Notícia

Extra (Rio de Janeiro, RJ)

Brasil no topo da ciência

Publicado em 12 julho 2000

Por VANICE CIOCCARI
Brasil entrou oficialmente ontem para a elite mundial que domina a tecnologia para decifrar o DNA O seqüenciamento do genoma da bactéria Xylella fastidiosa, importante praga agrícola, mereceu esta semana a capa da revista britânica "Nature", uma das bíblias da ciência mundial. Ao mesmo tempo, o consórcio público paulista que seqüenciou o DNA da Xylella anuncia novas etapas de projetos para decifrar o código genético de micróbios nocivos e do câncer humano. Nos 130 anos da "Nature", essa foi a primeira vez que uma pesquisa produzida no Brasil é o assunto de capa. A conclusão do seqüenciamento genético da X. fastidiosa foi anunciada no país em fevereiro, mas a publicação na "Nature" é a apresentação oficial à comunidade científica internacional. A bactéria causa uma doença que afeta os laranjais, causando prejuízos de US$ 100 milhões por ano ao país. Os projetos exclusivamente, brasileiros de genoma são patrocinados pela Fundação A" Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp). O coordenador do projeto genoma da Xylella e também do projeto Genoma Humano do Câncer, Andrew Simpson, disse que a publicação é o reconhecimento ao trabalho realizado no país. - Mas nosso empenho não acaba aqui. O resultado mostra, que podemos traçar objetivos mais ambiciosos e é o que já estamos fazendo - afirmou Simpson ontem na 52ª Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Concluído o seqüenciamento, a pesquisa á Xylella entrou numa segunda fase: a identificação das funções de cada gene. O programa previa inicialmente outros três projetos além da Xylella: câncer, cana-de-açúcar, Xanthomonas (bactéria que atinge plantações de cítricos). Mas em agosto inicia mais um: o seqüenciamento da bactéria Clavibacter, que causa o raquitismo na cana-de-açúcar e devasta as plantações. RIO VAI DECIFRAR GENOMA A Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia do Rio planeja anunciar oficialmente no mês que vem a formação de uma rede de pesquisa para mapeamento do genoma da bactéria Glucanoacetobacter diazotrophicus, que serve como um adubo natural para a cana-de-açúcar. A Embrapa, a Universidade Estadual do Norte Fluminense e pesquisadores de São Paulo vão participar do projeto, que será coordenado pela UFRJ. - O Rio ficou um pouco pra trás nessa história - disse o secretário de Ciência e Tecnologia Wanderley de Souza, referindo-se às pesquisas de genoma. Duas máquinas de seqüenciamento foram compradas para o projeto. O custo do projeto foi estimado em R$ 8 milhões, menos de um terço do que foi gasto no seqüenciamento da Xylella. - As máquinas estão mais baratas e vamos errar menos graças à experiência de São Paulo - disse Wanderley. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio deverá arcar com metade dos custos. O restante depende de negociações com o Governo Federal e o de São Paulo. CONHEÇA O PROCESSO O homem do genoma no Brasil chama-se Andrew Simpson. É inglês, mas vive há dez anos no país. O biólogo coordena o projeto patrocinado pelo Instituto Ludwig, da Suíça, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Aqui, ele explica como é o processo brasileiro que decifra genes e está chamando a atenção do mundo inteiro. 1 - Uma bióloga do Hospital do Câncer, em São Paulo, que é ligado ao Projeto Genoma Humano do Câncer, prepara em um tubo de ensaio células de tecido humano para realizar a separação do DNA 2 - Em seguida, ela põe as células em pequenas cápsulas para seqüenciar o seu DNA 3 - As cápsulas fechadas são colocadas numa centrífuga que irá fracionar os genes das células 4 - Fracionado, os genes vão para uma placa que é colocada num equipamento que faz o seqüenciamento do DNA 5 - A imagem do DNA seqüenciado vai direto para a tela do computador. Na mão da bióloga, as pequenas cápsulas com as células de tecido