Notícia

Boqnews

Brasil, País do Futuro

Publicado em 04 abril 2012

Por Vinícius Mauricio


O corte orçamentário para o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) revoltou o setor científico brasileiro, este mês. Isto porque o Governo anunciou o corte de um terço dos investimentos feitos em 2011 para 2012, o que equivale a cerca de R$ 2,6 bilhões a menos (ou 23% do orçamento de 2011) – a proposta inicial era o Governo destinar R$ 6,7 bilhões ao setor no ano. O problema é que a queda não é inédita, vem ocorrendo desde o final do mandato de Lula, e o País que promete ser do futuro há 70 anos, só deve cumpri-lo daqui muito tempo ainda.

A dívida é velha

Após a 2ª Guerra Mundial (1939-1945), o Brasil se autointitulou País do Futuro, ou ganhou o nome, como queiram, pois pegou um gancho com a “vitória” da Guerra e o sucesso nas Artes (com Carmen Miranda encantando os Estados Unidos). Com isto, prometeu, com o mundo de testemunha, grandes investimentos no setor econômico e científico, em curto prazo.

Porém, o processo de futurização do País parece ainda estar engatinhando, pior que isto, quando o Brasil parecia querer andar como gente grande, caiu, com os cortes para a Ciência. Em reportagem do Estado de São Paulo, caderno Link no dia 2 de abril, o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis traduz bem as expectativa dos pais desta criança tardia: “Ninguém associa Ciência com soberania nacional”. Fator imprescindível para o Brasil contestar de fato aquele título ocioso.

Nicolelis tem razão. Os grandes países, como os Estados Unidos, os Estados europeus e até a irmã China (o país asiático anunciou o aumento de 12,4% no orçamento para Ciência e Tecnologia, chegando a soma de US$ 36 bilhões) só são grandes por saberem a importância que há investir em Ciência. E não é com corte no orçamento para o setor, justificado pela crise financeira internacional, que o Brasil deve estar entre os grandes.

Na realidade, a baixa nos investimentos à Ciência contrasta com a ideia de expansão sugerida pelo próprio Governo para a infraestrutura do ensino público universitário e o crescimento da Ciência brasileira no exterior. Além disto, a Educação e a Ciência ainda lutam por uma participação maior nos lucros dos royalites do pré-Sal.

Em defesa de verbas para o MCTI, que as repassa para pesquisa, desenvolvimento de novas tecnologias, produção de conhecimento e em inovação, a esfera científica e até o setor industrial se posicionaram. No que eles chamaram de medida que terá “consequências dramáticas para o desenvolvimento do Brasil caso não seja revertida”, a Carta expos que, em 2010, o investimento em pesquisa e desenvolvido representou apenas 1,20% do Produto Interno Bruto-PIB (soma de toda a riqueza produzida pelo País no ano), sendo 0,63% desse montante vindo do setor público.

Quem deve sofrer os impactos negativos desta decisão são as pesquisas feitas, principalmente, no Centro-Oeste, Nordeste e Norte, onde ainda há poucas fundações de amparo à pesquisa, as chamadas FAPs. Também as FAPs dessas regiões ainda são jovens e não retêm tantas verbas e investimentos como a Fapesp, de São Paulo, por exemplo.

E, se não há investimento para pesquisa, há sobras de pesquisadores (doutores, ainda mais os recém-formados, que ainda não foram absorvidos pelo mercado científico). Consequentemente, diminui a produção de conhecimento, o desenvolvimento do País e baixa a guarda brasileira perante o suporte científico ofertado pelos outros países. Bom resaltar que o Brasil também freia a vinda de pesquisadores de fora, conscientes da falta de investimentos. Um problema grave.

Isto significa que, em caso extremo de cortes de orçamento, as universidades públicas podem regredir ao patamar da maior parte das universidades particulares: apenas fornecedoras de diplomas. Vale lembrar que o País assumiu um compromisso com outros países no “Ciência sem fronteiras”, de cooperação mútua e formação de pesquisadores, e, na falta de dinheiro para colocar no acordo, pode sair feio para o Brasil. (Haveria um fundo de investimentos para o Programa?)

A sociedade civil parece não ter parte nisto, mas tem força fundamental neste processo de reversão no corte de verbas. Não é suficiente que cientistas e pesquisadores saiam em defesa de nossa Ciência, é necessário que todos os brasileiros se movimentem, seja nas redes sociais e em discussões nas universidades e na comunidade. No site da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), há uma petição pública pelo direito de uma destinação dos recursos do royalites do pré-Sal para a Educação e a Ciência. Quem sabe assim, um dia, o Brasil seja realmente o País do Futuro.