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Brasil, país campeão do agronegócio café

Publicado em 06 novembro 2012

Por Flávia Bessa

A produção de café no Brasil é responsável por cerca de um terço da produção mundial de café, o que faz o País ser de longe o maior produtor – posição mantida há 150 anos. Além disso, é também o campeão mundial na exportação do produto e ocupa a segunda posição entre os países consumidores da bebida, devendo chegar à primeira colocação nos próximos anos, superando a marca dos EUA. Segundo a Associação Brasileira da Indústria do Café – ABIC, o consumo per capita em 2001 era de 4,9 kg/habitante; em 2012, saltou para de 6,4 kg/habitante. Isso representa um consumo de quase 20 milhões de sacas, bem próximo dos EUA, que é de pouco mais de 22 milhões de sacas. O aumento do consumo interno da bebida é atribuído à melhoria na qualidade do café destinado ao mercado nacional, bem como ao aumento do poder aquisitivo da população.

Essa sucessão de vitórias é resultado da ação de um time coordenado, formado por quase 300 mil propriedades de café – segundo último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – em sintonia com centenas de pesquisadores, técnicos e extensionistas, todos espalhados pelas principais regiões produtoras brasileiras: Minas Gerais, São Paulo, Bahia, Paraná, Espírito Santo e Rondônia. Os esforços dessa equipe campeã foram congregados e otimizados com a criação, há 15 anos, do Consórcio Pesquisa Café, cujo programa de pesquisa é coordenado pela Embrapa Café – Unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – Mapa.

Inovação é o lema – Maior arranjo de instituições de ensino, pesquisa e extensão rural já realizado para fomentar a pesquisa cafeeira no Brasil, o Consórcio Pesquisa Café reúne hoje 50 instituições. O modelo de gestão incentiva a interação entre as instituições e a união de recursos humanos, físicos, financeiros e materiais para elaboração de projetos inovadores. Nesses últimos 15 anos de pesquisa, cerca de mil projetos permitiram a geração de diferentes conhecimentos básicos, produtos, processos e tecnologias amplamente utilizados pelos cafeicultores. Essa expertise dobrou a produção de café no País sem que fosse necessário nenhum aumento da área cultivada.

As tecnologias geradas estão relacionadas às áreas de melhoramento de plantas e biotecnologia para a obtenção de cultivares adaptadas às diferentes condições edafoclimáticas do País, técnicas de plantio, condução da lavoura, nutrição mineral de plantas, fitossanidade, irrigação, adubação orgânica, manejo de plantas invasoras, colheita, pós-colheita, manejo sustentável; entre outras. “As tecnologias desenvolvidas por esse time campeão chamado Consórcio Pesquisa Café visam à sustentabilidade social, econômica e ambiental da produção cafeeira no Brasil”, diz o gerente geral da Embrapa Café, Gabriel Bartholo.

Novas cultivares – As pesquisas de melhoramento genético propiciaram o desenvolvimento de 36 cultivares, de arábica e conilon, resistentes às principais pragas e doenças do cafeeiro e com alta produtividade, melhorando qualidade dos frutos e incrementando significativamente a produção. No Instituto Agronômico – IAC, foram geradas sete cultivares; na Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais – Epamig em parceria com a Universidade Federal de Viçosa – UFV, oito; no Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural – Incaper, 3; no Instituto Agronômico do Paraná – Iapar, 13, na Embrapa Café e no Procafé , 4 cultivares; Na Embrapa Rondônia, 1 cultivar. Todas essas instituições são participantes do Consórcio. Mais informações aqui.

Sequenciamento do genoma café – Trabalho de pesquisa realizado pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e ainda por outras instituições consorciadas e pela Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo – Fapesp que resultou na construção de um banco de dados com mais de 200 mil sequências de DNA. Isso permitiu a identificação de mais de 30 mil genes, responsáveis pelos diversos mecanismos fisiológicos de crescimento e desenvolvimento do cafeeiro. Atualmente várias ações de pesquisa estão em andamento para identificar as funções de cada um desses genes de forma que eles possam ser utilizados para aumentar a produtividade e o valor econômico da cultura do café, e mesmo serem utilizados em outras culturas. O conhecimento e utilização do código genético torna possível o desenvolvimento de cultivares mais produtivas e com melhor bebida, tolerantes a variações climáticas (como seca e geada) e resistentes ao ataque de pragas e doenças, com reflexos diretos no aumento da produtividade, na redução do custo de produção e na proteção ambiental. Além disso, os dados gerados pela pesquisa aceleram a obtenção de cultivares de melhor qualidade, aroma, sabor e propriedades nutracêuticas do grão, agregando qualidade ao produto e mais satisfação e saúde para o consumidor.

