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Gazeta Mercantil

Brasil já sabe como fazer componentes para satélites

Publicado em 08 agosto 2005

O Brasil está perto de dominar o ciclo completo de fabricação de dois componentes considerados estratégicos para o desenvolvimento de satélites artificiais. A primeira fase de validação de um propulsor para satélites e de um catalisador, material responsável pela decomposição do combustível, foi concluída com sucesso no primeiro semestre deste ano, por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da empresa Fibraforte Engenharia, de São José dos Campos (SP).

A meta dos pesquisadores é fazer com que o propulsor e o catalisador sejam qualificados para equipar a Plataforma Multimissão (PMM), uma estrutura comum que poderá ser utilizada por vários satélites do programa espacial brasileiro. Segundo o gerente da PMM no Inpe, engenheiro Mário Marcos Quintino, a previsão é a plataforma estar pronta em 2007.

O primeiro satélite projetado para voar na PMM será um modelo de sensoriamento remoto, batizado de SSR-1, com lançamento programado para algo entre o final de 2008 e início de 2009. O primeiro modelo da PMM terá um custo de US$ 25 milhões.

Brasil já sabe como fazer...
País está perto de dominar o ciclo completo de fabricação de componentes-chave. A plataforma está sendo construída por um consórcio de empresas, do qual fazem parte, além da Fibraforte, a Mectron Engenharia (suprimento de energia e comunicações de serviço), a Cenic (estrutura) e a Atech (gerenciamento).

Os primeiros satélites construídos no Brasil, o SCD-1 e SCD-2, de coleta de dados, não possuíam propulsores, equipamento responsável pelo posicionamento e as correções de órbita do satélite no espaço. "Os SCDs eram estabilizados por rotação, usando o campo magnético da Terra", explicou Quintino. Nos dois satélites do programa CBERS, feitos em parceria com a China, os propulsores e os catalisadores foram fornecidos pelos chineses.

Os satélites de observação da Terra possuem entre 12 e 24 propulsores. A plataforma multimissão terá seis propulsores. Os dois novos satélites da série CBERS, que já começaram a ser desenvolvidos, também serão equipados com propulsores e catalisadores chineses, apesar da reivindicação dos pesquisadores brasileiros para que os componentes nacionais fossem adotados. "Houve um esforço do Inpe para incluirmos o propulsor e o catalisador nacional no CBERS 3 e 4, mas os chineses resistiram à idéia", disse o gerente do projeto na Fibraforte, Humberto Pontes Cardoso. O desenvolvimento do propulsor contou com financiamento do Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (Pipe) da Fapesp.

A Fibraforte construiu quatro protótipos dos propulsores, com potência de 5 newtons (N) de empuxo cada um, mas o projeto prevê a fabricação de mais seis, com recursos totais de R$ 400 mil. Segundo Cardoso, a previsão é de que em julho do próximo ano seja feita a integração do modelo de qualificação do sistema na plataforma e, a partir daí, seja iniciada a fabricação dos modelos de vôo.

As mesmas empresas contratadas para desenvolver a PMM também foram selecionadas para trabalhar no programa CBERS fornecendo a estrutura, os sistemas de telemetria e suprimento de energia, duas câmeras imageadoras, equipamentos de telecomunicações, computadores de bordo e transmissores de microondas. A participação da indústria nacional no desenvolvimento do CBERS hoje é de 83%.

A plataforma multimissão foi projetada inicialmente para voar com um catalisador importado, o S-405, comercializado pela empresa norte-americana Aerojet General Corporation. O catalisador do Inpe, desenvolvido por um grupo de pesquisadores do Laboratório Associado de Combustão e Propulsão (LCP), foi qualificado para durar 11 mil segundos, o dobro do tempo necessário para o seu funcionamento durante os quatro anos de vida útil do satélite em órbita.

Nos testes de qualificação realizados pelo Inpe, o catalisador nacional conseguiu decompor o dobro da quantidade de hidrazina prevista no projeto da PMM, segundo chefe do banco de testes do LCP, Carlos Eduardo Rolfsen Salles. Batizado de LCP-33R, o catalisador nacional é constituído de uma alumina especial impregnada com o metal irídio. A função do equipamento é criar os gases quentes que geram o empuxo necessário para que o propulsor possa controlar o satélite em órbita.

O desenvolvimento de um catalisador nacional é considerado um marco tecnológico para o Brasil, que até então enfrentava dificuldades para comprar o material no mercado internacional. Para vender o S-405, o mais utilizado no mundo hoje, a empresa americana Aerojet precisa de aprovação do governo dos Estados Unidos. "O domínio da tecnologia de produção de catalisadores é estratégica para o Brasil, pois além de abrir a possibilidade de o país de exportar o material, também é importante para a indústria química nacional", afirmou o chefe do LCP do Inpe, Demétrio Bastos Netto. Cerca de 90% de todos os produtos químicos sintéticos dependem de um catalisador.

Novos projetos
Segundo Netto, o grupo do LCP está envolvido agora no desenvolvimento de um dispositivo que usa a hidrazina e o rutênio para fazer a subida rápida de um submarino. "Também temos pesquisas em andamento para o desenvolvimento de catalisadores mais baratos à base de nitreto e carbeto, com aplicação na área espacial e também nas indústrias química e de refino de petróleo".

O projeto do catalisador LCP-33R teve ainda como parceiros o Instituto Militar de Engenharia, o Centro de Pesquisas da Petrobrás e a Université Pierre et Marie Curie. A qualificação do conjunto propulsor-catalisador foi feita no banco de testes de simulação de altitude do Inpe, em Cachoeira Paulista (SP), o único do gênero no Hemisfério Sul.kicker: Foram construídos quatro protótipos dos propulsores, mas o projeto prevê a fabricação de outras seis unidades.