controle de frequência, de tensão, de carregamento.

“Entendemos que tecnicamente é bastante interessante o uso de baterias para resolver problemas que, de uma forma convencional, exigiria a instalação de linhas e levaria mais tempo”, disse Ribeiro, destacando ainda o menor impacto ambiental da tecnologia de armazenamento.

Em parceria com a Universidade de São Paulo, a Cteep estuda a implementação do armazenamento de energia no litoral norte do estado paulista, para resolver um problema de sazonalidade de carga, comum em épocas de alta temporada turística. Contudo, o Brasil ainda não tem regulamentação para o uso de armazenamento de energia.

Em maio deste ano, a Shell Brasil em parceria com a Fapesp, Unicamp, USP e o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN) anunciaram um investimento de R$ 110 milhões destinado para a criação do Centro de Inovação em Novas Energias (CINE). Uma das linhas de pesquisa será o armazenamento de energia. A Pacto Energia também anunciou em maio que recebeu subvenção de US$ 1 milhão da Agência de Comércio e Desenvolvimento dos EUA para realizar um projeto de sistema de armazenamento de energia e geração de energia solar fotovoltaica no estado de Goiás.

Também em maio, a Cemig inaugurou a primeira usina fotovoltaica com capacidade de armazenamento. O valor do investimento foi R$ 22,7 milhões, sendo R$ 17,5 milhões aplicados pela concessionária e R$ 5,2 milhões por uma empresa parceira no projeto, a Alsol Energia Renováveis, do Grupo Algar. As empresas combinaram o armazenamento de energia e geração distribuída com a instalação de uma planta fotovoltaica de 300 kWp (quilowatt-pico), além do sistema de armazenamento de 1 MW.

GATILHO REGULATÓRIO

Como prometi ao leitor, não vou cansa-lo descrevendo as várias aplicações e tecnologias de armazenamento de energia. Contudo, caso haja interesse em se aprofundar no assunto, recomendo a leitura de um estudo realizado pela Abaque, intitulado “Visão Geral de Tecnologia e Mercado Brasil“. Considerando-se todas estas aplicações, a associação estima em 95 mil MWh a demanda potencial por sistemas de armazenamento de energia no mercado brasileiro.

O trabalho não traz projeções considerando a aplicação de serviços ancilares, bem como não quantifica os benefícios destes serviços e possíveis incentivos a sua aplicação, mesmo reconhecendo que este nicho tem especial importância para a viabilização da aplicação de SAE. Isto porque não há regulação específica para este tipo de aplicação, bem como ainda há poucos estudos, mesmo em nível mundial, sobre a precificação destes serviços.

Modernizações previstas no setor elétrico como a PLD Horário, separação de lastro e energia e remuneração por serviços ancilares são fundamentais para viabilizar esse mercado de SAE.

Para Brandão, o Brasil mais uma vez se atrasa na toma de decisão. Ele defende que os órgãos de planejamento do Governo contemplem o uso de armazenamento de energia nos estudos de expansão da matriz. Para Gualberto, uma mensagem correta da regulação poderá acelerar o desenvolvimento do mercado de armazenamento. Outro desafio será criar linhas de financiamento para suportar esses investimentos.

Para José Brito, é natural que no início se crie algum tipo de estimulo para esse tipo de tecnologia. Modernizações previstas no setor elétrico como a PLD Horário, separação de lastro e energia e remuneração por serviços ancilares são fundamentais para viabilizar esse mercado de SAE, disse Omori, da Copel.

Segundo Brandão, é necessário que essa discussão extrapole as entidades do setor elétrico, passando por agências de fomento, de financiamento, órgãos responsáveis por importação e pelo estabelecimento políticas de produção nacional. “É importante que todas essas entidades comunguem de um planejamento incomum”, frisou. Procuradas, EPE e Aneel não conseguiram responder em tempo aos pedidos de entrevistas.