Uma das tecnologias decorrentes do genoma café são os sistemas para expressão dirigida de genes em raízes e em tecidos foliares. São dois promotores obtidos de plantas de café que permitem direcionar e controlar a expressão de genes a eles associados: o Promotor CaIsoR, que atua nas folhas, e o Promotor Caperox, que age nas raízes em resposta a um estímulo externo, oferecendo total controle do tipo de OGM (Organismo Geneticamente Modificado) produzido. Esse trabalho foi desenvolvido em parceria com o Instituto Agronômico de Campinas – IAC, participante do Consórcio, e com a Universidade Estadual Paulista – UNESP. Para mais informações, veja links sobre expressão em raízes e em tecidos foliares. Outra é a pesquisa realizada pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), instituições participantes do Consórcio, que identificou um gene do café arábica que quando transferido para outra planta – Arabidopsis thaliana – tornou esta altamente tolerante à seca. O gene agora está sendo testado em outras plantas de interesse agronômico, como soja, milho, trigo, cana de açúcar, arroz e algodão. Mais informações em matéria sobre o tema.

Biofábricas – Técnica que multiplica in vitro, a partir de tecido da folha, plantas de café arábica de características favoráveis, como resistência ao bicho mineiro e à ferrugem, boa qualidade de bebida e alta produtividade. Essa técnica permite a multiplicação de plantas híbridas com produtividade elevada e a redução de 30 para 10 anos do tempo de desenvolvimento de novas cultivares. A técnica, também é conhecida por clonagem, foi desenvolvida pela Embrapa Café em parceria com a Fundação Procafé, ambas consorciadas. A produção rápida e em larga escala de mudas clonadas de alto valor agregado confere mais competitividade para o café brasileiro no mercado nacional e internacional. O projeto inclui avaliação da viabilidade econômica da tecnologia, medindo os custos de produção industrial em todo o processo de produção. Veja mais informações aqui.

Estresse hídrico – Como um dos usos da irrigação em café surgiu a tecnologia de estresse hídrico, que submete as plantas a uma suspensão da irrigação por um período de 72 dias visando à uniformização de florescimento e maturação, o que afeta diretamente a qualidade do fruto. A tecnologia da Embrapa Cerrados desenvolvida com recursos do Consórcio foi validada não só em experimentos como também em fazendas produtivas de várias regiões brasileiras. A prática do estresse hídrico não custa nada mais ao produtor e ainda traz redução dos custos de água e energia, em média de 33%, economia no processo de colheita, inclusive com mão de obra, e uma visão sustentável do agronegócio tanto do ponto de vista ambiental como da competitividade. É um processo tecnológico que também permite a obtenção de 85% ou mais de frutos cerejas no momento da colheita, maximizando a produção de cafés especiais. Além disso, garante redução de 20% para 10% de grãos mal formados e de 40% na operação de máquinas. Assista programa Dia de Campo na TV sobre o tema.

Sistema de Limpeza de Águas Residuárias (SLAR) – No manejo de pós colheita, o SLAR – desenvolvido por meio da parceria entre Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) e Embrapa Café, no âmbito do Consórcio – remove os resíduos sólidos na água proveniente do processamento de frutos. Esse sistema é constituído por caixas de decantação interligadas e peneiras estáticas. Após a remoção dos resíduos sólidos, a água é novamente conduzida para a caixa de abastecimento para reutilização no processamento ou direcionada à fertirrigação da cultura. Os resíduos sólidos retirados poderão ser utilizados na produção de adubos orgânicos. Entre as vantagens do sistema estão a economia de 90% do consumo de água; o baixo custo para instalação e manutenção, viabilizando a adoção por pequenos produtores, e a preservação do meio ambiente. Saiba mais aqui.

