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Brasil perde cérebros: Brasileiros buscam inovação no exterior

Publicado em 19 junho 2000

Por Otávio Dias escreve para a "Folha de SP"
Quando o brasileiro Bruno Sobral, 42, terminou seu doutorado em genética na Universidade de Iowa (EUA), há cerca de 15 anos, ele enviou cartas a diversas instituições brasileiras em busca de emprego. Não houve resposta. De laboratórios norte-americanos, surgiram seis propostas. A situação se repetiu quando ele concluiu seu pós-doutorado em evolução molecular no Instituto de Pesquisa Molecular da Califórnia. Apenas a Universidade de Viçosa (MG), onde Sobral graduou-se engenheiro agrônomo, mostrou interesse, mas não havia vaga de professor disponível. Enquanto isso, chegavam convites dos EUA, da Austrália e da Europa. "Passei mais de dez anos tentando voltar ao Brasil", diz Sobral. Ele permaneceu nos EUA, dedicou-se à pesquisa de genética e bioinformatica e assumira1, em julho, a direção de um novo instituto na Universidade de Tecnologia de Virginia, com salário de US$ 200 mil por ano (R$ 362 mil). O centro, que reunião cerca de 120 biólogos, matemáticos e cientistas da área de computação, será' dedicado ao estudo de genomas (coleção de genes de uma espécie), com uma verba publica inicial de US$ 13 milhões (R$ 23,5 milhões) ao ano. "Muitas pessoas gostariam de colocar o Brasil no primeiro plano da pesquisa mundial. Como não conseguem, acabam ficando no exterior", diz o cientista. "É o que se chama nos EUA de "brain drain" (drenagem de cérebros), que beneficia os paises ricos." A jornalista Karin Dauch, 26, foi para Nova York há dois anos para fazer um mestrado em novas mídias na Universidade de Columbia. Ao terminar o curso, recebeu proposta para trabalhar na Razorfish, uma das lideres mundiais na construção de sites de Internet. Ela foi contratada como "information architect" (arquiteta da informação, em tradução livre), uma profissão nova, ainda pouco desenvolvida fora dos EUA. "Meu trabalho é planejar a estrutura de um site de Internet, seu esqueleto. É preciso levar em consideração a hierarquia das informações, a facilidade de navegação e o interesse do usuário", diz. Ela não revela seu salário, mas a remuneração media de um profissional de sua área, com dois anos de experiência, está entre US$ 60 mil e US$ 70 mil por ano (entre R$ 108 mil e R$ 126 mil). "Poderia ganhar o equivalente no Brasil, mas o que estou fazendo é muito inovador", diz. "Meu plano é ficar por aqui mais uns anos, ganhar credibilidade e abrir minha empresa no Brasil." Segundo o físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, 68, o "êxodo de cérebros" ocorre nas mais diversas áreas acadêmicas porque não há verbas publicas ou privadas suficientes para absorver os cientistas. "Formar um doutor custa muito caro. E esse camarada, ás vezes, é perdido porque não temos como recebê-lo de forma adequada no meio acadêmico", afirma o professor emérito da Unicamp. "No Brasil, ninguém na iniciativa privada faz pesquisa seria. As multinacionais não pesquisam por princípio. Seus laboratórios ficam nos paises desenvolvidos e, no resto do mundo, elas são meras montadoras", diz. De acordo com Simão Franco, 60, dono da empresa de recursos humanos de mesmo nome, a tendência é de a mão-de-obra intelectual se tornar cada vez mais movei. Os EUA seriam o principal pólo de atração. "O mundo é cada vez mais movido pelo intelecto, e há uma carência mundial de cérebros", diz. "Os EUA atraem muita gente porque o índice de desemprego lá é o mais baixo desde a Segunda Guerra Mundial e a economia não para de crescer." Mas, para Franco, o problema no Brasil ainda não é alarmante. "O brasileiro resiste a deixar o país, e o Brasil não tem grande numero de profissionais altamente qualificados (mestres ou doutores). Mas isso tende a mudar." O Ministério da C&T não possui dados que quantifiquem a ida de profissionais para o exterior, seja na área acadêmica ou no setor privado. Já institutos de fomento a educação e a pesquisa, como o CNPq e a Fapesp (Fundação de Amparo a Pesquisa de SP), possuem estudos internos sobre brasileiros que não retornam de seus estudos (pagos com verbas publicas) no exterior. Evitam, entretanto, divulgá-los sob o argumento de que são incompletos e parciais. Mas também temem criticas diante da dificuldade de controlar o retorno desses profissionais. "Não tenho números, mas o problema existe e temos diversos programas cujo objetivo é fixar jovens cientistas no Brasil", diz o professor José Fernando Perez, diretor científico da Fapesp. Agostinho Rosa, que intermedeia a ida de especialistas em informática para trabalhar no exterior, espera um acréscimo de 50% em suas atividades este ano. "Em 99, mandei 200 profissionais de informática para outros paises, principalmente EUA, Austrália e Holanda. Este ano, chegarei a 300", diz. "Existia um movimento nesse sentido, mas agora há uma explosão tão grande da Internet no Brasil que, para as empresas, mesmo as norte-americanas, os profissionais brasileiros são mais úteis no Brasil", diz Ricardo Anderaos, sócio da Embrion, gestora de investimentos em alta tecnologia. Os EUA, no entanto, continuam a ser um ima para jovens interessados em aproveitar as oportunidades da "nova economia". E o caso de Fernanda Viegas, 28, que concluiu seu mestrado no Lab. de Mídia do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), esta1 trabalhando em SP por alguns meses, mas retornará aos EUA em setembro. "Quero pesquisar na área de informática, mas associada ao setor industrial, desenvolver novas interfaces", afirma. "Não há laboratórios de ponta nessa área no Brasil. Para mim, o negocio está nos EUA."