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FAPESP Na Mídia

Brasil - o desafio da inovação

Publicado em 01 janeiro 2000

O Brasil completa em abril próximo cinco séculos, durante os quais autodefiniu-se quase diariamente como o País do futuro. Na fronteira de uma nova era quanto desta frase-consolação poderá se tornar realidade? No viés que interessa à indústria, é preciso conhecer o esforço que o País faz para gerar conhecimento e tecnologia inovadora. A produção científica brasileira, segundo levantamentos recentes, está reagindo bem aos estímulos recebidos do governo. Os dados da FAPESP - Fundo de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo mostram que em 98 o País contribuiu com 1,07% da produção científica mundial indexada pelo ISI. Em meados dos anos 70 esta produção ficava ao redor de 0,3%. O crescimento da produção científica brasileira tem sido superior ao crescimento do nosso PIB. O interesse das empresas pela pesquisa de desenvolvimento, contudo, tem ficado aquém deste esforço. A opção das empresas brasileiras tem sido a de comprar ou licenciar tecnologias prontas, uma estratégia incompatível com os sonhos de liderança, em qualquer mercado. O descompasso está revelado no baixíssimo número de patentes concedidas ao Brasil nos Estados Unidos - 0,055% do total de patentes concedidas. A conclusão é imediata. A geração de tecnologia é insatisfatória e ameaça a competitividade da indústria brasileira. A hesitação da indústria diante desta questão é traduzida por outros números. No Brasil, menos de 30% da investigação tecnológica é realizada pelas empresas, 70% é feita pelo governo. Esta é uma das piores distribuições mundiais. Em países desenvolvidos as empresas assumem 75% da investigação tecnológica. Como conseqüência, depositamos apenas 70 patentes por ano, enquanto uma empresa como a IBM deposita cerca de 1.000 patentes anualmente. Falta também "administrar" melhor a produção científica. É muito possível até que uma parte deste esforço esteja sendo desperdiçada. W.W. Gibbs, em seu livro "The lost science in the third world" estima que 70% dos artigos científicos produzidos no Brasil estejam "enterrados" em anais e publicações não-indexadas em base eletrônica de dados. Estão fora das redes e da Internet. Perdidos para as comunidades científica e empresarial. Existe contudo uma mudança estrutural em andamento e ela pode estimular as empresas a investir na inovação. No Brasil e em toda a América Latina, a lógica da horizontalização dos negócios, que interessava aos grandes grupos empresariais antes da abertura dos mercados e do controle da inflação, está mudando por força da concorrência global. Era uma estratégia essencialmente comercial, alheia à necessidade de gerar tecnologia. Os grandes grupos empresarias que existem estão se redimensionando. O número de grupos está caindo e sua diversificação está diminuindo. Agora eles estão procurando concentrar-se em nichos de mercado onde são mais fortes e competentes. Focadas no seu "core competence", as empresas darão mais atenção ao desenvolvimento de novas tecnologias. Será essencial para manter a competitividade que ganharam pela concentração de seus negócios. A redução de tamanho será uma vantagem e não um contratempo - afinal, nos países desenvolvidos são as pequenas e médias empresas que respondem pela maioria das inovações.