Geotecnologias – Entre elas o sensoriamento remoto e os sistemas de informação geográfica, entre outros, usadas em apoio à produção ou à qualidade do café para auxiliar na caracterização ambiental dos agroecossistemas cafeeiros e fornecer uma base eficiente para a análise integrada das informações e o entendimento das relações entre os sistemas de produção e o ambiente, incluindo simulação de prognósticos. Pela análise espacial é possível delimitar territórios e identificar, por exemplo, os fatores que influenciam a qualidade dos cafés produzidos nessas regiões, informação imprescindível para a obtenção de Indicações Geográficas – IGs. Saiba mais sobre as IGs em matéria que abordou conquisata de selo. As geotecnologias, estudadas pela Epamig e Embrapa Café no âmbito do Consórcio, subsidiam o planejamento da atividade tendo em vista a competitividade e a sustentabilidade da produção.
Poda do Conilon – A poda programada do café Conilon – tecnologia desenvolvida pelo Incaper, instituição consorciada – além de favorecer a longevidade do cafezal, aumenta a produtividade. A tecnologia é adotada pela maioria dos produtores do Espírito Santo e chegou mais recentemente em Rondônia e Minas Gerais. A poda consiste na eliminação das hastes verticais e dos ramos horizontais improdutivos, para que no lugar deles nasçam outros mais vigorosos. Nesse processo, os ramos estiolados e o excesso de brotações também são eliminados. Entre os benefícios da tecnologia estão a redução média de 32% de mão-de-obra; facilidade de entendimento e execução; padronização do manejo da poda; maior facilidade para realização da desbrota e dos tratos culturais; maior uniformidade das floradas e da maturação dos frutos; melhoria no manejo de pragas e doenças; aumento superior a 20% na produtividade média da lavoura; maior estabilidade de produção por ciclo e melhor qualidade final do produto. Leia publicação e assista programa de rádio do Prosa Rural sobre a poda do conilon.

Tecnologias pós-colheita – Há disponível para o mercado tecnologias para preparo, secagem e armazenamento de grãos, desenvolvidas com a liderança da Universidade Federal de Viçosa – UFV, participante do Consórcio. São alternativas tecnológicas especialmente desenvolvidas para a agricultura familiar para oferecer, a custos compatíveis, uma infraestrutura mínima para que, independentemente das condições climáticas, o cafeicultor possa produzir café de qualidade superior, com economia de tempo, redução de custos e mão de obra empregada e maior rendimento operacional. É composta por um terreiro-secador híbrido, abanadora, silo secador e lavador portátil. Programa Dia de Campo na TV da Embrapa abordou a tecnologia em outubro deste ano.
Alerta Geada – O Iapar, instituição do Consórcio, disponibilizou o Alerta Geada, sistema de proteção das lavouras novas de café, de 6 meses a 2 anos, do Paraná que traz benefícios aos cafeicultores desde 1995. Quando há previsão de geada um alerta é disparado para os produtores cadastrados no projeto e também na mídia. Com a previsão da geada os produtores são orientados a fazer o chamado “enterrio” das plantas, que devem ficar cobertas por, no máximo, 20 dias, protegidas contra as geadas de moderadas a fortes. O Alerta Geada também dispara o aviso no começo de todo inverno com o primeiro resfriamento, para outra técnica, a “chegada de terra”, que consiste em amontoar a terra na base das plantas para protegê-las do frio. Cerca de R$ 21 milhões em prejuízos aos produtores de café no Paraná foram evitados com o Alerta Geada.

Café adensado – Outra grande contribuição do Iapar para a cafeicultura foi o desenvolvimento do modelo adensado, proposta tecnológica que possibilitou ao Paraná retomar sua produção, aniquilada na grande geada de 1975. O adensamento de plantio já é utilizado em 70% da área de café no Paraná. A proposta é o cultivo de pequenas lavouras (a maioria dos cafeicultores paranaenses é de produtores familiares) e consiste em reduzir o espaçamento entre as ruas (de 4 m para até 1,5 m) e entre as plantas (de 1,5 m para até 0,5 m). Veja mais informações nesta publicação.

Mesmo com essas e muitas outras tecnologias disponíveis, a importância do agronegócio café para o Brasil implica permanente pesquisa, desenvolvimento e inovação científica e tecnológica. O trabalho do Consórcio Pesquisa Café mostra-se imprescindível para manter as diretrizes da pesquisa cafeeira no País e para a integração de diversos atores na busca constante pelo melhoramento da qualidade e da sustentabilidade e competitividade do café brasileiro no mercado nacional e internacional. Em outras palavras, manter o Brasil campeão da cafeicultura: maior produtor, maior exportador e, em breve, maior consumidor de café do mundo. A torcida brasileira, protagonista desse campeonato, agradece.

Saiba mais – O Consórcio Pesquisa Café foi criado por iniciativa de dez instituições ligadas à pesquisa e ao café: Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola – EBDA, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais – Epamig, Instituto Agronômico – IAC, Instituto Agronômico do Paraná – Iapar, Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural – Incaper, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – Mapa, Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro – Pesagro-Rio, Universidade Federal de Lavras – Ufla e Universidade Federal de Viçosa – UFV.
As pesquisas realizadas contam com o apoio e o financiamento do Fundo de Defesa da Economia Cafeeira – Funcafé, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – Mapa.

Gerência de Transferência de Tecnologia da Embrapa Café
Texto: Flávia Bessa – MTb 4469/DF
Fone: (61) 3448-1927
Site: www.embrapa.br/cafe
www.consorciopesquisacafe.com.br