Notícia

Jornal da Tarde

Brasil, o líder sem crédito do Genoma

Publicado em 03 junho 2001

O Programa Genoma Fapesp que, entre outros projetos, incluiu o seqüenciamento de fragmentos de genes extraídos de células tumorais no Genoma Humano do Câncer, iniciado em março de 1999, colocou o Brasil no cenário internacional da ciência genômica. Mas o País não recebeu os devidos créditos, o que reacendeu a polêmica sobre o tratamento reservado pelo Primeiro Mundo aos países em desenvolvimento. Ás 700 mil seqüência depositadas no GenBank (o maior banco público do mundo de informações genéticas), que foram usadas pelos dois consórcios mundiais, não foram citadas quando do anúncio do seqüenciamento completo do genoma humano. "O Brasil participou ativa-mente do Seqüenciamento dos genes expressos. Este trabalho é de grande importância na interpretação do genoma. O que nos desagradou foi que essa contribuição não foi reconhecida", lamenta o geeticista inglês Andrew Simpson, radicado no Brasil há dez anos, coordenador do Projeto Genoma Nacional, do Ministério da Ciência e Tecnologia, e pesquisador do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer. Na semana passada - vale lembrar -, Simpson tomou posse como membro estrangeiro da Academia Brasileira de Ciências. O Projeto de Seqüenciamento do Genoma da Xylella fastidiosa, pioneiro no mundo, rendeulhe a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico, concedida pela Presidência da República em julho do ano passado. Para alguns pesquisadores, o que esteve em jogo sobre o deciframento do código genético foi o interesse comercial. "Nesse episódio, prevaleceu o interesse comercial sobre a informação obtida com o genoma. Aliás, ela será protegida como qualquer outro tipo de iniciativa comercial, e não como uma visão científica que está gerando informação em benefício de todos", acredita o biólogo Marcelo Briones. É o caso, por exemplo, do desenvolvimento de biochips para diagnósticos genéticos. O biólogo cita como um evento ainda mais sério a não-inclusão do programa brasileiro no número especial da revista americana Science. "Eles fizeram um mapa em que absolutamente nos ignoraram. O curioso é que os únicos países que aparecem como centros genômicos são os países que têm bomba atômica", aponta Briones. O exemplo da China é o mais gritante, segundo o biólogo. As atividades na área da genômica chinesa limitam-se, hoje, a um pequeno centro, com um projeto do genoma do arroz. Sem ainda publicação dos resultados nas revistas especializadas do mundo. Mas, para o físico José Fernando Perez, diretor científico da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa no Esta" do de São Paulo, o episódio não coloca em duvida o reconhecimento internacional da qualidade do trabalho desenvolvido no País. "Teria sido justo e correto dar crédito ao nosso trabalho. Nisso tudo teve muita vaidade, mas não devemos ficar numa atitude lamentativa. Não somos pobres. Somos liderança em genômica", afirma Perez. Ele também acredita que o episódio não demonstra desdém à ciência brasileira. "Quando se tem oportunidade de estar nos EUA, antes mesmo de publicar e submeter um trabalho à publicação das revistas internacionais, o pesquisador pode participar de conferências e ser convidado a dar palestras. O resultado da pesquisa pode ser conhecido antes mesmo da publicação, e isso aumenta naturalmente a exposição". Na sua opinião, a ciência brasileira deve perder o complexo de inferioridade. Os dados mostram que ela cresceu na última década de 0 4 % para 1,3 "o da produção científica mundial. A porcentagem é a tradução do número de artigos e de citações de cientistas de um determinado país. "Crescemos três vezes mais do que a média internacional dentro de te do o universo de publicações. O pirâmetro que mede isso é o número de citações por trabalho, e o número de citações médio por trabalho brasileiro está na média internacional", explica Perez. Segundo esse levantamento, portanto, o Brasil está na mesma média internacional de outros países, como EUA, Inglaterra, França, Alemanha e Japão. Pesquisa e que pode ser um dos instrumentos de defesa da sociedade. O projeto Genoma ajudou a criar essa consciência". O reflexo dessa mudança de parâmetro, aponta Perez, está na série de visitas de delegações estrangeiras (França, Inglaterra e Alemanha), gessadas em estabelecer os de cooperação com a ação. "Essas potências do vindo ao Brasil propor colaboração na área de biotecnologia - por exemplo, com o genoma de plantas". A Fapesp foi convidada também a participar, ao lado dos grandes consórcios, do seqüenciamento dos genes do Anapholes yambié, que é o vetor da malária. "Fomos convidados paia esse clube fechadissimo. Nossa participação ainda não está muito bem-definida, porque o nosso vetor é o Anapholes daringi. Mas nosso prestígio e conhecimento estão, portanto, acima de qualquer dúvida", diz Perez. pesp. Instituto Ludwig e