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Brasil já domina tecnologia de álcool pesquisada pelos EUA

Publicado em 20 fevereiro 2006

Em poucos momentos da história, o Brasil pôde dizer, ao olhar para a maior potência econômica do mundo: "Estou à frente". Bem à frente. O discurso feito recentemente pelo presidente George W. Bush sobre o plano dos Estados Unidos de minimizar o "vício de petróleo" trouxe à luz uma tecnologia de produção de etanol já dominada no Brasil: a fabricação de álcool a partir de material celulósico. Bush deu seis anos para que pesquisadores alcancem uma solução tecnológica para extrair etanol de biomassa, de resíduos ou do próprio milho, cereal a partir do qual os Estados Unidos retiram o etanol - a custo proibitivo, viabilizado apenas por subsídios.
Prazo ambicioso, de acordo com analistas, para uma alternativa que os brasileiros consideram de difícil alcance competitivo. O problema estaria na rota tecnológica adotada pelos americanos, um processo de hidrólise enzimática, feita, como o nome diz, por enzimas. Não se trata apenas de obter as enzimas certas, mas desenvolvê-las, um negócio para indústrias com o perfil da farmacêutica, por exemplo.
E não é só este o desafio. Há um problema logístico: juntar nos centros de produção toda a biomassa necessária para ter escala. "Há barreiras importantes para que os Estados Unidos consigam ter etanol celulósico competitivo", diz José Luis Olivério, vice-presidente de operações da Dedini S.A. Indústrias de Base.
Projeto piloto - A pouco mais de 200 quilômetros de São Paulo, no município de Pirassununga, está a unidade de dimensão semi-industrial, com capacidade para produção de 5 mil litros por dia, onde, há duas safras, o bagaço, subproduto da moagem da cana (rico em material celulósico), é transformado em álcool. É um projeto piloto e inédito, sem literatura ou experiência de engenharia básica. A idéia surgiu na década de 80, dentro da Dedini. O conceito central é o de aproveitar 100% da cana. Ao contrário do que se imagina, a competitividade do álcool brasileiro no mundo se dá com o aproveitamento de apenas 1/3 de seu potencial.
É do caldo que sai hoje o combustível, cujo custo equivalente em barril de petróleo está próximo de US$ 43. O barril de petróleo tem um preço que hoje supera US$ 60. E a comparação nem é essa. Ninguém põe óleo cru no tanque do carro. O processo de refino consome algo entre US$ 8 e US$ 10 por barril, o que dá à cana vantagem ainda maior em relação ao petróleo. Mas o projeto que é tocado em Pirassununga, cuja meta é saber como construir uma unidade para 50 mil a 60 mil litros de álcool por dia, tem em si potencial para elevar ainda mais a produtividade por hectare de cana.
O processo, patenteado com o nome de Dedini Hidrólise Rápida (DHR), pode dar ao setor sucroalcooleiro a capacidade de processar os outros 2/3 de energia contidas na cana-de-açúcar: o bagaço (hoje mal aproveitado para a geração de energia elétrica) e a palha, a mesma que vira cinza em queimadas feitas para o preparo do corte manual ou que se transforma em cobertura de solo no corte mecanizado.
Aproveitamento - Os cálculos preliminares feitos pelos participantes do projeto DHR (integrado por Dedini, Centro de Tecnologia Canavieira - CTC e FAPESP) indicam que o aproveitamento integral da cana, inclusive com a otimizações do processo de queima de bagaço para geração de energia, é capaz de produzir 12.050 litros de álcool por hectare de cana cortada.
A média da cadeia sucroalcooleira atualmente é da ordem de 6,5 mil litros por hectare de cana cortada. A conversão do material celulósico do bagaço e da palha em açúcares, e estes fermentados e destilados para a produção de álcool, é algo que pode mudar o cenário brasileiro de fabricação de etanol. Ninguém anuncia quanto dinheiro já foi gasto nesta idéia, tampouco quantas usinas estão de olho no que se passa em Pirassununga, ao lado da Usina São Luiz, de propriedade da Dedini.
O fato é que os milhões de reais aplicados na idéia de aproveitamento universal da cana, que surgiu na década de 80, ficaram bem aquém da necessidade para agilizar o desenvolvimento da tecnologia, hoje opção dos americanos. "Coisas de Brasil", diz Olivério.
Isso está mudando. De acordo com Jaime Finguerut, gestor de pesquisa e desenvolvimento do CTC, a Finep aprovou recentemente um apoio financeiro de R$ 3 milhões ao projeto de pesquisa de bioetanol. Finguerut, um dos coordenadores do projeto, afirma que a meta da pesquisa é conhecer o potencial da cana-de-açúcar. "Há uma enorme expectativa sobre os resultados finais do experimento em Pirassununga. Será um salto inédito e importante para o País", afirma.