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Brasil perdeu o ‘time’ para ‘Lockdown’, mas ele deve vir ‘antes tarde que nunca’, diz especialista da Fiocruz

Publicado em 11 maio 2020

Com o agravamento da pandemia do novo coronavírus, especialistas de diversas áreas têm sido ouvidos por autoridades para aconselharem políticas de enfrentamento à doença, entre elas a necessidade de se realizar um confinamento da população, o chamado “lockdown”.

Presente em três comitês de crise, entre eles a Comissão Ciência RJ no Combate à Covid-19 (ComCiênciaRJCovid), criada na quarta-feira pelo governo do Rio, a médica Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), considera que o país perdeu o “timing” para a medida, mas ela deve ser feita “antes tarde do que nunca” mesmo que, para isso, seja necessário se recorrer à intermediação com a criminalidade.

“Aqui no Rio nossa recomendação, pelo comitê de contingência, foi muito explícita. Se não tivermos o apoio das lideranças comunitárias, quaisquer que sejam elas, nós não vamos conseguir. Vai declarar o ‘lockdown’ e vai gerar violência, porque vamos continuar vendo aglomeração.

Você sabe que essas comunidades todas têm lideranças, de qualquer natureza, religiosa, não importa. Tem que ser com a anuência e o apoio explícito deles”, disse Margareth, que também participa do grupo de especialistas que presta consultoria ao gabinete de crise montado pelo governador Wilson Witzel (PSC), voltado para tomadas de decisão mais urgentes contra a pandemia.

A posição da pesquisadora, uma das pneumologistas mais experientes do país, coincide com a do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM), que causou polêmica há um mês, quando ainda estava no cargo, e defendeu o diálogo com traficantes e milicianos para combater o novo coronavírus.

Uma das maiores preocupações é o aumento do número de casos e de mortes pela covid-19 nas favelas cariocas. Na quinta-feira, o Rio ultrapassou São Paulo pela primeira vez e registrou o maior número de óbitos. Foram 189 mortes, mais do que o dobro do dia anterior, que já havia sido um recorde, com 82 mortes. O aumento acendeu o sinal de alerta, ainda que boa parte do crescimento se deva a uma atualização de óbitos ocorridos em abril, pois o Rio tem cerca de 38% da população de São Paulo.

Para Margareth, a eficácia do “lockdown” depende do engajamento de todos, e o Estado, afirma, às vezes está substituído por “alguns poderes” que não são exatamente legais, em territórios dominados por criminosos, como as favelas. Em sua opinião, a situação requer o envolvimento de todas as lideranças: “Qualquer uma, de quem tenha reconhecimento daquela comunidade como uma voz legítima, em que pese o que faça”.

Para o também médico e presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), Jerson Lima Silva, coordenador do ComCiênciaRJCovid, formado por 18 especialistas, entre eles o economista Arminio Fraga, as associações de moradores devem ser o principal canal de contato do poder público nestas áreas controladas pelo tráfico ou pela milícia. Mas não descarta que, para a eficácia do “lockdown”, se envolva a área de segurança do governo estadual. Professor titular do Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Silva considera que a declaração de Mandetta foi “meio infeliz”, porque numa democracia, argumenta, “não podemos negociar com o crime”.

“Temos que ter outras ferramentas. O governo vai ter que traçar essa estratégia, com a boa propaganda e campanhas de conscientização”, afirma. Para o professor, o “lockdown” no Rio pode ter uma gradação e o alcance da medida eventualmente deve proibir até entregas de produtos em domicílio. “Mas acho que não caberia fazer em todo o Estado”, diz.

Segundo o matemático Tiago Pereira, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (USP), os governos têm adotado medidas “no escuro”, sem conhecer realmente seus impactos, por falta de dados confiáveis da pandemia. “Fechar um bar, por exemplo, ou o comércio. Não se sabe exatamente os impactos para reduzir proliferação. No escuro, fecham tudo”, afirma.

Premiado internacionalmente por estudos de tempos ideais de diagnósticos para erradicação de epidemias, Pereira desenvolve trabalho com pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) com propostas para controle da pandemia.

A ideia é desenvolver modelos capazes de gerar protocolos de isolamento social integrando regiões, já que medidas adotadas em uma cidade influencia outras. “Cada cidade terá sua solução ótima. Não é preciso que todos fiquem em isolamento ao mesmo tempo, e de forma constante”, diz ele, que prevê duração de um ano e meio a dois anos de isolamento social de forma intermitente.

Para Margareth Dalcolmo, a chegada de uma vacina só deve ocorrer, na melhor das hipóteses, neste mesmo prazo, de um ano e meio a dois anos. Mesmo assim, o novo normal pós-pandemia, diz a médica, alterará muito a maneira de se ocupar espaços públicos. Ninguém mais reunirá 20 mil pessoas num mesmo lugar, assim como o transporte aéreo vai mudar bastante, pois é “uma fonte de transmissão absurda”, aponta.

A pneumologista afirma que o “lockdown” já deveria ter sido decretado há três semanas, quando se observou um pequeno relaxamento do isolamento social. O esforço, diz, é prejudicado pelo desserviço do discurso oficial, sobretudo de Jair Bolsonaro, contrário à quarentena. Em sua visão, a condução da crise pelo presidente é “um desastre do ponto de vista social e humanitário”.

Um dos riscos, alerta, é que a segunda onda da pandemia seja pior do que a primeira. “Não temos dúvida de que virá. Só espero que não seja como foi na gripe espanhola, em 1918, quando a maioria das mortes ocorreu seis meses depois”, diz. (Cristian Klein – Valor Econômico. Colaborou Bruno Villas Bôas)

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