CNPq, com apoio da revista britânica Sature, "mostrou o reconhecimento de que somos um pólo e desenvolvemos competência nessa área estratégica". Esse reconhecimento, segundo Perez, tem sido impulsionado pelos dez Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) existentes hoje no Estado, voltados para estudos multidisciplinares. E de transferência de resultados para os setores publico privado. "É um novo paradigma que está sendo apresentado, que inclui desde um estudo de toxinas para a confecção de fármacos até pesquisas sobre proteínas". Os centros estão interligados e trocam informações por uma rede virtual. Envolvem diferentes áreas do conhecimento, como ciências sociais, engenharia, ciências exatas, biológicas e médicas. Os grupos discutirão temas como a evolução das metrópoles, biológica, genoma, cana Câncer, sono, comunicações óticas e laser. A TENTATIVA DE EXPLICAR O MUNDO Esta é a definição de inicia para o biólogo Marcelo Briones: a única razão para se dedicar a ela é a curiosidade sobre a natureza "A ciência estagnará se for colocada a serviço de objetivos práticos". O biólogo Marcelo Briones recorre a esta previsão do físico alemão Albert Einstein (1879-1955) para defender a idéia de que "a única razão para as pessoas fazerem ciência é desenvolver algum tipo de curiosidade sobre a natureza". "Ciência será sempre aquilo que ela é: a tentativa de explicar o mundo tal como o conhecemos, tanto o mundo físico, quanto o químico ou o biológico", diz Briones, que coordena o Genoma do Câncer na Universidade Federal de São Paulo, e desenvolveu uma pesquisa sobre os ancestrais genéticos do Trypanosoma cruzi, protozoário causador da doença de Chagas. (Na pesquisa, após seqüenciar genes de tripanossomas, o biólogo descreve o ancestral comum das duas espécies de T. Cruzi existentes hoje em território brasileiro. O que está acontecendo, na opinião de Briones, é a tentativa de vincular ciência com a aplicação prática, para atrair as pessoas para o campo científico baseando-se nessa premissa. "Isso é um erro muito grande. A ciência não é uma ferramenta. Ela é um fim em si mesma". Para o biólogo, a ciência é uma atividade humana como a arte. "Para que serve uma pintura? Ela não tem um objetivo prático. O artista, quando cria uma pintura, deve estar pensando em revelar alguma expressão da atividade humana", explica. Segundo Briones, ciência não é tecnologia. Tecnologia é a aplicação prática do conhecimento científico. Mas o objetivo da ciência não é prático, uma necessidade do cérebro humano de conhecer o mundo à sua volta. A finalidade da ciência e gerar a informação; a da tecnologia, por sua vez, é gerar produtos, explica Briones. Incompatíveis, portanto, as finalidades o tecnólogo se fecha sobre uma idéia para produzir qualquer espécie de coisas, mas o cientista tem pela frente uma avenida aberta. "A natureza do trabalho científico trabalho científico é aberta. Ele imagina chegar a um determinado ponto, mas no meio do caminho descobre uma coisa que o leva para um outro lugar. Quando se está no trabalho tecnológico, não se pode esperar inovação no conceito de visão de um problema, que pode advir somente de pessoas com liberdade de pensamento", diz Briones. Nesta perspectiva, a ciência é unia expressão da curiosidade humana de entender o universo das formas vivas dos diversos mundos, como a arte. Ao se perder essa perspectiva , corrompe-se a motivação do fazer ciência. "O genoma e importante cientificamente ao propor novas hipóteses. Mas quando a única justificativa é a procura por drogas e diagnósticos genéricos, temos aí a perda do sentido de fazer ciência". O genoma trouxe consigo uma nova onda de exploração mercantilista, uma séria inversão de valores, aleita o biólogo. "A motivação de um trabalho científico deve surgir da curiosidade de um pesquisador. Quando a motivação de um trabalho científico surge de uma necessidade econômica, a ciência está corrompida', afirma Briones. Se refletirmos que a nossa espécie é a única, possivelmente, que concebe pensamento sistemático - propõe Briones -, entenderemos que somos a única possibilidade que a natureza tem de conhecer a si mesma. "Como diz o mitólogo Joseph Campbell: "Somos os olhos e os ouvidos da Terra"'. Segundo Perez, o programa genômico brasileiro surpreendeu muita gente no próprio País, especialmente aquelas pessoas que não tinham consciência da qualidade "de nossa ciência". "A baixa auto-estima que temos de maneira em geral do Brasil afetava também a percepção da qualidade da produção científica nacional. A nossa ousadia foi acreditar que podemos fazer essas coisas mais ambiciosas. Agora, temos um sistema que nos permite desenvolver ciência", afirma ele. O físico acredita que o Programa Genoma mudou a forma como a população brasileira encara a ciência, e particularmente a grande imprensa. "O poder público também mudou seu olhar ao percebei" que a ciência é um sistema do pesquisa.